Colunas Festival de Berlim 2017 - Dia #07

Abri o sétimo dia com a produção portuguesa Colo, escrita e dirigida por Teresa Villaverde. Focando numa pequena família composta por pai (João Pedro Vaz), mãe (Beatriz Batarda) e uma filha de 17 anos (Alice Albergaria Borges), o filme basicamente retrata a desintegração deste pequeno núcleo em função das tensões impostas pela grave crise econômica do país.

Este é o tipo de história, aliás, que não vemos na mídia, que, sempre preocupada com grandes números, taxas de juros e em interesses corporativos, basicamente ignora os efeitos que cada uma das decisões de governos voltados apenas para os mais abastados provoca nos cidadãos da classe média para baixo. É mais simples descrever os acordos escusos feitos nos bastidores do poder para aprovar uma reforma na previdência que condenará o trabalhador médio a permanecer em atividade até morrer do que investigar a degradação psicológica e emocional de um homem ou de uma mulher que não encontra emprego há meses e vê não uma viagem adicional à Disney comprometida, mas a conta de luz, da escola do filho ou do supermercado.

É numa destas famílias de classe média que a diretora Villaverde se concentra: ocupando um pequeno apartamento (que fica ainda menor graças à cor das paredes escolhida pela direção de arte), o trio enfrenta um cotidiano de sacrifícios cada vez maiores. Enquanto a mãe trabalha em dois empregos, o pai passa o dia em casa fermentando frustrações e paranoias, ao passo que a adolescente se preocupa ao observar a situação dos pais e também com a melhor amiga (Clara Jost, filha da diretora), que descobriu estar grávida.

Cada vez mais isolados uns dos outros (destaco o belo plano no qual os vemos a partir de fora do prédio, separados por janelas como se presos em pequenas gaiolas como a que a garota mantém no quarto), aqueles indivíduos perdem não apenas o poder aquisitivo e sua posição na sociedade, mas a si mesmos. Direcionando o bom elenco para que empregue um tom monocórdico, deprimido, em quase todas as falas (o que não tira a graça de diálogos como “Um balde na cabeça é um balde na cabeça”, hilário em seu contexto), Teresa Villaverde tem um bom ouvido para as dinâmicas internas de um grupo como aquele, sendo perfeita a maneira como a mãe, ao sair para o trabalho, pede que o marido não brigue com a filha por ter chegado tarde, deixando a conversa para quando ela retornar. Além disso, é comovente testemunhar a confusão da jovem diante do desequilíbrio dos mais velhos, especialmente quando após perceber o estado lamentável em que o homem se encontra, ela diz para si mesma, baixinho: “Meu pai”.

Fruto de uma sensível observação do comportamento humano, Colo compreende como gostamos todos de nos imaginar fortes e de acreditar que, numa situação cada vez mais desesperada, manteríamos a calma e o bom senso. É reconfortante pensar assim, mas, quando o dinheiro não chega ao fim do mês e as contas não param de se acumular, o conceito que temos de nosso próprio valor pode se desmontar rapidamente. A dignidade é uma das primeiras coisas que os poderosos tiram de seus cidadãos. É mais fácil controlá-los assim.

O segundo filme ao qual assisti no sétimo dia da Berlinale foi o drama romântico (ou romance dramático) Return to Montauk, que, embora seja produção alemã, é praticamente todo falado em inglês e se passa em Nova York. Dirigido por Volker Schlöndorff, o longa segue o escritor Max Zorn (Stellan Skarsgår), que viaja para os Estados Unidos para o lançamento de seu mais recente livro em uma tour arduamente planejada por sua esposa Clara (Susanne Wolff). Talvez estimulado pelo tema da obra, em quel discutiu um antigo romance do qual nunca se recuperou totalmente, Max procura em Nova York a ex-namorada Rebecca (Nina Hoss), agora uma advogada bem-sucedida e que inicialmente o enxerga com certa hostilidade.

Mistura de romance e estudo de personagem, Return to Montauk se ancora em suas atuações centrais, excelentes (especialmente Hoss), para refletir sobre como tendemos a lançar um olhar para o passado que o torna mais romântico do que foi ou poderia voltar a ser caso revivido. Mais do que isso: é um filme centrado em um homem que, percebemos ao longo da projeção, gosta de se acreditar mais maduro e sofisticado do que é na realidade – e que parece cego para seu próprio egocentrismo (em alguns momentos, confesso que senti desconfortáveis tremores de autorreconhecimento; mas isto é algo para discutir na terapia).

Aliás, qualquer obra que inspire alguma autorreflexão já tem seu valor. Assim, mesmo reconhecendo que Return to Montauk não é uma produção das mais marcantes, fiquei feliz por tê-la visto. Ou talvez “feliz” não seja a melhor palavra, mas você sabem o que quero dizer.

E por falar em saber o que se quer dizer...

Não Devore Meu Coração é um filme que mira alto. Ele busca, ao mesmo tempo, falar sobre a animosidade entre brasileiros e paraguaios resultante da guerra, aborda as disputas entre fazendeiros brasileiros e os índios guarani, retrata a intensidade da descoberta do primeiro amor, discute lealdade e honra e reflete as consequências da falta de perspectivas de personagens que se sabem encurralados em um mundo de pobreza. Para cumprir todos estes objetivos, a obra investe em uma abordagem ao mesmo tempo histórica e mítica, naturalista e simbólica, apresentando-nos também a um cenário pouco explorado pelo Cinema brasileiro.

Mas é apenas natural que o projeto mire alto, já que foi escrito e dirigido por Felipe Bragança, um roteirista bem-sucedido que conta com um excelente domínio de estrutura, narrativa e desenvolvimento de personagens, sendo responsável, por exemplo, pelos excelentes roteiros de O Céu de Suely, Heleno e Praia do Futuro. Aliás, é justamente a experiência de Bragança que torna tão curioso que o componente mais frágil aqui seja a concepção das figuras que movem a história e que estão inseridas num universo bem mais fascinante do que elas.

Uma destas figuras é Joca (Eduardo Macedo), um menino de 13 anos que se encontra apaixonado por Basano (Adeli Benitez), uma índia guarani que se identifica como rainha do rio Apa, que passa entre os dois países e no qual vários corpos de camponeses paraguaios vêm surgindo. Enquanto isso, o irmão mais velho de Joca, Fernando (Cauã Reymond), disputa pegas de motocicleta como parte da “gangue do Calendário” liderada por Telecatch (Marco Lori), enfrentando um grupo composto por paraguaios e entre os quais se encontra Alberto (Mario Verón), primo de Basano que insiste para que esta se torne sua namorada.

Hábil em estabelecer todos estes personagens e as tramas e subtrama nas quais se inserem, Não Devore Meu Coração deixa patente a frustração de Fernando por morar com a mãe e ter que se responsabilizar pelo irmão caçula (que ele trata com gentileza), conseguindo firmar também a imagem de Basano, que resiste às declarações de Joca nem tanto por rejeitá-lo como possível namorado, mas por se orgulhar de sua própria ascendência guarani e de seu papel em representá-la – e suas recusas atuam, deste modo, como uma espécie de resistência à assimilação cultural (e é sintomático também que a situação de sua comunidade seja tão precária a ponto de ela enxergar Joca como sendo um “garoto rico” quando, provavelmente, ele é apenas um pouco menos pobre do que ela).

Dito isso, aí entram os problemas que mencionei a respeito dos personagens, que falham em envolver o espectador em suas aspirações: Joca, por exemplo, soa mais como stalker do que como um pré-adolescente romântico, ao passo que Basano em diversos momentos surge cruel e maniqueísta. E como Fernando é também uma figura no mínimo moralmente ambígua (no mínimo mesmo), não sobra ninguém para ancorar o público na narrativa, que ainda peca por introduzir elementos aleatórios de homossexualidade e homofobia (Fernando se revolta com “as maldades que ficam falando de mim e do Telecatch”) que não se encaixam aos demais  (e a ponta de Ney Matogrosso é pura distração).

Em contrapartida, o roteiro absorve e reutiliza de forma eficaz elementos de Romeu e Julieta, criando não só um romance entre “famílias” inimigas, mas ao incluir suas próprias versões de Mercúcio e Tibaldo. Além disso, Bragança se equilibra bem entre o realista e o fabulesco, contribuindo para este último a ótima trilha eletrônica de Baris Akardere, que contribui para evocar um tom onírico e em diversos instantes remete àquelas que Vangelis compunha na década de 80. Aliás, suponho que não seja coincidência o fato de o diretor pontualmente fazer referências visuais a alguns filmes da década – especialmente os de Spielberg – ao trazer os garotos andando de bicicleta, segurando lanternas em meio à névoa e (no caso de Joca) usando um casaco com um capuz vermelho idêntico ao de Elliot em E.T. Um destes detalhes poderia até ser acidental, mas, juntos, indicam uma influência bem processada por Bragança (eu poderia até ir além e ler uma citação a Os Garotos Perdidos nas corridas de moto à noite e no plano em que a gangue – com todos os seus integrantes usando casacos de couro - é vista alinhada sobre um pátio de cimento em uma imagem similar àquela protagonizada pelos seguidores de Kiefer Sutherland).

Para completar, Não Devore Meu Coração cria alguns planos de inspiração ímpar, como o que traz Joca e Basano num rio, cercados por vagalumes, e aquele no qual a menina se posiciona diante de um carro, cujo motor ronca como se o veículo fosse um animal selvagem domado pela firmeza da índia.

Eficiente ao projetar um ar fantástico, alucinatório, a incidentes que acontecem de fato na trama, Felipe Bragança reconhece como isto confere peso simbólico ao filme, tornando-o ainda mais denso pela contraposição entre o sonho e a realidade – um dos tantos alvos que o cineasta acerta em cheio.

A quarta sessão do dia foi um pequeno tropeço: embora se proponha a investigar o programa desenvolvido por monges Shaolin para aplicar o kung fu ao treinamento de futebol, melhorando seus atletas (sejamos sinceros: com esta descrição, quem não gostaria de vê-lo?), o documentário alemão Ironhead (Eisenkopf), dirigido por Tian Dong, logo perde o foco de seu próprio objetivo e se entrega a uma serie de cenas repetitivas sobre a escola de modo geral, bem como a entrevistas com três de seus alunos (um deles ao menos é divertido) e seu diretor. Um desperdício de oportunidade.

Felizmente, este não foi o último filme do dia.

A Cidade Perdida de Z pode até estar presente no título desta ambiciosa produção dirigida e roteirizada pelo ótimo James Gray a partir de um livro de David Grann, mas não é seu elemento central. Este papel cabe a um tema ainda mais interessante do que a busca por ruínas de um lugar mitológico: a obsessão que esta desperta no herói.

Vivido por Charlie Hunnam a partir de uma figura real, o explorador Percy Fawcett foi um oficial britânico que nos primeiros anos do século 20 foi designado por seus superiores para encabeçar uma missão ao Amazonas patrocinada pela Royal Geographical Society. Aceitando a tarefa com o propósito principal de recuperar o nome de sua família (“Ele tem sido desafortunado em sua escolha de ancestrais”, explica alguém do modo mais inglês possível), Fawcett é acompanhado na jornada por Henry Costin (Robert Pattinson) enquanto sua leal esposa Nina (Sienna Miller) permanece na Inglaterra cuidando sozinha dos filhos. Depois de descobrir artefatos arqueológicos na selva, contudo, o major Fawcett se torna obcecado com a ideia de encontrar a cidade da qual estes vieram, retornando à floresta e aos seus perigos mais duas vezes ao longo dos 20 anos seguintes.

Com uma fotografia soberba do veterano Darius Khondji, The Lost City of Z expõe os sacrifícios feitos por Percy ao retratar de maneira quase idílica seus momentos com a família, transformando também a floresta amazônica em um paraíso de cores fortes, mas também ameaçador, com quadros fechados que constantemente sugerem a claustrofobia e a desorientação provocadas pelas paredes de verde e que se contrapõem à frieza de boa parte das cenas ambientadas em Londres. Assim, visualmente já compreendemos por que o militar, mesmo iniciando sua viagem por ambição, logo se torna apaixonado pelo que descobre, desenvolvendo um imenso respeito pelos nativos que conhece.

A palavra “nativos”, diga-se de passagem, tem importância primordial na maneira como Fawcett enxerga aquele mundo novo, já que se recusa a empregar, como seus conterrâneos, o termo “selvagens” para descrever os índios. Aliás, o filme se esforça ao máximo para evitar estereótipos, retratando os povos encontrados ao longo da expedição como comunidades multifacetadas e bem mais sofisticadas do que os britânicos aceitam reconhecer. Na verdade, se há selvagens neste longa, estes são os homens brancos que, como o próprio protagonista afirma, se entregam aos preconceitos despertados pela religião e pela arrogância para diminuir e destruir os nativos (o cineasta inclui momentos que expõem as marcas de chicote nas costas de um índio e a maneira animalesca com que um barão da borracha escraviza dúzias deles). Por outro lado, a integração daqueles povos com a natureza é ressaltada pelo modo como pescam apenas a quantidade necessária para alimentar a tribo e também pela forma como cultivam suas plantações em meio à floresta.

Sem depender de vilões para mover a trama (o mais próximo disso que o roteiro traz é um sujeito covarde que compromete uma das expedições com suas ações inconsequentes), The Lost City of Z usa a ignorância dos colonizadores como ameaça, tanto ao provocar conflitos sangrentos (há uma sequência eficaz nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial) como ao destruir as civilizações que encontra – algo que o protagonista se esforça para impedir, lançando-se em suas expedições para evitar que exploradores menos conscientes o façam.

Funcionando como uma aventura clássica ao trazer os heróis enfrentando canibais (nem estes são vistos como monstros), piranhas, animais selvagens e a pura exaustão, o longa é dirigido com elegância por James Gray, cuja decupagem cuidadosa resulta em belos cortes como aquele no qual uma bebida escorrendo faz um raccord gráfico com um trem que atravessa a tela. Além disso, o design de produção faz uma impecável recriação de época(s) e provoca choques bem-vindos como aquele nascido da revelação da fazenda Jacobina e da apresentação de uma ópera no meio da Amazônia. Para finalizar, a ideia de usar as cartas trocadas por Percy e Nina como narração em off para suavizar certas elipses pode não ser original, mas é eficaz.

Sienna Miller, diga-se de passagem, transforma a sra. Fawcett em uma personagem bem mais complexa do que poderíamos supor a princípio, evitando compô-la apenas como “a esposa do herói” e convertendo-a em uma mulher independente, forte e que protagoniza o momento mais tocante da projeção em um monólogo no terceiro ato. Enquanto isso, Robert Pattinson continua a provar que (como Kristen Stewart) teve seu talento desperdiçado na série Crepúsculo, trazendo humor e inteligência a Costins, ao passo que Charlie Hunnam traz carisma, intensidade e peso emocional ao protagonista, atravessando convicentemente o processo de envelhecimento de Percy e permitindo que vejamos em seus olhos a obsessão crescente por sua busca insana, fascinante e corajosa.

15 de Fevereiro de 2017

(Ei, se você gosta das coberturas de festivais - e se curte as críticas que lê aqui no Cinema em Cena -, saiba que ficamos bastante felizes, pois o site precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Para saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Publicidade
Publicidade
Publicidade

Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.