Seja bem-vindx!
Acessar - Registrar

Sons do Além do Infinito Frame Sonoro

Divulgação

Quando se fala em "som" em 2001: Uma Odisseia no Epaço, obra-prima dirigida por Stanley Kubrick em 1968, o que vem à cabeça da maioria das pessoas é o seu elemento sonoro mais evidente: a música. Esta se tornou tão intrínseca ao filme que é dificílimo dissociá-la de suas imagens. Impossível não escutar “Also Sprach Zaratustra”, de Richard Strauss, e de imediato não lembrar do filme (pelo bem e pelo mal). Mesmo sendo a porção sonora mais sofisticada e complexa do filme, existe muito mais "som" em 2001 do que Strauss ou Ligety.

Stanley Kubrick é diretamente responsável por toda a concepção musical de 2001, quanto a isso não existe dúvida nenhuma. Desde o sumário descarte de todas as composições escritas por Alex North (que passou pelo constrangimento de descobrir somente na noite de estreia do filme que nenhuma peça musical sua fora utilizada) até a escolha de todos os clássicos temas e seus pontos de inserção. Contudo, em relação ao desenho de som propriamente dito, é difícil precisar até onde Kubrick foi diretamente responsável ou o quanto ele abriu espaço para que os editores de som pudessem desenvolver suas ideias. 

Mas vamos aos fatos:

- No início do filme, na “aurora do Homem”, os desertos e savanas possuem o padrão de ambientações para um cenário desses: muitos grilos, algumas cigarras, vento e o gorjear de aves distantes.

- Os primatas, supostamente nossos ancestrais, possuem sons distintos, demonstrando cuidado da equipe no trabalho de sonorização, personalizando os gritos e grunhidos dos macacos. Moonwatcher tem uma "voz" facilmente identificável. Nela foi aplicada uma espécie de chorus, um efeito sonoro.

- Em determinada cena, quando vemos os macacos recolhidos em suas cavernas para passar a noite, ouvimos sons de um felino à distância. A sensação é como esse grande animal rondasse a caverna, à espreita de suas presas. Uma entidade onipresente e ameaçadora na escuridão. O interessante é que esse mesmo conceito é repetido na sequência do quarto de hotel, já quase ao final do filme, quando o astronauta David Bowman é rodeado por estranhos e percussivos sons metálicos (voltaremos a abordar essa cena mais para frente)

- Quando o grande monolito negro aparece pela primeira vez, a música “Lux Aeterna de Giorgy Ligeti” se sobrepõe à gritaria dos primatas. "Sobrepõe" é modo de falar. Na verdade, todos os sons dos animais e da ambiência somem completamente. Este é um bom exemplo de um conceito que acompanhará o resto do filme: a música, quando presente, estará sempre em primeiríssimo plano, ficando muito acima das demais camadas sonoras existentes

- Após os primatas se tornarem carnívoros, um detalhe de som bem interessante ajuda a ilustrar essa nova fase, trazendo consigo um profundo significado: o zumbido de moscas que acompanha suas refeições.



- Já quando somos apresentados à sequência na Estação Orbital o que mais chama a atenção são as ambientações. Vemos espaços gigantescos com pouquíssimas pessoas em cena, mas as ambientações sugerem que a Estação Orbital é um local povoadíssimo. Ouvimos vozerio à distância, portas batendo e aparelhos bipando de forma constante.

- Um dos aspectos mais criativos e inovadores de 2001 em relação ao seu desenho de som é justamente como o espaço exterior é abordado, ou seja, no mais absoluto silêncio. Independente se em cena vemos espaçonaves se deslocando, meteoritos vagando ameaçadoramente ou astronautas flutuando livremente, o vácuo é mostrado do modo mais realista possível: profundamente silencioso. Mesmo hoje, quase 45 anos depois, este conceito ainda causa impacto apesar da sua imensa simplicidade e obviedade. Mas a execução desta abordagem não está livre de questionamentos. Quando o monolito desenterrado na Lua é inspecionado por um grupo de cientistas e subitamente emite um potente e agudo sinal sonoro, por que este sinal é audível para os astronautas? Tanto que eles tentam, inutilmente, tampar os ouvidos. É uma grande contradição em relação ao que acabamos de comentar. Acredito ser pura e simplesmente uma solução para efeitos narrativos.



- No início do terceiro ato, intitulado "Missão Júpiter", começamos a acompanhar a missão da nave Discovery, 18 meses após o incidente com o monolito na Lua, e somos apresentados aos personagens Frank Poole e David Bowman. Logo no início desta parte é tocada, de forma extra-diegética, a suíte do balé Gayaneh, do compositor russo Aram Khachaturyan. Enquanto esta bela e melancólica composição está sendo executada, ouvimos vários efeitos sonoros das ações da tripulação da Discovery, desde os passos de Frank Poole enquanto se exercita, sua respiração, mas também portas metálicas e escotilhas abrindo e fechando. Mas somente quando a música termina é que passamos a ouvir o som ambiente da nave, um som grave e constante. A pergunta é: por que a música e o som ambiente não foram mixados juntos? OK! É só um detalhe que não influencia absolutamente em nada a narrativa, mas é uma constatação, no mínimo, curiosa. Em um filme de 142 minutos em que a soma total dos diálogos não passa de 40 minutos (ou seja, 2001 pode ser descrito como "uma experiência cinematográfica não-verbal") esses detalhes são facilmente perceptíveis.

- A voz de HAL (interpretada pelo ator canadense Douglas Rain) é suave, pausada, elegante e, sempre que a ouvimos, ela está em primeiro plano, limpa, passando a sensação de sua onipresença em toda a Discovery. O grande mérito nessa escolha foi a equipe de som ter fugido dos clichês do timbre robótico ultraprocessado, excessivamente grave ou distorcido. A voz de HAL é bem distribuída dentro do espaço sonoro, ao contrário das vozes dos astronautas que são pontuadas, secas e quase sem emoção. Essa opção de mixagem contribui para a percepção de que HAL está presente, de fato, em toda a estrutura da espaçonave. Aliás, mais do que isso, reforça a sensação de que HAL É a Discovery.

(Observação maldosa: na edição em DVD nacional, a versão dublada em português é bem interessante: ouvir HAL 9000 com sotaque carioca é impagável.)

- Na sequência quando o astronauta David Bowman vai retirar a suposta unidade defeituosa AE-35, o que predomina na mixagem é a sua ruidosa respiração, acompanhada de um som agudo, similar ao ruído de um botijão de gás vazando. Evidentemente é o som do oxigênio sendo injetado no seu capacete. Assim como na fotografia temos o POV (point of view) quando a câmera assume o lugar do olho do personagem, aqui temos algo parecido, só que do ponto de "vista" sonoro. O que ouvimos é supostamente o que o astronauta Bowman ouve. E é daí que surge mais uma dúvida: mesmo nos planos em que a Discovery aparece a uma distância absurdamente grande ou mesmo quando vemos o outro astronauta, Frank Poole, na cabine de comando, ainda assim continuamos a ouvir esses sons de respiração e oxigênio, o que quebra completamente a ideia de um POV sonoro.

- No trecho mais tenso do filme, quando HAL ataca Frank Poole fora da Discovery, o desenho de som acompanha toda a ação. O já mencionado ruído de oxigênio aumenta consideravelmente no momento do ataque e também conseguimos saber com precisão quando HAL corta a mangueira do traje do astronauta, pois o ruído é interrompido bruscamente. É perfeito o encadeamento de imagens em conjunto com o uso inteligente do som como elemento dramático.



- Como também já dito anteriormente, o silêncio do espaço, o modo como foi abordado, tão simples e óbvio, é um dos aspectos mais interessantes do conceito sonoro de 2001, sendo o seu ponto alto a sequência de tentativa de resgate do corpo de Frank Poole por David Bowman. A diferença da cabine barulhenta da cápsula de resgate com o absoluto silêncio do espaço cria uma sensação equivalente na fotografia a uma tela em branco seguida de outra com um escuro total. Este contraste sonoro enriquece sobremaneira todo esse belíssimo trecho do filme.

- Deliberadamente altos, e consequentemente irritantes, são os alarmes emitidos quando HAL inicia o processo de desligamento das câmeras de hibernação, cuja consequência são as mortes dos cientistas que lá permaneciam. Nada mais apropriado para a situação. Provavelmente Ridley Scott se lembrou desse trecho quando filmou Alien, o 8º Passageiro e seu também irritante alarme para abandonar a nave quase no final do filme.

- Também é impossível ficar indiferente à cena em que Bowman se autoinjeta na Discovery, após HAL se negar a abrir a escotilha. Novamente, o som contribui para a dramaticidade da cena simplesmente por não estar presente.

- E o que dizer da morte de HAL 9000? Triste, melancólica, patética... É uma das cenas mais memoráveis, inclusive em termos de concepção sonora. A voz do computador sendo desacelerada até o seu desligamento consegue criar um efeito dramático difícil de igualar. Tecnicamente tudo muito simples, mas que contribuiu de maneira eficientíssima para a trajetória do personagem. Mais um ótimo exemplo de aproveitamento de recursos sonoros concebidos desde o roteiro. 



- Na viagem de Bowman, quando ele entra no Portão Estelar, foram acrescentados diversos ruídos de baixa frequência à música original. Uma espécie de turbina de avião a jato também pode ser ouvida.

- Já na última parte do filme, na famosa "cena do quarto de hotel", os estranhos e metálicos ruídos que acompanham o astronauta Bowman na sua estadia abrem portas para muitas especulações: seriam alienígenas? Deuses? A imaginação de Bowman? Ou seriam os próprios sons das estrelas? São ruídos gerados eletronicamente, fortemente influenciados por composições de música eletroacústica. Também é perceptível o uso de vozes superprocessadas.



Analisando somente no processo criativo e técnico, 2001 foi um trabalho que rompeu barreiras e trouxe avanços imensos em diversos segmentos dentro da cadeia de produção cinematográfica. Na área de som especificamente, o filme contribuiu com uma abordagem bastante criativa e inovadora, apontando novos caminhos e possibilidades para a linguagem sonora. Mas foi na utilização da música o seu grande diferencial, tanto que até hoje as composições escolhidas se mantêm fortemente associadas às imagens do filme. Aliás, a forma de utilização da música é uma marca registrada de Stanley Kubrick, indubitavelmente um dos maiores nomes da 7ª arte.

Observação: as cenas do filme apresentadas nesta coluna têm caráter meramente ilustrativo. Recomendamos que você assista ao filme em DVD ou Blu-ray para perceber todos os detalhes do design de som mencionados na análise.
--
EDIÇÕES ANTERIORES DA COLUNA

Sobre o autor:

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Você também pode gostar de...

Frame Sonoro
BLADE RUNNER: Chuva, morte e a escuridão ensurdecedora
Frame Sonoro
O Som do Oscar 2012 - parte 5: O HOMEM QUE MUDOU O JOGO
Frame Sonoro
O Som do Oscar 2012 - parte 3