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Arábia: a obscuridade compartilhada Brasil em Cena

Ganhador de cinco prêmios no Festival de Brasília de 2017, Arábia é o primeiro longa metragem dos cineastas mineiros João Dumans e Affonso Uchôa e estreia nesta quinta-feira (05 de abril) no circuito nacional. O filme começa com a história de dois irmãos, que contam com uma tia enfermeira para cuidar deles, em uma cidade industrial de Minas Gerais. Um dos operários conhecidos da tia, Cristiano, sofre um acidente de trabalho e ela pede ao sobrinho mais velho, André, que vá à casa do rapaz para buscar roupas, enquanto ele segue internado. Na casa de Cristiano, André encontra um caderno com anotações do operário, contando sua vida. Começa, então, outro filme, dentro do primeiro, centrado na história de Cristiano.

“Nós queríamos que a história do Cristiano surgisse como algo obscuro, que foi deixado de lado diante daquela euforia toda pelo crescimento econômico”, comenta Affonso Uchôa, situando o início do projeto em 2014, portanto, ainda no primeiro mandato da ex-presidenta Dilma Roussef. “Era uma forma de lembrar que nem todo mundo venceu, que o ganha-ganha nunca foi real, que existem aqueles que sempre perdem-perdem”, segue Affonso.

“Só que, na verdade, o Brasil hoje é a pedagogia constante de que a realidade é muito mais absurda e muito mais rápida do que o cinema ou qualquer arte pode supor. Se estávamos pensando em mostrar o lado obscuro naquele momento, hoje ele já não é obscuro. Quando acontece o golpe de 2016 e a força liberal toma o poder, não é mais questão de lembrar o lado obscuro de um momento que era otimista. Agora, a obscuridade deve ser compartilhada”, acrescenta o diretor.

A história de Cristiano mostra um brasileiro como tantos, que começa a vida na lavoura, passa pela construção civil e acaba na indústria. “Essas indústrias estão na base do desenvolvimentismo brasileiro, ainda mais em um contexto como Minas Gerais, uma economia muito dependente do extrativismo, da mineração. São questões que perpassaram o desenvolvimento econômico brasileiro nos últimos quinze anos”, comenta Dumans.

“Hoje, tanto em termos sociais quanto ambientais, a gente sofre as consequências desse modelo e isso está claro em vários lugares, não só em Minas Gerais, como também no Pará, com esses desastres ambientais”, prossegue Dumans. “Também quisemos pensar nessa industrialização que tomou conta do interior do País. A gente sempre associa a industrialização ao ambiente urbano, ao fenômeno da favelização, que é também importante, mas queríamos abordar como esses processos industriais desenvolvimentistas também moldam a experiência e as paisagens do interior do País”, acrescenta.

Em primeira pessoa

O processo de produção do filme foi pouco ortodoxo, nas palavras dos próprios diretores. “A gente escreveu um roteiro no início, mas ele foi mudando muito em função das circunstâncias, das coisas que iam aparecendo”, lembra Dumans. “Filmamos uma primeira parte do filme em 2014. Mas fomos nos aprofundando, principalmente na história do operário, que ocupa a segunda parte do filme, e resolvemos mergulhar nela e fazer dela um relato de fôlego. No primeiro desenho, ela era uma história menor e se desenhou em um épico, porque então passamos a querer que ela fosse o relato de dez anos na vida desse trabalhador”, acrescenta.

Depois de fazer um primeiro corte do filme, de entender certas coisas, de vislumbrar outras que sequer tinham se dado conta enquanto escreviam, os diretores enfim se decidiram quanto ao final da história, o que implicou em um novo roteiro e novas locações. O último tratamento do roteiro servia como um programa de filmagem, para saber que locações seriam necessárias. “À medida em que íamos avançando e as ideias iam se transformando, percebíamos que seriam necessárias cenas que nem estavam naquele roteiro. E aí nós enlouquecíamos a produção, para ir atrás de ator, atriz, locação, para concretizar o que ia se formando na evolução do filme!”, lembra Dumans.

“Foi um processo atípico, longo, em que várias influências diferentes foram entrando, até dar no filme final, que é muito diferente de qualquer coisa escrita que a gente tenha, seja o filme, seja o roteiro do meio do filme”, lembra Uchoa. Desde o início, no entanto, havia a presença de um grande off, conduzindo a maior parte do filme. “O off não apareceu para salvar nada”, diz Uchoa, sobre soluções desse tipo que eventualmente aparecem em produções.

“Para nós, a palavra tinha que ter uma função muito clara, nunca sendo acessória e muito menos muleta de nada. Como tínhamos baseado boa parte do filme em off, a gente sabia que tinha que ser preciso nas imagens. Mas, até chegarmos a essa precisão, houve um grande trabalho de montagem, porque algumas coisas que achamos que eram precisas, na verdade eram muito derramadas. Então, fomos trabalhando e reescrevendo, antes, durante e depois das filmagens. Na verdade, foi na montagem que nós chegamos ao formato final do off, inclusive, porque ele era sete vezes maior do que ficou no filme”, lembra Uchoa.

Aristides de Souza, o Cristiano, prêmio de melhor ator no Festival de Brasília

Reforma trabalhista

As condições de exploração em que vivem Cristiano e seus companheiros ecoa muito das discussões recentes, sobre a reforma trabalhista ocorrida no atual governo. “Nós não tínhamos a intenção de falar ou plasmar o tema da reforma trabalhista. Queríamos abordar um momento específico do Brasil, por meio de uma história que se torna universal, porque qualquer lugar do mundo pode se conectar a ela”, diz Uchoa.

“O que quisemos dizer, com a história do Cristiano, era o estado do medo, um medo endêmico que o mundo vive desde o final dos anos 1980, com o neoliberalismo, reduzindo a experiência da vida ao status de mercadoria. É isso que gera as reformas trabalhistas, essa necessidade de que as pessoas não tenham mais agrupamentos coletivos, de que a individualidade vença. Nós queríamos mesmo era falar do estado do mundo que gera as reformas, que gera a demanda pelas reformas, em um mundo tão dominado pelas empresas que elas chegam ao ponto de criar as leis que mais as atendem”, conclui Uchoa.

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