Carrie Fisher morreu hoje, aos 60 anos, afogada na luz do luar e estrangulada pelo próprio sutiã.

Ao menos, foi assim que ela pediu que sua morte fosse descrita em seus obituários, em certa passagem de seu livro “Wishful Drinking” – algo que nasceu de uma conversa com George Lucas durante as filmagens de Star Wars, quando, explicando por que a Princesa Leia não usaria sutiãs, o diretor disse que “não havia roupas de baixo no espaço”. Pode parecer uma forma absurda de falar sobre a atriz que viveu uma das personagens mais icônicas do Cinema, mas curiosamente apropriada para discutir sua personalidade, que a levou a escapar das armadilhas sexistas da indústria e a abraçar as próprias idiossincrasias – como ao insistir em ter seu cãozinho Gary como companheiro em quase todas as entrevistas que concedia.

Carrie Fisher nasceu em Hollywood. Literalmente. Filha de Debbie Reynolds (sim, a parceira de Gene Kelly em Cantando na Chuva) e do cantor Eddie Fisher, Carrie estreou nas telas em 1975, trabalhando sob a direção de Hal Ashby e contracenando com Warren Beatty em Shampoo. Mas, claro, dois anos depois ela se tornaria internacionalmente famosa ao encarnar Leia em Star Wars e, outros três anos depois, em O Império Contra-Ataca.

Transformando a Princesa em uma figura forte, independente e que, ao perceber que seus “salvadores” Han Solo e Luke não tinham muita ideia do que faziam, assumia a responsabilidade por seu próprio resgate, Fisher fugia completamente do estereótipo da “dama em apuros” – e, assim, é revelador como, logo após filmar O Império..., ela aceitou encarnar a “Mulher Misteriosa” de Os Irmãos Cara-de-Pau, vivendo a vingativa e perigosa ex-namorada do personagem de John Belushi e estabelecendo-se de vez como uma intérprete que oferecia um curioso contraste entre o rosto de traços juvenis e a intensidade de uma mulher sem paciência para as tolices dos homens que a cercavam.

Assim, mesmo que inevitavelmente os artigos sobre Fisher venham a se deter em sua participação na saga da família Skywalker, a verdade é que ela era uma artista infinitamente maior do que Leia. Comediante talentosa que conseguia provocar o riso não através de histrionismos, mas graças apenas ao timing impecável com que dizia suas falas, ela se destacou não só em Os Irmãos Cara-de-Pau, mas em filmes como Harry e Sally – Feitos um para o Outro, Meus Vizinhos São um Terror (onde voltou a contracenar com Tom Hanks depois de O Homem do Sapato Vermelho), Tem um Morto ao Meu Lado e Segredos de uma Novela, além de ter participado, claro, de Hannah e Suas Irmãs e do injustamente pouco visto Amazonas na Lua, atuando em um de seus melhores segmentos.

Aos poucos, porém, suas participações foram se tornando menores, muitas delas surgindo como pontas em que parte da piada residia justamente no fato de se tratar de Carrie Fisher – como em Austin Powers, Pânico 3 e no horrível Jay e Silent Bob Contra-Atacam. E, não à toa, em várias ocasiões ela surgia interpretando a si mesma (ou uma versão de si mesma), como em Gente Famosa, Mapas para as Estrelas e em séries como Big Bang Theory e Sex and the City.

A esta altura, contudo, Fisher já havia desenvolvido outros interesses, tornando-se uma autora respeitada (dois de seus livros gerariam adaptações para o Cinema; um deles, Lembranças de Hollywood, também roteirizado por ela), colunista ocasional de diversos veículos e uma script doctor frequentemente chamada para resolver problemas de roteiros que haviam empacado por alguma razão – e, nesta função (mas sem receber créditos), ela colaborou com Hook, Mudança de Hábito, Máquina Mortífera 3, Epidemia, Afinado no Amor e mesmo com A Ameaça Fantasma e O Ataque dos Clones, entre diversos outros. (Além de supervisionar os roteiros da cerimônia do Oscar por anos e anos.)

Mas a importância de Carrie Fisher vai além do Cinema: depois de se tornar um símbolo sexual com o biquíni dourado de O Retorno de Jedi, ela se tornou uma das críticas mais afiadas da objetificação feminina em Hollywood, recusando-se a emagrecer para certos papeis e reescrevendo os próprios diálogos para que fugissem do padrão sexista da “mocinha tola”. (E é possível encontrar na Internet, inclusive, a reprodução de uma página do roteiro de O Império Contra-Ataca que traz diversas de suas anotações.) Em certa ocasião, por exemplo, a atriz fez a seguinte declaração:

“O que eu não percebi, quando aos 25 anos virei uma pinup para geeks, foi que havia assinado um contrato invisível que me obrigava a continuar fisicamente igual pelos trinta anos seguintes. Bom, claramente quebrei aquele contrato. Em parte porque, para manter meu disfarce como ser humano, engravidei em certo momento.”

E como se tudo isso já não fosse suficiente para reconhecer sua vida memorável, Fisher se tornou uma das primeiras figuras públicas a assumir a bipolaridade com a qual havia sido diagnosticada, desempenhando o papel de discutir o preconceito contra pacientes de doenças psiquiátricas nas inúmeras entrevistas que deu ao longo dos anos – e considerando o imenso tabu com o qual estas patologias são tratadas, ter uma figura icônica falando com tanta franqueza e abertura sobre suas próprias experiências é algo imprescindível.

E é por isso que Carrie Fisher foi (e é) muito mais do que um biquíni dourado. Pois só alguém que levou uma vida incrivelmente memorável poderia ter partido afogada na luz do luar e estrangulada pelo próprio sutiã.

27 de Dezembro de 2016

 

  • Maria Catarina Fazzio em 30/12/2016 às 02:49

    Belíssimo texto! Parabéns!

  • Débora em 27/12/2016 às 23:10

    Que linda homenagem para uma mulher tão especial como Carrie foi! Obrigada pelo belo texto, Pablo!

 

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Colunista:

Pablo Villaça

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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