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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/02/2004 25/12/2003 2 / 5 4 / 5
Distribuidora
Duração do filme
154 minuto(s)

Cold Mountain
Cold Mountain

Dirigido por Anthony Minghella. Com: Jude Law, Nicole Kidman, Renée Zellweger, Brandon Gleeson, Philip Seymour Hoffman, Natalie Portman, Giovanni Ribisi, Donald Sutherland, Ray Winstone, Kathy Baker, Jack White, Ethan Suplee, Jena Malone, Melora Walters, James Rebhorn, Cillian Murphy.

Em Cold Mountain, o cineasta Anthony Minghella comprova algo que eu já havia suspeitado no aborrecido O Paciente Inglês: ele acredita ser David Lean. No entanto, enquanto seu compatriota conseguia combinar com elegância as dimensões épicas de suas narrativas com os dramas intimistas de seus personagens, Minghella falha em ambos os aspectos: seus filmes podem até possuir escalas grandiosas, mas estão longe de serem épicos; e os conflitos amorosos e sentimentais dos protagonistas freqüentemente soam artificiais e puramente melodramáticos. Para piorar, a obviedade de sua direção permite que o espectador antecipe tudo o que está para acontecer, eliminando, com isso, até mesmo a possibilidade de que as reviravoltas provoquem algum impacto.

Baseado em livro de Charles Frazier, Cold Mountain se passa na época da Guerra Civil Americana e gira em torno da jornada empreendida pelo jovem Inman Balis, um soldado confederado que deserta e decide voltar para sua cidade natal a fim de reencontrar sua amada, Ada Monroe. Ao longo do caminho, Inman encontra várias figuras estranhas enquanto tenta escapar de seus antigos colegas de exército, já que a punição por deserção é a morte. Por sua vez, Ada enfrenta a decadência do Sul, provocada pela guerra, e tenta sobreviver à miséria e aos avanços do inescrupuloso Teague, que aproveita sua posição como representante da `Lei` para tomar os bens de seus vizinhos latifundiários.

Os primeiros minutos de projeção, que enfocam uma das inúmeras batalhas entre soldados da União e da Confederação, são os melhores do longa, já que Minghella conduz com segurança a complicada seqüência e acrescenta detalhes que ilustram com eficiência a natureza sangrenta da guerra: em certo momento, por exemplo, vemos os soldados sulistas recolhendo casacos e botas de seus companheiros mortos a fim de redistribui-los para os que ainda continuavam na ativa. Da mesma forma, a fotografia `empoeirada` e as tomadas realizadas com a câmera na mão conferem um ar quase documental ao caos que se segue. Além disso, a explosão vista neste primeiro ato da narrativa é impressionante, retratando a força da bola de fogo ao mostrar as roupas de um pobre soldado sendo literalmente dissolvidas pelo calor.

Infelizmente, esta seqüência se encerra aos 15 minutos de projeção, deixando-nos entregues aos longos 140 minutos seguintes, que se dividem entre a viagem de Inman e as atribulações de Ada. Com relação à primeira, a maior surpresa (ao menos para mim, que não li o livro de Frazier) diz respeito às semelhanças entre as aventuras do soldado e a Odisséia, de Homero: das sereias (no caso, as ninfomaníacas lideradas pela sempre bela Melora Walters) à `feiticeira` que cuida das feridas de Inman, vários elementos do clássico grego aparecem em Cold Mountain, o que não deixa de ser interessante. Já o `crescimento` de Ada jamais soa verdadeiro, graças, em parte, ao desempenho de Nicole Kidman.

Kidman, por sinal, representa um dos pontos mais fracos da produção: depois de oferecer ótimas performances em obras como Dogville, As Horas, Moulin Rouge! e Os Outros, a bela atriz demonstra que também pode errar ao transformar Ada em uma figura irreal, destoando completamente do restante do elenco. Em nenhum momento, a moça parece realmente pertencer ao mesmo universo que a escrachada Ruby ou a sofrida Sally: sempre maquiada e limpa, Ada chega a irritar com sua voz frágil e infantil (problema que Kidman conseguiu contornar em seus outros trabalhos). Para piorar, o sotaque sulista da atriz é inconstante – e até mesmo os espectadores brasileiros poderão perceber facilmente a diferente cadência que ele assume em diversos momentos da projeção.

Jude Law, por sua vez, é prejudicado pelo fraco roteiro de Minghella, que não se preocupa em estudar as mudanças vividas por Inman: por que o rapaz, que inicialmente mostrava-se tão decidido a acompanhar seus amigos rumo à guerra, subitamente torna-se tão desiludido? É claro que o choque provocado pelo massacre visto no início da história contribui para alterar sua percepção, mas não explica sua revolta com relação às motivações do conflito (ele chega a dizer que não quer mais arriscar a vida `por uma causa na qual não acredita`). Ora, é claro que Minghella tentou, com isso, levar o espectador a ignorar o fato de que seu herói estava do lado `mais errado` da batalha, defendendo os interesses dos latifundiários escravagistas – o que não deixa der ser uma trapaça do diretor, que não responde como (e quando) Inman conclui que aquela `causa` não era mais a sua. O resultado é que o soldado torna-se uma figura nada dimensional – e sou capaz de apostar que boa parte do impacto da performance de Law deve-se à barba com a qual aparece a partir do segundo ato, e que confere um ar de sofrimento e sacrifício ao personagem. Jude Law é um bom ator (como podemos constatar em Gattaca e Estrada para Perdição) – mas sua `vaga` no Oscar 2004 deveria ter ido para Paul Giamatti, por Anti-Herói Americano.

Aliás, os desempenhos de Law e Kidman não falham apenas individualmente; o relacionamento entre seus personagens, que é, afinal de contas, o centro de Cold Mountain, jamais convence. Minghella trata o romance como algo trágico, dramático, mas se esquece de conferir veracidade ao envolvimento entre Ada e Inman. Como se não bastasse, o cineasta apela para uma cena ridícula ao tentar estabelecer uma ligação entre o casal, mostrando Inman capturando uma pomba no interior da Igreja. A última vez que vi algo tão risível foi no péssimo Lancelot – O Primeiro Cavaleiro, quando Richard Gere demonstrava sua comunhão com a natureza ao ensinar Julia Ormond a usar folhas de árvore para beber a água da chuva.

Já Renée Zellweger acaba se destacando justamente por dividir todas as suas cenas com a apagada Nicole Kidman, mas o fato é que Ruby também se torna bastante caricata (observe o modo exagerado com que ela caminha). Zellweger faz rir, é verdade, mas isso não deveria ser o bastante para lhe render uma indicação como Melhor Atriz. Em contrapartida, é importante ressaltar as ótimas atuações de três outros integrantes do elenco de Cold Mountain: Philip Seymour Hoffman está (como de hábito) impecável como o ambíguo Veasey; Kathy Baker comove com o sofrimento de Sally; e Natalie Portman protagoniza a única cena do filme capaz de provocar algum impacto emocional – e se alguém merece reconhecimento por seu trabalho nesta produção, é a garota. Pena que Zellweger é a queridinha da Miramax...

Para encerrar, Cold Mountain ainda comete o terrível equívoco de ignorar completamente os negros ao longo de seus 155 minutos de projeção – um erro que se torna ainda mais grave se considerarmos que a história se passa justamente durante a Guerra Civil Americana. Na realidade, os escravos só são utilizados para ilustrar a `bondade` de Ada, que se dispõe a servir refrescos para estes durante uma festa.

Ainda mais comprometido por uma conclusão típica de novela das 8, Cold Mountain é um filme que se destaca apenas por seus aspectos técnicos, o que é lamentável. Curiosamente, em certo momento da história, Kidman e Zellweger aparecem lendo O Morro dos Ventos Uivantes, cujo título apresenta óbvia similaridade com a `Montanha Gelada` de Charles Frazier. Pior para Minghella, que leva o espectador a fazer uma comparação involuntária entre o belo livro de Emily Bronte e a obviedade água-com-açúcar de seu filme.
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11 de Fevereiro de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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