Críticas por Pablo Villaça

Poster: Campo dos Sonhos
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
28/02/1990 05/05/1989
Distribuidora
Universal Pictures

 

 


Campo dos Sonhos
Field of Dreams

Campo dos Sonhos

Dirigido por Phil Alden Robinson. Com: Kevin Costner, Amy Madigan, James Earl Jones, Ray Liotta, Burt Lancaster, Gaby Hoffman, Timothy Busfield, Frank Whaley e Dwier Brown.

É absolutamente impossível ser racional quanto a certos filmes. Às vezes, por mais que gostemos de um determinado filme, somos obrigado a considerar suas eventuais falhas (buracos no roteiro, interpretações exageradas, etc.). Por outro lado, às vezes somos obrigados a considerar certas qualidades de um filme do qual não gostamos (bela fotografia, boa música, etc.). Em Campo dos Sonhos, isso não se aplica. O filme mexeu de tal forma comigo, que o resto não importa mais.

Você deve estar pensando: `Puxa, mas isso é algo extremamente relativo. O filme que ‘mexeu’ com ele não vai, necessariamente, ‘mexer’ comigo.`. Tem razão. É por isso que me vejo na obrigação de dizer desde já: meu senso crítico foi desligado quando comecei a me envolver com a história, portanto minha opinião pode ser totalmente irrelevante para quem lê esta crítica em busca de uma referência.

Não que o filme tenha defeitos: eu, pessoalmente, não consigo pensar em nenhum. E, para os que valorizam a premiação, o filme também não decepciona: foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, entre outros. O que me leva a ser tão cauteloso quanto a este filme é, justamente, o fato de que ele me tocou profundamente. E não só na primeira vez em que o assisti: desde então, já vi Campo dos Sonhos cerca de 10 vezes, e em todas as vezes cheguei ao final do filme chorando convulsivamente. Sim, convulsivamente. Curioso, não?

Nem tanto. Vamos à história, antes de mais nada: Ray Kinsella (Costner) é um homem simples. Casado com uma mulher compreensiva e pai de uma bela filhinha, Ray parece ter uma vida perfeita. Assim, ele compra uma fazenda em Iowa, terra de sua esposa, e inicia uma plantação de milho. Certo dia, porém, enquanto trabalha no milharal, Ray ouve uma voz que lhe diz: `Se você construir, ele virá.`. Logo em seguida, ele tem uma breve visão de um campo de baseball. Para ele, é o que basta: Ray resolve derrubar parte de sua plantação para construir o tal campo. Em sua concepção, quando o campo estiver pronto, o grande `Shoeless Joe`, mito do baseball morto há décadas, irá aparecer para jogar uma partida. Loucura? Pode ser, mas com o apoio da esposa, é o que Ray faz. Afinal, `Joe Sem Sapatos` era o maior ídolo de seu falecido pai, com quem havia brigado anos antes.

E, de fato, o próprio Shoeless Joe (Liotta) aparece. Porém, a Voz ainda tem algo a dizer: `Alivie sua dor.`, diz ela. Sem compreender direito o significado desta frase, Ray vai atrás de um famoso escritor dos anos 60, Terence Mann (Earl Jones). Juntos, os dois homens irão descobrir que há `mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.`

Mas Campo dos Sonhos não é apenas mais um `filme sobre fantasmas`. É mais do que isso. É a história de um homem que tem a coragem (e o apoio necessário) para correr atrás de um sonho. É a trajetória de um homem em busca de seu passado, de sua redenção, de seu pai.

Kevin Costner nunca esteve tão bem como em Campo dos Sonhos. Seu Ray Kinsella é um sonhador comovente, obstinado. Suas intenções, as mais puras possíveis. Para ele, nada é muito e tudo é pouco. Ele tem um objetivo e é o que basta. James Earl Jones, sempre eficiente, também surge fabuloso como o escritor `aposentado` que se sente responsável pelo efeito que suas palavras causaram no passado. E há, é claro, Burt Lancaster como Archie `Moonlight` Graham. Sua presença no filme é mágica, linda.

A música envolvente de James Horner e a bela fotografia de John Lindley engrandecem ainda mais este espetáculo baseado no livro de W.P. Kinsella. Aliás, não é à toa que a história envolve tanta emoção: repare no sobrenome do autor - obviamente o tema é, para ele, muito querido. E não há nada mais tocante do que um projeto desenvolvido com amor.

O fato de o baseball ser, em parte, um dos pontos-chave da trama em nada interfere com a compreensão do espectador brasileiro. Basta entender que aquele esporte está para o norte-americano como o futebol está para nosso país. E só. Quanto ao ídolo (verídico) Shoeless Joe, também não importa nosso desconhecimento: eu, particularmente, não entendo nada de baseball e jamais ouvira o nome daquele jogador antes de assistir Campo dos Sonhos. A história transcende estes fatos.

Talvez eu tenha me identificado tanto com o personagem de Ray Kinsella graças a uma `peculiaridade` semelhante à trama: meu pai faleceu em 1980, e isto faz toda a diferença do mundo. A importância dos pais no contexto da história é, aliás, confirmada pela própria dedicatória do filme: depois dos créditos finais, surge a frase `... aos nossos pais.`.

Provavelmente esta dedicatória sintetiza a alma de Campo dos Sonhos: é um filme sobre pais e filhos. E, é claro, sobre amor. O fato é que mexe com nossa cabeça. Para se ter uma idéia, o campo de baseball construído para o filme ainda existe no estado de Iowa, e é visitado por centenas de pessoas que buscam, ali, algo que nem mesmo elas compreendem. Esta é a magia do filme. E esta magia é capaz de tocar qualquer um - mesmo aqueles que nunca perderam um ente querido.

Quanto aqueles que, como eu, sentem a falta de alguém que já partiu, fica o consolo de poder chorar e de imaginar como seria bom ter, também, um `campo dos sonhos`. Até isto se concretizar, só posso dizer: `Um beijo, pai. Até algum dia.`

12 de Novembro de 1997

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.