Brasil em Cena A vida extra-ordinária de Tarso de Castro

O bar virava redação, o jornal era uma extensão da casa, uma conversa se tornava entrevista, uma recusa de entrevista terminava como grande reportagem. A prática de Tarso de Castro como jornalista não se enquadrava em nenhum manual de redação. A mistura entre vida e trabalho, total e alucinada, aniquilava relações, e ao mesmo tempo criava um personagem indefinível da história do jornalismo brasileiro, retratado no documentário “A vida extra-ordinária de Tarso de Castro”, dirigido por Leo Garcia e Zeca Brito, em cartaz desde o dia 24 de maio.

 O diretor Zeca Brito

Tarso de Castro nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em 1941. Morreu em São Paulo, antes de completar 50 anos, de cirrose hepática, e ninguém que tivesse convivido minimamente com ele estranharia a causa da morte. Beber fazia parte de sua rotina, como conquistar mulheres, gastar sem comedimento o eventual dinheiro que ganhasse, emprestando para quem precisasse, para afundar-se em dívida no mês seguinte.

“Ele viveu da forma que queria, e teria sido infeliz se fizesse diferente”, diz Ada de Castro, mãe de Tarso, em um dos depoimentos do documentário. Ao lado dela, no filme de 90 minutos, surgem os cartunistas Jaguar e Paulo Caruso, os jornalistas Sérgio Cabral, José Trajano, Nelson Motta, Roberto D’Ávila, Luiz Carlos Maciel, Tom Cardoso, Leão Serva, Lilian Pacce, o tradutor Eric Nepomuceno, o ator Paulo Cesar Pereio, o compositor Caetano Veloso.

Um dos fundadores do Pasquim, jornal independente que circulou no Brasil no auge da ditadura, Tarso sofreu uma espécie de expurgo da história do próprio jornal. A origem dessa história é abordada no documentário: o rompimento entre Tarso e Millôr Fernandes dividiu a turma do Pasquim. Luiz Carlos Maciel, permaneceu próximo a Tarso. Jaguar, a Millôr. “Mas era ‘amante’ de Tarso”, debocha o próprio Jaguar em seu depoimento. Ziraldo (“um menino”, nas palavras de Tarso) manteve-se fiel a Millôr e nem depoimento gravou para o filme.

“Essa briga resultou na narrativa posterior ao Pasquim, que vem sendo contada nos últimos trinta anos, expurgando o Tarso do jornal, inclusive com a eliminação das suas crônicas nas reedições do periódico”, afirma o diretor e roteirista Zeca Brito. Ao lado de Leo Garcia, Zeca optou por um formato que permitisse aos personagens simplesmente contar histórias.

A maioria das entrevistas mostra os amigos contando essas histórias pelo telefone, como se estivessem conversando com alguém. A ideia surgiu durante a entrevista com Maciel. “Ele comentou que o Tarso certamente teria aderido ao celular pois, onde quer que chegasse, ele procurava o telefone e se apossava dele”, lembra Zeca. “Pensamos, então, que a ideia de falar pelo celular seria uma referência a esse gesto, e também uma forma de colocar os personagens falando com alguém, como se o próprio Tarso estivesse do outro lado da linha”, explica o diretor.

Se é possível especular como seria Tarso diante dos hábitos atuais, também é permitido conjecturar como seria sua atuação profissional? “Vivemos momentos tão obscuros quanto os dos anos 1970, pelo direcionamento da narrativa na mídia. Imagino que Tarso continuaria combativo, mas seria muito difícil ele se enquadrar nos veículos tradicionais, estaria fora da imprensa hegemônica, provavelmente, sendo seu próprio patrão”, projeta Zeca.

E politicamente? É possível pensar como seria Tarso de Castro no século 21? Uma entrevista com Leonel Brizola, logo depois da volta do ex-governador do exílio, mostrada no filme, dá uma pista. Tarso, combativo pela volta dos exilados, enquadra Brizola em uma pergunta tipo saia justa, sobre os direitos dos homossexuais.

“Isso no começo da década de 1980! Ele militou pela volta do Brizola, mas não poupou o entrevistado de uma questão polêmica”, avalia Zeca. “Por isso, eu acho que ele seria simpático a um governo de inclinação socialista, mas seria contestador, nunca chapa branca. Tarso não fazia concessões e jamais deixaria de contestar qualquer governo, mesmo de esquerda, que se aliasse a banqueiros ou a qualquer uma das engrenagens patriarcais neoliberais que continuam por aí”, conclui Zeca.

 

 

 

 

Publicidade
Publicidade
Publicidade

Alessandra Alves Colunista