A Queda! As Últimas Horas de Hitler
Dirigido por Oliver Hirschbiegel. Com: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Ulrich Matthes, Corinna Harfouch, Juliane Köhler, Heino Ferch, Christian Berkel, Thomas Kretschmann, Matthias Habich, Michael Mendl, Ulrich Noethen, Birgit Minichmayr.
É fácil pensar em Adolf Hitler como a pura encarnação do `Mal`, do Anti-Cristo católico. Enxergando-o como um monstro unidimensional, podemos sufocar o medo de que algo impensável como o Holocausto possa acontecer novamente, já que a Solução Final não teria saído da mente de um homem (ou mesmo de um grupo deles), mas de uma `criatura`. Além disso, fugimos da constatação óbvia de que o ser humano é, sim, capaz de patrocinar atrocidades indizíveis.
No entanto, a concepção de Hitler como Demônio é uma simplificação não apenas infantil, mas perigosa: é fundamental que eliminemos esta aura `sobrenatural` do ditador nazista e que o encaremos não como um indivíduo singular, único, mas como um homem comum que, abençoado com um carisma imenso e com uma capacidade de liderança admirável, desperdiçou estes dons ao permitir que sua visão preconceituosa e distorcida do mundo guiasse suas iniciativas. Filmes como A Queda, Eu Fui a Secretária de Hitler e Max buscam, portanto, cumprir o importante papel de desvendar como alguém com uma ideologia tão mesquinha pode ter conseguido influenciar uma nação – e, conseqüentemente, nos levam a compreender a possibilidade trágica de que a História venha a se repetir (e o fato é que, até certo grau, já vem se repetindo).
Empregando, como âncora da narrativa, a secretária particular de Hitler durante os últimos dois anos da vida do Führer alemão, A Queda começa justamente com um depoimento de Traudl Junge retirado do fascinante documentário citado no parágrafo acima. A partir daí, voltamos a 1943 para `testemunhar` a contratação da garota por um Hitler afável e paciente – cena que é seguida por um salto de dois anos e meio no tempo, quando, então, reencontramos os personagens durante o cerco russo a Berlim. Mergulhados no caos que antecipou a derrota nazista, os soldados alemães e oficiais da temida SS entregam-se ao ritual desesperado de queimar documentos que possam incriminar os chefões do Partido Nazista no cenário pós-Guerra. Doente e psicologicamente fragilizado, Adolf Hitler refugia-se ao lado de Eva Braun e de seus generais mais importantes em bunkers situados sob a capital alemã enquanto dispara ordens de contra-ataque para suas tropas espalhadas pelo país.
Ao mesmo tempo, o roteiro de Bernd Eichinger acompanha diversos outros personagens afetados pelo conflito, como o pai que tenta convencer o filho a abandonar a Juventude Hitlerista; o general que, depois de ser condenado à morte por traição, apresenta-se a Hitler para se defender e acaba ganhando a tarefa ingrata de defender Berlim (o que o leva a questionar se não teria sido melhor ser executado); e o médico que, horrorizado com o sofrimento dos civis, arrisca a própria vida para buscar medicamentos em uma parte da cidade que já foi tomada pelos soldados russos. Desta maneira, A Queda ilustra um paradoxo fascinante: mesmo entre os oficiais nazistas havia indivíduos capazes de gestos nobres e altruístas.
É verdade que o filme praticamente não cita o extermínio de judeus orquestrado por Hitler (ou mesmo seu anti-semitismo, que é invocado duas ou três vezes ao longo da narrativa), mas isto não era realmente necessário para a proposta do longa; já conhecemos a tragédia da Solução Final. Mais importante do que isto, para o cineasta Oliver Hirschbiegel, é retratar a decadência do Führer, evidenciando, por exemplo, sua retórica vazia – que, se convencia os alemães quando enunciada em discursos fortes e repletos de autoridade, torna-se absolutamente transparente ao sair da boca de um velho alquebrado e confuso. Além disso, o diretor faz questão de ilustrar que não foram apenas os judeus que sofreram em função dos delírios de Hitler (embora tenham sido indiscutivelmente as maiores vítimas): o próprio povo germânico pagou caro por colocar os nazistas no poder (em certo momento, o repulsivo Goebbels diz: `O povo nos deu um mandato. E agora está pagando por isto!`). Aliás, o próprio conceito de `Juventude Hitlerista` pode ser considerado como um dos maiores crimes do ditador.
Outra preocupação admirável de A Queda é representar a quase inexplicável fascinação que Hitler exercia sobre seus comandados; mesmo sofrendo de uma demência clara e de uma paranóia inegável, o Führer conta com a fidelidade irrestrita de seus generais, que encaram como justas suas constantes explosões de raiva e suas recriminações infindáveis (e aqui devo abrir um parênteses para dizer que a performance do veterano Bruno Ganz neste longa é uma das melhores de sua já brilhante carreira). Sim, Hitler dispara ordens para tropas que já não existem e delira sobre a ressurreição impossível da Luftwaffe, mas, ainda assim, a possibilidade de vê-lo derrotado apavora aqueles experientes militares.
Revelando uma coragem admirável, o cineasta alemão Oliver Hirschbiegel demonstra não temer críticas vazias sobre o retrato tridimensional que faz de Adolf Hitler e dedica-se totalmente à análise do colapso moral, humano e psicológico do ditador – e, simultaneamente, estabelece com talento e segurança a situação opressiva e desesperadora que todas aquelas pessoas viveram nos bunkers (muitas delas merecendo o destino cruel que tiveram; algumas – como Traudl Junge – simplesmente pagando pelo pecado da omissão). Aliás, não fiquei surpreso ao constatar que Hirschbiegel dirigiu também o interessante A Experiência, sobre um grupo de homens que se submete a um experimento psicológico que simula as condições de uma prisão e que logo revela os aspectos mais cruéis da natureza humana: temática e narrativamente, os dois filmes têm muito em comum. Para finalizar, é fundamental reconhecer o impressionante trabalho de direção de arte do filme, que recria a Berlim totalmente destruída do pós-Guerra – e o maior elogio que posso fazer neste sentido é dizer que seus cenários não ficam nada a desejar com relação à cidade vista em Alemanha, Ano Zero, de Roberto Rossellini – que foi realmente rodado nos escombros da capital alemã.
Como já expliquei, um dos maiores méritos de A Queda diz respeito à inteligência com que estabelece o fascínio e a fidelidade que Adolf Hitler despertava em seus seguidores – um encantamento capaz de levar uma mãe a atos extremos para evitar que seus filhos vivam em um mundo sem a influência do ditador. E a prova maior da sensibilidade de Hirschbiegel reside em sua capacidade de levar o espectador a chorar pelos filhos de ninguém menos do que Goebbels – algo que reafirma nossa própria humanidade.
Afinal, ao despertar nossa compaixão pela prole de um casal tão detestável, o cineasta nos `força` a praticar uma das maiores virtudes do ser humano: a compaixão. E esta é uma das grandes lições de A Queda: a compreensão de que o ódio cego nos diminui tanto quanto ao inimigo.
05 de Maio de 2005

Os últimos dias de Hitler em seu refúgio em Berlim, no fim da Segunda Guerra, são contados pela estenógrafa do ex-ditador nazista.