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2 COELHOS Frame Sonoro


Quando pensamos em "cinema hollywoodiano" geralmente associamos a um tipo de cinema que consome milhões de dólares, é realizado por equipes gigantescas, elenco estelar e diretores consagrados. Se porventura alguém falar de algum filme com "som hollywoodiano", a associação não seria diferente.

Estamos no Brasil, uma outra realidade. Mas, estranhamente, temos alguns exemplos de trabalhos na área de som que, mesmo sem orçamentos na casa dos oito dígitos ou até mesmo a chancela do chamado "padrão global", conseguem alcançar altíssimos patamares tanto em aspectos técnicos quanto artísticos. 

"Som hollywoodiano" em um filme "made in Brazil"? Sim! E isto é bom? Não! 

Isto é excelente!  

Mas vamos conhecer um pouco mais sobre o convidado de hoje.

Se eu tivesse que resumir em uma única palavra o complexo artesanato sonoro de 2 Coelhos eu escolheria... "preciosismo". Em termos de concepção de som, desde seus primeiros minutos, este trabalho escrito e dirigido por Afonso Poyart já deixa claro do que é feito: uma muito bem construída teia sonora que consegue acompanhar a intrincada narrativa cheia de reviravoltas, idas e vindas de personagens e situações. 
  
Alterando um pouco a estrutura do Frame Sonoro, eu vou analisar 2 Coelhos dentro das categorias em que geralmente são divididos os elementos sonoros de um filme.

Divulgação 
 
DIÁLOGOS 

O nome é autoexplicativo. É a área em que se trabalha especificamente somente as falas dos atores.
 

Diálogos são um dos calcanhares de Aquiles do cinema brasileiro. Na verdade, de qualquer cinema... Mas algumas produções nacionais não têm dado a devida atenção a esta área bastante sensível. Infelizmente!

Nos cursos que eu ministro costumo dizer que diálogos são a espinha dorsal do som de qualquer filme. Se o público tem dificuldade de entender o que o personagem fala, a comunicação e, consequentemente, a apreciação do filme já ficam comprometidas. 

E, além disso, existe um outro fator importantíssimo que foge do controle até mesmo dos responsáveis do trabalho: as salas de exibição. Mas isso é assunto para outra hora.

Felizmente, 2 Coelhos possui um cuidado na edição de diálogos exemplar. O resultado é claro, consistente e bem definido. Apesar de eu acreditar que deve ter dado um pouco de trabalho editar as falas do ator Fernando Alves Pinto, que faz o papel de Edgar, o protagonista. Não sei se é problema de dicção ou estilo, mas alguns poucos trechos ficaram difíceis de entender. Mesmo nas dublagens. 

Destaques desta área:
 
- toda a cena das falas entre Maicon e Tanajura;

- a sequência de Velinha e Clayton de motocicleta assaltando ao carro do bando de Maicon para roubar a bolsa de dinheiro;

- as conversas telefônicas entre o deputado Jader e o advogado Henrique.

Divulgação 

AMBIÊNCIAS

Um dos pontos altos em termos sonoros deste filme. Suas ambiências são criativas, dinâmicas, às vezes até inusitadas, mas sempre primando pelo bom gosto. 
 
Destaques:
 
- o restaurante do pai de Edgar; 
 
- o assassinato de Tanajura e seu bando. Com um detalhe muito interessante: a narração do jogo de futebol na TV o tempo todo;
 
- a reunião em uma garagem/estacionamento entre Julia, Maicon e Henrique. Ao fundo, uma textura sonora formidável, "pesada", que só acentua a tensão do teor da conversa dos três personagens.

Cena de Destaque:

No prédio do Ministério Público, a primeira vez que vemos a personagem de Alessandra Negrini. Repare na composição criada para aquele imenso ambiente. Não vemos nem meia dúzia de figurantes, mas parece que o prédio está atulhado, com gente andando para lá e para cá em seus corredores ou trabalhando freneticamente em suas escrivaninhas. Nos canais surrounds é possível ouvir elevadores, passos, máquinas de escrever e vozes. Muitas vozes... em inglês! (O que nos dá a dica de que para este caso em específico foi utilizado um banco de sons gringo.)
 
Outro destaque é a qualidade do efeito de reverberação, tanto paras vozes quanto para essas ambiências.

Divulgação 

ADR
 

Outro nome autoexplicativo... Brincadeira! A grosso modo, são dublagens ou acréscimo de vozes secundárias. Sempre são feitas na pós-produção, ou seja, em estúdio, depois do filme já montado.

Boa parte de 2 Coelhos é dublada. Dá para perceber alguns probleminhas de sincronismo labial ou até personagens falando sem voz.  Mas isso não diminui em nada o ótimo trabalho realizado. Mesmo em cenas cheias de pessoas falando simultaneamente, é possível distinguir e entender tudo. 

Destaques:

- a cena logo após o assassinato do Tanajura e seus comparsas;

- quando Edgar leva o dinheiro numa "maleta 007" até a casa de Velinha;

- quando o bando de Maicon prende Edgar e o seu pai na suíte presidencial e toda a discussão que segue. 

Cena de Destaque:

Enquanto o bando de Maicon mantém Edgar e seu pai presos na tal suíte presidencial, Julia sai do elevador e, ainda no corredor, ouve as vozes dos bandidos pela porta fechada. Para o público, vamos dizer assim, leigo, a cena não tem nada demais. Mas algo que eu particularmente acho muito difícil fazer é simular, de forma decente, várias vozes através de uma porta fechada. Existem algumas técnicas para fazer isto e não sei qual foi utilizada pela equipe do filme. Só digo uma coisa: ficou nota 10!

Observação: uma das maneiras de a equipe ter alcançado esse resultado pode ter sido na mixagem, mesmo assim achei pertinente citar como um ótimo exemplo de ADR.

Divulgação 

EFEITOS SONOROS

Aqui está o melhor da festa. Pudera! O estilo de montagem com cortes esquizofrênicos, transições aceleradas, narrativa com idas e vindas, inserções de animações amalucadas deixou tudo propício para a criação de uma bela colcha de retalhos sonora. E a equipe de som de 2 Coelhos não desperdiçou a oportunidade. Deve ter sido exaustivo, mas também muito divertido.

A quantidade de detalhes impressiona. Desde as criativas animações do início, passando pelos vários tiroteios, perseguições e batidas de carros, simulações de videogames até as espetaculares explosões e o final apoteótico.

Outro ponto a se destacar aqui é a quantidade dos chamados Design Sound Effects, ou seja, sons que são geralmente gravados a partir de instrumentos musicais e depois manipulados (e podem ser manipulados das mais diversas formas, não existem regras - aqui quem manda é a imaginação e a criatividade). Mas ao mesmo tempo não são música propriamente dita (apesar de ser bem tênue a linha que os separa). Um pequeno exemplo? Os sons ouvidos quando Julia tem as rápidas crises de pânico no elevador, junto com o promotor Rodrigues. Mas o filme todo possui uma quantidade impressionante desse tipo de recurso.
 
Destaques:

- todas as cenas com tiros. Apesar de eu ainda preferir os estampidos dos Tropa de Elite, esses aqui não ficam muito atrás, não;
 
- todas as cenas em slow motion;
 
- todas as cenas com tiros em slow motion;

Cena de Destaque:
 
Logo no início, os cortes rapidíssimos, alternados e divertidíssimos entre "pornografia" e "videogame". 

Divulgação 

FOLEY

É a área com menos destaque, mas por causa do estilo do filme que enfatiza o uso de efeitos sonoros. O foley fica prejudicado porque é "engolido" pelas outras camadas.  Mas mesmo assim está sempre presente, muito bem executado, gravado e editado.

Destaques:

- os capangas do Maicon procurando a mala de dinheiro após atirarem no Velinha. O som da porta do forno eu acho... perfeita!

- as manipulações de armas;

- os passos em ambientes grandes e abertos;

- os passos no cascalho na cena do assassinato do Henrique.

Divulgação 

MÚSICA
 
Taí uma área que o Frame Sonoro não fala muito. Existem milhares de outras páginas com muito mais competência e discernimento para discutir e analisar música feita para cinema. Mas em 2 Coelhos ela está de tal forma entranhada que não dá para ficar sem comentar a sua incrível fusão com todos os elementos sonoros citados acima. E olha que é uma senhora salada que mistura MPB, rock britânico, mambo, funk carioca, score hollywoodiano, muzak e por aí vai. Mas o resultado ficou orgânico e bem resolvido.

Destaques:

- as músicas do Lenine e do 30 Seconds to Mars caíram com uma luva para as cenas em que foram utilizadas. Em uma única palavra: emocionante! 

- a música de filme antigo na apresentação do Maicon; 

- e eu não poderia deixar de citar as várias inserções da vinhetinha do Ursinho Fonfon. Genial! 

Cena de Destaque:

O encontro de Edgar, Walter, o deputado Jader e o bando do Maicon sob um viaduto na capital paulista. Reparem na incrível sincronia entre as imagens, o bipe da bomba aumentando sua frequência à medida em que o deputado e a maleta se aproximam (no início é um bipe para cada plano) e o score percussivo e crescente acompanhando toda a tensão.
 
Notaram que o bipe e o score estão no mesmo andamento? Daí tudo termina em um tiroteio filmado quase inteiramente em câmera lenta, com exceção do bipe da bomba que fica perigosamente contínuo. São poucos segundos que equivalem a uma pequena aula de como orquestrar elementos narrativos e audiovisuais.
 
MIXAGEM

De nada adiantariam todas as qualidades apontadas nos tópicos acima se esta etapa importantíssima não conseguisse manter o mesmo nível de cuidado e apuro.

Mas estamos falando aqui de uma mixagem equilibrada e que consegue transitar muito bem entre os momentos de maior e menor amplitude. Ou seja, ela é dinâmica: solta uma porrada nos ouvidos quando precisa e é suave e delicada nos momentos que tem que ser. Mas a sua maior virtude é conseguir entregar ao seu público alguns elementos um tanto quanto raros atualmente no cinema nacional: definição, clareza e inteligibilidade.

Outro ponto a destacar é a exploração eficiente da espacialidade e peso proporcionados pelos diversos canais de som. Isto ajuda, e bastante, a jogar o público para dentro do filme. 

CONCLUSÃO

2 Coelhos é um dos grandes momentos do cinema brasileiro dos últimos anos. E o altíssimo nível da sua produção sonora está lado a lado com a dos filmes estrangeiros, seus recursos milionários e sua mão de obra altamente qualificada. 

É um trabalho de primeiro mundo, nível gringo, "hollywoodiano". E que o seu "hollywoodianismo" sirva de exemplo saudável para o cinema feito aqui na terrinha.

 

PAULO DE TARSO é editor de áudio e mixador. Trabalhou no departamento de som dos longas Ensaio Sobre a Cegueira e Era Uma Vez. Dono do estúdio Lux Sonora - Pós-Produção de Som para Cinema e Publicidade, em Curitiba.
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Sobre o autor:

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