Festivais e Mostras Festival de Berlim 2017 - Dia #01

A cobertura de um evento como o Festival de Berlim é estimulante e desgastante na mesma medida. Se tenho a oportunidade de assistir a diversos filmes que têm o potencial de se estabelecer entre aqueles mais importantes do ano, descobrindo obras em suas estreias mundiais, escrever sobre dezenas de trabalhos no espaço de apenas dez dias é uma tarefa cansativa – especialmente por ter que fazê-lo ao fim do dia, depois da última sessão, e encontrar tempo suficiente para dormir algumas horas antes da primeira exibição do dia seguinte.

Sendo assim, não vou perder tempo com introduções.

O primeiro título visto na Berlinale, que faz parte da mostra Fórum, foi a produção alemã Casting, dirigida pelo ator Nicolas Wackerbarth e co-escrita por este ao lado de Johannes Held. Ambientada no espaço de três ou quatro dias, a trama acompanha a pré-produção de uma refilmagem de Petra von Kant, de Fassbinder, para a tevê alemã. Comandado por Vera (Judith Engel), uma documentarista em seu primeiro trabalho ficcional, o projeto empaca a poucos dias do início das filmagens em função da indecisão da diretora com relação à escalação do elenco, já que insiste em testar e retestar várias atrizes para o papel-título.

Extraindo comicidade do desespero crescente dos produtores e da equipe de Vera, Casting encontra espaço também para explorar as inseguranças dos personagens: cada atriz testada, por exemplo, traz suas próprias questões, desde a frustração pela dificuldade em conseguir papéis para intérpretes mais velhas até a convicção de que passar por um teste depois de famosa seria uma humilhação. Em meio a tudo isso encontra-se Gerwin (Andreas Lust), um ex-ator contratado pela produção para atuar com as várias atrizes durante as audições e que, aos poucos, redescobre suas ambições artísticas abandonadas e começa a sonhar com a possibilidade de ser escalado para o papel que está vivendo apenas como um stand-in.

Ao adotar uma câmera sempre móvel, na mão, Wackerbarth confere um ar de making of ao longa, capturando certos momentos de vulnerabilidade quase como se fossem acidentais – e, no processo, é auxiliado pelo elenco impecável. Engel, como Vera, convence o espectador de que a hesitação de sua personagem vem de seu perfeccionismo e do desejo de realizar sua visão (até ao escolher um cobertor para si mesma ela se mostra precisa), evitando que atribuamos tudo a um estrelismo antipático. Enquanto isso, Lust, que aos poucos se apresenta como o verdadeiro protagonista da narrativa, atravessa um arco eficiente, desde a postura relaxada, descompromissada, do início até o empenho quase desesperado que passa a apresentar ao perceber que talvez possa ser escalado de fato.

Um arco que a cena final de Casting completa com a mesma combinação de humor e tristeza presente no restante da projeção.

Por falar em arco dramático, o de Django, segundo filme que vi no dia, é também eficiente, embora convencional: tendo início em 1943, quando a França já estava ocupada pelos nazistas, este trabalho de estreia (como diretor) de Étienne Comar aborda as experiências de Django Reinhardt (Reda Kateb) no período, quando, em função de seu absurdo talento, contava com uma liberdade atípica sob o regime dos seguidores de Hitler, já que era cigano. E é aí que entra a trajetória adotada pelo roteiro que Comar e Alexis Salatko escreveram a partir do livro deste último: se inicialmente ele se contenta com sua posição (“Não é minha guerra; eu toco música.”), aos poucos Reinhardt passa a perceber que tem certa responsabilidade para com seu povo, que vem sendo dizimado pelos alemães.

Interpretado por Kateb com vitalidade e carisma, o Reinhardt desta produção divide-se entre a lealdade à esposa Naguine (Bea Palya) e a atração por Louise de Klerk (Cécile de France), cuja influência, associada à admiração que mantém pelo músico, revela-se irresistível, mas também conveniente. Além disso, o filme se mostra determinado a ilustrar o talento prodigioso e a velocidade de Django ao tocar – algo ainda mais impressionante se considerarmos que dois dos dedos de sua mão esquerda foram inutilizados pelo fogo.

Contudo, não são apenas os planos-detalhe de seus dedos dançando sobre as cordas que ilustram o poder de sua música; apresentando-se em um contexto no qual os nazistas insistiam em evitar manifestações extremas em público (e a dança se incluía nisso), Django constantemente recebia instruções para evitar o blues (“música de negros”), solos extensos e até mesmo balançar os pés ao tocar. E, assim, quando aos poucos vemos suas performances contagiando o público a ponto de levá-lo a se levantar e a dançar em seus lugares num teatro, o diretor reforça o sentimento ao passar a movimentar sua câmera com mais agilidade e a acelerar a montagem, numa estratégia narrativa eficaz.

Não sei até que ponto o roteiro de Django se baseia em fatos verídicos, mas o principal o longa alcança: retrata o talento inigualável de seu personagem-título, ilustra as dificuldades artísticas que certamente enfrentou no período e, ainda mais importante, presta uma homenagem aos milhares de ciganos mortos na Guerra.

E já que estamos falando da Segunda Guerra, outro título exibido hoje (como parte da seção da Berlinale Special) foi o belga Bye-Bye, Germany, que, a julgar pela vinheta da Warner antes da sessão, já tem distribuidor nos Estados Unidos. Aliás, depois de assistir ao filme, é fácil entender o motivo, já que se trata de uma daquelas produções que, trazendo a história (supostamente) real de um sobrevivente do Holocausto, é contada de maneira leve o bastante para não deprimir o público – e o fato de isto prejudicá-la parece ser irrelevante.

Dirigido por Sam Garbarski a partir de um roteiro que co-escreveu com Michel Bergmann, o longa gira em torno de David Berman (Moritz Bleibtreu), que solicita uma licença para abrir uma loja na Alemanha pós-Guerra, como era direito de todo judeu, mas se surpreende ao receber uma recusa. Para contornar o problema, ele reúne um grupo de conhecidos e passa a vender lençóis, tolhas e itens similares para famílias alemãs. E por que alemãs? Porque as táticas de venda adotadas frequentemente cruzam a fronteira do golpe, o que eles justificam moralmente como sendo uma espécie de “vingança judia”. Ao mesmo tempo, o protagonista passa a ser interrogado por uma oficial do exército norte-americano, Sara (Antje Traue), e descobre estar sendo investigado sob a suspeita de ter colaborado com os nazistas.

A partir disso, o filme passa a ser estruturado em torno da série de depoimentos durante os quais David revela como seu talento para contar piadas não apenas salvou sua vida como o colocou suficientemente próximo a Hitler para imaginar a possibilidade de matá-lo (e por isso ressalto o “supostamente”). Aliás, um dos problemas de Bye-Bye, Germany diz respeito justamente à falha lógica da qual o roteiro depende para desenvolver sua narrativa, já que as conversas entre David e Sara são interrompidas com tanta frequência, para que possam durar toda a projeção, que o depoimento se arrasta implausivelmente pelo que parecem ser semanas.

Mas o maior problema da obra é o conflito entre seu desejo de ser leve o bastante para divertir o público e seus esforços constantes para exibir gravitas – uma contradição que o condena a falhar em ambos os propósitos. Mas se as tentativas de humor são infantis (como a “piada” recorrente que traz o protagonista arrumando com cuspe os cabelos de um colega, mas sempre fracassando em domar uma mecha), acabam se revelando suficientes para eliminar completamente o peso dramático em potencial de incidentes que deveriam emocionar, como o suicídio de um conhecido de David ou seu reencontro com um oficial que comandava o campo no qual foi mantido.

E por mais que o filme tente manter o espectador incerto acerca da verdade por trás das histórias do sujeito, estas tentativas jamais convencem, eliminando, com isso, a última chance de complexidade do projeto.

Já o quarto título do dia foi o drama francês Barrage, escrito por Marie Nimier e Laura Schroeder e dirigido por esta última. Funcionando como um bom estudo de personagem, ele acompanha Catherine (Lolita Chammah), que retorna à sua cidade natal depois de dez anos a fim de retomar o contato com a filha Alba (Themis Pauwels), que deixou sob os cuidados de sua mãe, Elisabeth (Isabelle Huppert).

Adotando uma abordagem visual sutil, mas elegante, Schroeder ilustra a distância entre Catherine e Alba já de imediato ao situá-las em pontos extremos do quadro em seu primeiro encontro – e mesmo quando elas surgem sentadas lado a lado, em um parque, a diretora faz um belo contraponto através da montagem, alternando a imagem com a de uma jovem mãe que brinca com sua bebê enquanto as duas personagens dividem um silêncio desconfortável.

Porém, Barrage é um projeto movido por suas atuações – e Chammah, que vive a protagonista, oferece um desempenho excelente, sugerindo certa instabilidade subjacente associada a uma tristeza palpável. É notável, por exemplo, quando ao jogar tênis com a filha (esporte ao qual ambas foram conduzidas pela avó vivida por Huppert), Catherine começa a sorrir aos poucos, sugerindo um prazer redescoberto na atividade, apenas para irritar-se com os comentários da criança sobre a forma como está rebatendo, o que obviamente a faz lembrar das críticas e da pressão exercida por sua mãe. Surgindo constantemente com as mãos fechadas e tensas, a atriz evoca uma vulnerabilidade tocante que nos faz torcer por seu sucesso ao reaproximar-se da filha ao mesmo tempo em que tememos pelo momento no qual inevitavelmente colocará tudo a perder. E se a pequena Themis Pauwels se mostra promissoramente expressiva, é claro que Isabelle Huppert faz o trabalho impecável de hábito – e é sempre curioso como ela é capaz de demonstrar reprovação como se isto fosse algo óbvio, brigando com a filha com um ar de quem ainda espera ser considerada extremamente paciente.

Assim, é uma pena que a narrativa acabe se estendendo mais do que o ideal, começando a soar repetitiva a partir do final do segundo ato – e mesmo admirando o simbolismo de planos como aquele em que vemos Alba percorrendo uma ponte entre a mãe e a avó, é difícil não achar que estes reforçam apenas o que se tornou óbvio há um bom tempo.

Para encerrar o dia, assisti ao ótimo sul-africano The Wound, estreia do diretor John Tregove, que assina o roteiro ao lado de Malusi Bengu e de Thando Mgqolozana. Abordando o ritual (real) de circuncisão seguido pela comunidade Xhosa e realizado para marcar a transformação dos jovens em Homens, o filme gira em torno de Xolani, que é contratado por um sujeito rico de Johanesburgo para guiar o filho deste durante o processo, que dura vários dias. “Ele é muito mole e às vezes se tranca com os amigos no quarto”, lamenta o pai, instruindo o protagonista para ser rígido com o garoto.

O que ele não sabe, obviamente, é que Xolani é homossexual. Aliás, ninguém sabe – a não ser Vija (Bongile Mantsai), amigo de infância de “X” (como o chama) e que todo ano, durante o período do ritual, transa com este (sempre como o parceiro ativo, o que, em sua mente, não o torna gay). E assim forma-se o tema básico do filme, que contrapõe o tradicional ritual de “macheza” à natureza delicada e gentil do personagem principal, que o segue apenas para poder se encontrar com Vija todos os anos.

Vivido pelo cantor, compositor e escritor Nakhane Touré, que aqui estreia de forma fabulosa como ator, Xolani é um jovem tímido e introspectivo, sendo digno de aplausos como seu intérprete consegue transmitir tantas e complexas emoções apenas através de seu olhar – e a maneira encantada como olha para Vija, obviamente apaixonado, torna-se trágica quando constatamos a frieza deste último e sua resistência em aceitar que o que mantém com o outro é uma relação de natureza romântica e/ou sexual. Além disso, The Wound faz um afiado comentário social ao observar o contraste entre as realidades do adolescente Kwanda (Niza Jay Ncoyini), criado com conforto econômico, e os demais participantes do ritual.

Apostando numa linguagem quase documental ao desenvolver a narrativa, Tregove adota a câmera sempre na mão, cortes secos e – na maior parte do tempo – sons puramente diegéticos para mergulhar o espectador na realidade que retrata. E, no processo, se apresenta como uma revelação tão promissora quanto seu protagonista.

9 de Fevereiro de 2017

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.