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Sons de uma ilha distante Frame Sonoro

Divulgação

Todo estudante ou profissional de cinema deveria ler Designing a Movie for Sound, artigo escrito no longínquo ano de 1999 por Randy Thom e que (infelizmente) ainda encontra-se atualíssimo. Em algumas linhas ele consegue destrinchar vários problemas que acomentem 9 entre 10 profissionais que atuam na área de produção sonora para Cinema, seja pelo fato do som ser tratado como mero "aspecto técnico" e sem muita relevância, seja pelo fato de muitos produtores e diretores encararem o Cinema como uma mídia "estritamente visual".

Randy Thom, veterano da indústria, começou sua carreira como assistente de gravações externas em um filme chamado Apocalypse Now. Desde lá já acumulou no seu impressionante currículo quase 100 filmes, desempenhando as mais diversas funções, desde  desenhista de som a supervisor de mixagem. E pode ostentar na sua sala duas reluzentes estatuetas do Oscar ganhas por Os Incríveis, em 2004, e Os Eleitos, de 1983, além de dezenas de outros prêmios e indicações. Hoje, ele é um dos principais nomes da Skywalker Sound, complexo de estúdios de áudio da Lucasfilm.

Thom faz parte de um grupo de sound designers que seguiu os passos iniciados por Walter Murch, preocupados em transformar o trabalho de som para Cinema em uma forma de arte criativa e inteligente, indo além de apenas uma série de procedimentos técnicos.

Dentro os inúmeros filmes em que este verdadeiro artesão sonoro já foi responsável, poderíamos destacar desde a incrível paleta sonora criada para Coraline e o Mundo Secreto às complexas edições de diálogo e foley de Rio. Daria para gastar alguns megabytes de texto analisando seu método de trabalho, suas abordagens, técnicas e conceitos. Mas vamos abordar um filme relativamente pequeno, nenhum blockbuster que tenha abalado as estruturas ou sequer tenha chegado perto de ter revolucionado a sétima arte. Trata-se de Náufrago, produção lançada em 2000, com direção de Robert Zemeckis, estrelada e produzida por Tom Hanks. 

Em termos de conceitos sonoros, alguns aspectos tornam este filme um verdadeiro "sonho de consumo" para qualquer sound designer

Para começar, e um dos pontos mais importantes: um diretor que sabe bem o que quer em relação à estética sonora do seu projeto. Além de fazer toda a diferença do mundo, isto afeta o trabalho como um todo, desde a pré-produção. E é este também um dos itens mais enfatizados no texto escrito por Thom: realizadores, diretores, produtores pensarem no som como um forte aliado desde a gênese do projeto, e não algo que só é lembrado depois que o filme já está praticamente finalizado.

Mas retornemos ao Náufrago.

A maior parte da narrativa (que toma todo o segundo ato e é também a mais interessante de todo o filme) se concentra quando o personagem de Hanks - Chuck Noland - se encontra perdido numa ilha deserta, no meio do Oceano Pacífico. Em nenhum momento existe música neste trecho, seja diegética ou extra-diegética. Somente os sons naturais da ilha, mas com um detalhe interessantíssimo que torna este trabalho um estudo de caso: as ambiências não possuem nenhum som de animais, sejam pássaros, mamiferos, grilos ou outro inseto qualquer. Somente vento, folhas, água e, eventualmente, fogo.  Esta decisão, além de aumentar sobremaneira a sensação de isolamento de Chuck, cria um efeito profundamente psicológico no personagem. Estes sons mais primitivos, mais elementais, junto com a ausência da música, fazem um trabalho fundamental no processo de "descivilização" de Noland.

Como nestas cenas da ilha não existem tantos elementos sonoros (como efeitos ou música), o foley tem um papel importantíssimo dentro da paleta sonora do filme, sendo o trecho em que Noland desembrulha os pacotes do FedEx o seu ponto alto. É impressionante como a equipe de Thom tornou crível toda a cena.

As pouquíssimas falas do personagem de Hanks tiveram que ser dubladas na pós-produção. Pouquíssimo material de som direto foi aproveitado. Talvez não exista tarefa mais ingrata do que fazer trabalho de som direto em uma praia ou qualquer local aberto com muito vento.

Na pós-produção foram necessárias horas e mais horas de gravações de água nas suas mais diferentes "formas": ondas do mar, chuva, esguichos, tempestades, arrebentações. Segundo Thom, foi uma trabalheira enorme fazer todas estas gravações e, mais ainda, selecionar e editar todo este material. Uma curiosidade que Thom revelou foi o surpreendente trabalho que deu sincronizar os sons das ondas com as imagens. Demorou muito mais que ele e sua equipe previam. 

Alan Silvestri, o compositor, escreveu não mais que 30 minutos de música para todo o filme. É um único tema que se repete em alguns momentos muito bem pontuados. É um tema bonito, triste, emocionante e com um arranjo sóbrio. O fato da música só "existir" quando Nolan está fora da ilha é uma decisão inteligente do diretor que fez toda a diferença para o processo de isolamento tanto físico quanto mental do protagonista.  Talvez o ponto mais musical existente na ilha seja o vento assoviando dentro da caverna que Chuck utiliza como abrigo.

Náufrago é um excelente exemplo de filme que maximiza o conceito do termo "áudiovisual", integrando os vários elementos desses dois universos para a construção de uma narrativa. Citando Randy Thom: "Um filme que realmente funciona é quase como um ser vivo, uma teia complexa de elementos interconectados, igual a um tecido vivo".
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