Cinema Expresso

A Outra (Another Woman, EUA, 1988)
É incompreensível que este filme não seja citado com mais frequência quando se discute a obra de Woody Allen, já que, obra-prima inquestionável, é um de seus melhores trabalhos. Aliás, é uma pena que haja tão poucos filmes adultos (sobre e para) como este: é admirável sua complexidade ao discutir desejo, arrependimentos, a consciência do envelhecimento e da finitude e nossa capacidade de auto-ilusão. Além disso, mesmo para os padrões de Allen este é um elenco único: não só Gena Rowlands evoca de maneira magnífica o autocontrole que tanto prejudica a protagonista, mas cada membro secundário surge perfeito, de Philip Bosco a John Houseman (em seu último papel), passando por Martha Plimpton, Ian Holm e, claro, Mia Farrow. Mas é mesmo Gene Hackman quem me destrói em cada uma de suas aparições: quanta frustração por um amor que não se concretiza. Ao rever a amada anos depois (mesmo que num sonho desta), ele teme ouvi-la dizer que se arrependeu por não ficar com ele. Imaginem que coisa linda e triste: ouvi-la dizer que deveria ter ficado com ele provocaria dor em vez de júbilo. Só um artista maduro seria capaz de perceber isso. E Woody Allen, claro, percebeu. 5/5
A Rosa de Ferro (Le rose de fer, França, 1973)
Fugindo dos vampiros que protagonizaram todos os seus filmes anteriores, Jean Rollin ainda assim comprova, aqui, sua marca como um diretor de terror diferente do habitual: além da bela fotografia (algo ao qual ele sempre dedicou atenção), este A Rosa de Ferro usa a premissa (que muitos empregariam para um horror comum) a fim de construir uma narrativa mais preocupada com a atmosfera do que com uma trama. Sim, o ritmo é problemático – especialmente na longa sequência de dança final -, mas o tom de pesadelo é sempre envolvente. 4/5
Adrenalina Máxima (Sonatine, Japão, 1993)
É curioso notar como Takeshi Kitano subverte o gênero e a própria expectativa do público ao iniciar o filme seguindo as convenções esperadas e subitamente revelando que seu propósito é analisar como aqueles personagens se comportam em uma situação atípica de “férias” quase forçadas. No processo, ele extrai humor e humaniza indivíduos frios e implacáveis cujas explosões inesperadas de violências são retratadas com um distanciamento que oscila entre o divertido e o macabro. 4/5
Advantageous (Idem, EUA, 2015)
O roteiro tem o interesse óbvio de desenvolver e discutir vários temas simultaneamente: da obsessão com a juventude e a beleza até a maneira com que a sociedade tenta impor às mulheres um ideal estético cruel e impossível de se atingir, passando também pelo sexismo no qual ainda vivemos e que insiste em encarar a força de trabalho feminina como algo menos valioso. Infelizmente, além de contar com uma estrutura problemática, o filme ainda falha ao não conseguir explorar com eficiência nenhum dos tópicos, optando, em vez disso, por tentar provocar o choque com uma revelação tola que abre espaço apenas para o melodrama. 2/5
Publicidade
Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso (Alexander and the Terrible, Horrible, No Good, Very Bad Day, EUA, 2014)
Contando com momentos que são realmente inspirados, o filme compensa os outros que nem são tanto assim graças à sua breve duração, que não abusa do espectador, e principalmente à simpatia do elenco. 3/5
Atari: Game Over
Zak Penn é um roteirista talentoso que, depois de ter dirigido dois mockumentaries (ambos trazendo ninguém menos do que Werner Herzog como ator), aqui dirige um documentário que conta com o mesmo divertido senso de humor de seus projetos anteriores. Usando como pano de funda uma escavação para descobrir se realmente milhões de cartuchos de Atari do jogo “E.T.” foram enterrados no deserto pela empresa, Penn reconta a trajetória do console e tenta apontar as causas de seu colapso, entrevistando figuras-chave da época em um longa objetivo e interessante, ainda que soe superficial na maior parte do tempo. 3/5
Back Issues: The Hustler Magazine Story (Idem, EUA, 2014)
Embora tendo completo acesso às pessoas-chave da história da Hustler (graças ao fato de ser filho de um dos principais diretores de arte da revista), o diretor não consegue apresentar uma única informação que não tenha aparecido em O Povo vs. Larry Flynt, o que é uma proeza. Além disso, o sujeito aparentemente não faz muita ideia acerca do conceito de montagem ou mesmo direção, o que resulta num tom de amadorismo frustrante. 2/5
Balé 422 (Ballet 422, EUA, 2014)
A jornada criativa de Justin Peck ao conceber a coreografia do espetáculo que dá título ao documentário é acompanhada de forma interessante e reveladora, permitindo que o espectador realmente aprecie seu processo artístico e também a escala ambiciosa (e, consequentemente, intimidadora) da produção. 4/5