Festivais e Mostras Festival de Cannes 2018 - Dias #09 e #10

Dias 09 e 10

31) Cinema e Literatura são mídias completamente diferentes. Converter um livro em filme não envolve apenas transferir o livro para o roteiro e copiar os diálogos; passagens têm que ser cortadas, outras criadas para esclarecer pontos que estão no original como descrição, personagens são modificados ou novos surgem como amálgamas de outros; e assim por diante. Reclamar da existência de alterações na adaptação, portanto, é demonstrar desconhecimento sobre as características básicas, as vantagens e desvantagens de cada mídia.

Dito isso, se o original acaba desaparecendo completamente no processo, resistindo apenas em trivialidades (como nomes de personagens), o novo trabalho deixa de ser uma adaptação e se torna algo inédito, que pode até dever sua inspiração ao livro (ou à música, ao poema, à peça, etc), mas deste nada mantém. Infelizmente, é isto que ocorre em Fahrenheit 451, que parte da obra de Ray Bradbury (já adaptada por Truffaut em 1966) e chega a um resultado que poderia perfeitamente ter o título Bombeiros do Barulho ou Biblioteca Mortal, descartando toda a essência do livro e optando por enxergá-lo apenas como material para um filme de ação como tantos outros.

Criando esperanças falsas no espectador durante seus ótimos créditos iniciais, que trazem livros, fotos, pinturas e partituras sendo incinerados sob uma trilha inquietante de Antony Partos e Matteo Zingales, Fahrenheit 451 logo nos apresenta ao protagonista, Guy Montag (Michael B. Jordan), que trabalha como bombeiro para o esquadrão que dá título ao filme e cuja principal função é incendiar qualquer livro ainda existente, já que estes foram legalmente banidos desta versão distópica dos Estados Unidos, onde a história agora se passa. Adorado pela população por ser um bombeiro tão competente, Montaug também é enviado para ensinar jovens estudantes sobre como “Felicidade é a Verdade; Liberdade é Escolha”, repetindo outros bordões de cunho fascista com fé absoluta no sistema e em seu chefe, o capitão Beatty (Michael Shannon). No entanto, ao testemunhar a autoimolação de uma senhora em defesa de seus livros, Montaug passa a questionar suas ordens, tornando-se ainda mais reticente ao conhecer a contrabandista Clarisse McClellan (Sofia Boutella), que foi obrigada a se tornar informante dos bombeiros – e, assim, logo o sujeito para de pingar o colírio que o torna “feliz” e a consultar o sistema que serve como uma espécie de Big Brother daquele mundo.

Como é fácil perceber apenas pelo resumo acima, o roteiro do também diretor Ramin Bahrani acaba fazendo uma salada de frutas a partir de várias ficções distópica, convertendo também os personagens e suas relações em pastiches de diversas outras (a mudança de Clarisse é apenas a mais brutal, mas não a mais significativa). Além disso, o conceito principal, nuclear, do livro é deformado ao extremo: a conversão dos rebeldes à posição de livros vivos, decorando obras para mantê-las vivas. Talvez por acreditar que isto não faria muito sentido na era digital, Bahrani mantém aquele elemento apenas para não ser massacrado, já que na prática não faz qualquer diferença diante de sua estúpida ideia de criar uma tecnologia que pretende inserir todos livros publicados no DNA de um pássaro que, então, será inserido como mutação nos DNAs de todos os animais. Sim, você leu certo: em vez de inventar, sei lá, que o governo conseguiu uma forma de impedir que qualquer livro seja mantido digitalmente, o cineasta acha melhor criar um DNA-biblioteca autopropagante. Além, claro, de um garoto savant que memorizou mais de 13 mil livros e deve ser protegido a todo custo – não pelo que memorizou, mas por ser o portador do tal pássaro.

Vejam só a inteligência dos rebeldes: colocar suas duas últimas (e ridículas) esperanças em um único e conveniente pacote a ser protegido pelos heróis e perseguidos pelos vilões.

Com um design de produção sugado de vários outros longas bem melhores (incluindo Blade Runner, a principal “inspiração” para os arranha-céus que atuam como telas gigantescas de uma versão das Stories do Instagram e do Snapchat – com direito a emojis subindo os andares), Fahrenheit 451 também pega emprestados conceitos de Orwell, Huxley e todo tipo de autor que algum dia imaginou uma sociedade futurista de pesadelo, mesmo que isto não faça qualquer sentido. De que adianta, por exemplo, ter um Big Brother que pode ser desligado por qualquer um a qualquer momento apenas com o comando “Go dark”?

Já as falhas de estrutura do roteiro aparecem quase imediatamente, quando, com apenas 30 segundos de projeção, já mergulhamos em um breve flashback antes mesmo que qualquer coisa aconteça (sim, flashback: vemos o presente por 30 segundos, saltamos para um passado não especificado por outros tantos segundos e retornamos ao tempo atual). Para piorar, Bahrani parece ignorar como o texto de Bradbury permanece tristemente atual, já que insere diversas referências artificiais, nada orgânicas, à era Trump – como o bordão “It’s time to burn for America again”. Contudo, o maior equívoco do realizador reside em sua decisão desastrosa de transformar Clarisse em um interesse romântico de Montaug, sugerindo que as mudanças experimentadas por este têm mais a ver com o tesão do que com a reflexão.

Quando finalmente aborda alguma das muitas discussões que poderíamos esperar de um filme com este título, Fahrenheit 451 o faz de forma superficial, quase como se quisesse apenas preencher um cartão de bingo: “a Arte liberta, tá?”. Check. “As pessoas só se interessam por passatempos superficiais”. Check. “A mídia joga os oprimidos uns contra os outros”. Check. “A população só lê a manchete, não as notícias”. Check. “Toda forma de Arte vai ofender alguém inevitavelmente; como lidamos com isso?”. Check. “O ser humano tem necessidade inata de se expressar”. Check. Tá, mas e daí? O que o roteiro faz com estes questionamentos? Nada. Mas Check só pelo piloto automático.

Ao menos para uma casa este Fahrenheit 451 serviu: para comprovar que, para eliminar um livro, basta “adaptá-lo” para o Cinema. Como cada vez menos pessoas demonstram interesse em leituras maiores do que um artigo-lista do Buzzfeed, na prática isto garantirá que a versão deturpada se tornará infinitamente mais conhecida que o a original. Para que fogueira se há produtores de Hollywood?

 

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E aqui encerro a cobertura desta edição do Festival. Embora não tenha conseguido escrever sobre todos os filmes, já que dividi os textos com a produção dos vídeos (que, por sua vez, foram montados/editados por Luca), curti bastante o evento e fiquei particularmente encantado com Assunto de Família e, claro, com o libanês Capernaum, de Nadine Labaki. Já na mostra Un Certain Regard, o reconhecimento do ótimo Border, produção sueca que traz uma das cenas de sexo mais surpreendentes que já vi, foi outra boa surpresa.

Os premiados, por sinal, foram:

Palma de Ouro: Assunto de Família, de Koreeda

Grande Prêmio do Júri: Infiltrado na Klan, de Spike Lee

Direção: Pawel Pawlikowski, por Guerra Fria

Roteiro: Lazzaro felicce e 3 Faces

Atriz: Samal Yeslyamova, por Ayka

Ator: Marcello Fonte, por Dogman

Prêmio do Júri: Capernaum, de Nadine Labaki

Palma de Ouro Especial: O Livro de Imagens, de Godard

 

25 de Maio de 2018

Assista também à cobertura diária em vídeo:

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.