Seja bem-vindx!
Acessar - Registrar

Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
10/04/2014 01/01/1970 3 / 5 4 / 5
Distribuidora
Disney

Capitão América 2: O Soldado Invernal
Captain America: The Winter Soldier

Dirigido por Anthony e Joe Russo. Roteiro: Christopher Markus & Stephen McFeely. Com: Chris Evans, Samuel L. Jackson, Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Cobie Smulders, Frank Grillo, Garry Shandling, Maximiliano Hernández, Emily VanCamp, Hayley Atwell, Toby Jones, Jenny Agutter, Robert Redford e a voz de Gary Sinise.

O Capitão América nunca foi um dos meus heróis favoritos. Ao contrário: de certa maneira, cresci nutrindo certa antipatia por um personagem que parecia se definir, através do uniforme e do nome, como um indivíduo concebido e desenvolvido como pura propaganda ufanista – algo que também comentei ao escrever sobre o primeiro filme. Aliás, também como o capítulo anterior, este O Soldado Invernal me surpreendeu ao se revelar o mais maduro dos longas produzidos pela Marvel, embora eventualmente acabe se perdendo na necessidade de incluir elaboradas sequências de ação e de ser um “filme de super-herói” em vez de insistir na ideia de ser um filme sobre um humano que tem superpoderes.

Escrito pelos mesmos Christopher Markus e Stephen McFeely do capítulo passado, este novo Capitão América continua a explorar a ideia da SHIELD como organização inchada e complexa voltada para proteger a ordem mundial e que, encabeçada por Nick Fury (Jackson), se mete em tantos assuntos paralelos envolvendo artefatos poderosos e criaturas mágicas que as interferências externas acabam se tornando inevitáveis. Enfrentando traições e conspirações, Fury pode contar apenas com o Capitão América (Evans) e com a Viúva Negra (Johansson) em suas tentativas de impedir que uma perigosa arma – criada pela própria SHIELD, vale apontar – seja usada de forma destrutiva. E à medida que o lançamento do armamento se aproxima, torna-se meio absurdo perceber como os demais Vingadores jamais são convocados para ajudar, embora o filme faça questão de mencioná-los esporadicamente a fim de despertar arrepios de prazer nos fãs.

Preocupando-se em criar uma trama que, de forma pouco sutil, remete às denúncias de espionagem da NSA, aos drones e ao conceito deturpado de patriotismo que marcou a política externa norte-americana depois do 11 de Setembro (alegorias também empregadas em O Cavaleiro das Trevas), Capitão América 2 é intrigante por, em sua primeira metade, contrapor o amor do personagem-título por seu país à sensação preocupante de que este sentimento é unilateral: enquanto é útil para destruir “os inimigos da América”, o Capitão é abraçado, sendo contudo imediatamente descartado quando passa a questionar noções básicas de justiça como a de evitar punir alguém por um crime que nem foi cometido ou planejado. Assim, quando vemos o herói visitando o Smithsonian em busca de um momento de reflexão, percebemos que o filme está sugerindo que o próprio conceito de “ética” parece pertencer a um museu em vez de ter lugar nas práticas contemporâneas do governo e seus representantes – e, portanto, é prazeroso notar como aqueles personagens se entregam a longas discussões que refletem suas preocupações e inseguranças.

Neste aspecto, a performance de Chris Evans é essencial ao sugerir uma sinceridade incontida por parte de Steve Rogers e seus esforços para tentar encontrar uma posição que seja justa e pragmática ao mesmo tempo – o que se contrapõe, por exemplo, aos modos endurecidos e determinados de Nick Fury, que Samuel L. Jackson encarna como um homem que há muito parou de se questionar sobre o que é “certo” e se entregou apenas ao que é “efetivo”. E se Robert Redford surge excelente ao viver um homem de postura ambígua que leva o espectador a oscilar entre a confiança e a cautela, Scarlett Johansson finalmente tem a oportunidade de transformar a Viúva Negra em algo mais do que uma modelo de roupas de couro, já que aqui pode retratar a personagem como uma mulher prática, mas também aberta a questionamentos éticos que podem conduzi-la a ações contrárias aos seus próprios interesses.

Já como representante do gênero “ação”, Capitão América 2 não se sai tão bem quanto ao explorar seus personagens: sim, é eficiente trazer Rogers saltando de um avião com uma postura casual (algo que já seria impressionante mesmo se não soubéssemos que ele está sem paraquedas) e, da mesma maneira, os diretores Anthony e Joe Russo ilustram bem a competência e a força do herói ao trazê-lo em sequências como a invasão ao navio (quando testemunhamos seu silêncio ao agir e sua velocidade) e aquela na qual persegue um alvo enquanto derruba várias portas que insistem em atrapalhá-lo; por outro lado, sempre que se concentram em algum confronto físico (lutas, tiroteios, perseguições), os Russo entregam o fato de terem trabalhado apenas em comédias como Tudo por um Segredo, Dois é Bom, Três é Demais e a série Community (o que explica a ponta sem sentido de Danny Pudi), atrapalhando-se terrivelmente e criando momentos visualmente confusos que se tornam ainda piores na versão em 3D em função dos cortes rápidos e incompreensíveis. Além disso, é meio patético perceber como a solução recorrente encontrada por heróis encurralados é simplesmente abrir um buraco no chão, o que acontece em dois momentos da narrativa e parece tentar estabelecer o conceito absurdo do cavus ex machina.

Decepcionante também ao investir em imensos cenários digitais povoados por figurantes igualmente binários (como o galpão da SHIELD) que tornam a experiência ainda mais artificial e enfraquecem a sensação de que o mundo está realmente em perigo (a tensão em Capitão América 2 é nula, infelizmente), o longa ainda peca por se perder pontualmente na interação entre seus personagens, como ao sugerir uma subtrama romântica entre a Viúva e o Capitão que jamais chega a lugar algum e é rapidamente descartada. Da mesma forma, o hábito dos quadrinhos de matar e reviver personagens sem se preocupar muito com a plausibilidade é algo que diminui o envolvimento do espectador, ressaltando que, de fato, ninguém está correndo muito risco – e à medida que a trama desta continuação vai se complicando, os personagens vão se tornando realmente cada vez menos importantes, passando a agir como meros bonecos de ação.

Moderadamente divertido em seus esforços cômicos (a referência a Pulp Fiction funciona por ser rápida), Capitão América 2 finalmente frustra por, como todos os seus colegas de franquia, chegar a um quase fim, já que tem a necessidade de manter o espectador ansioso para comprar novos ingressos para as produções ambientadas no universo da Marvel – o que, somado com as cenas pós-créditos (são duas), me deixa um pouco farto do hábito destes longas de nunca encerrar verdadeiramente suas tramas, sugerindo que estamos sempre pagando por experiências incompletas.

Ou pior: por uma droga que tenta obrigar o consumidor a comprar novas doses não em função de seu efeito, mas por sempre entregar menos quantidade do que aquela prometida na embalagem.

Observação: como já dito, há duas cenas adicionais: uma durante os créditos finais e outra ao fim destes.

10 de Abril de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Você também pode gostar de...

 

Para dar uma nota para este filme, você precisa estar logado!