Críticas por Pablo Villaça

Poster: Dreamgirls - Em Busca de um Sonho
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
16/02/2007 Unknown
Distribuidora

 

 


Dreamgirls - Em Busca de um Sonho
Dreamgirls

Dreamgirls - Em Busca de um Sonho

Dirigido por Bill Condon. Com: Jennifer Hudson, Jamie Foxx, Beyoncé Knowles, Eddie Murphy, Anika Noni Rose, Keith Robinson, Sharon Leal, Danny Glover, Ralph Louis Harris, John Lithgow, John Krasinski.

Florence Ballard. Você já ouviu esse nome? Provavelmente não (especialmente se tem menos de 35 anos de idade). Em contrapartida, é bastante provável que saiba quem é Diana Ross. Pois Ballard e Ross foram duas das quatro integrantes originais do grupo musical que viria a se transformar no famoso The Supremes durante a década de 60. Agenciadas pelo poderoso Berry Gordy, chefão da lendária gravadora Motown, as Supremes tiveram uma carreira brilhante até que o maior destaque conferido a Diana Ross (em parte, graças ao seu caso com Gordy) provocou uma crise entre as cantoras ao relegar a até então líder Florence Ballard a um papel secundário que a fez mergulhar na depressão e no alcoolismo. Bastante acima do peso e com um gênio forte, ela foi demitida por Berry Gordy do próprio grupo que ajudou a criar, vindo a falecer aos 32 anos de idade na miséria absoluta.

Transformada em musical de sucesso na Broadway sob o título Dreamgirls, a trajetória das Supremes chega agora aos cinemas numa adaptação irregular com roteiro e direção de Bill Condon (Deuses & Monstros, Kinsey – Vamos Falar de Sexo). Rebatizadas como Deena (“Diana” – sacaram?) Jones e Effie (“F” de Florence) White, as duas cantoras se tornam foco do filme, que traz também uma versão pouco lisonjeira de Berry Gordy, agora atendendo pelo nome de Curtis Taylor Jr. (Gordy também era “Júnior”). Buscando expandir o alcance dos artistas negros para que estes se tornem aceitos também pelo grande segmento branco do público, Curtis não demora a colocar a bela Deena como líder das Dreamgirls, ignorando o maior talento vocal de Effie, cuja figura pouco graciosa talvez diminuísse o apelo do grupo junto aos fãs do sexo masculino. Ao mesmo tempo, o produtor tenta suavizar o estilo caracteristicamente étnico do cantor James “Thunder” Early (uma mistura de James Brown e Little Richards) com o propósito de torná-lo mais agradável à “sensibilidade” caucasiana, o que lhe provoca muitas dores de cabeça. Assim, enquanto acompanhamos o crescimento da gravadora de Curtis, os conflitos entre Effie e suas companheiras se tornam mais intensos, resultando em sua saída do grupo.

Atrapalhando-se na maneira com que introduz os números musicais no universo da narrativa, Dreamgirls se sai bem quando as canções são apresentadas sobre o palco de forma convencional, mas se perde quando os personagens começam a cantar durante conversas casuais – algo grave em um gênero que exige justamente que aceitemos este tipo de acontecimento. Assim, quando Jamie Foxx solta dois versos durante uma discussão normal com os amigos, a sensação de estranheza provocada nos atira para fora do filme, dificultando nosso envolvimento com a história (e o primeiro momento em que tudo parece funcionar ocorre apenas no ótimo número “It’s All Over” – mas, a esta altura, já passamos de uma hora de projeção). Além disso, as marcações de cena e as coreografias das seqüências musicais são pouco inspiradas, abusando de um dos mais irritantes clichês do gênero: os travellings circulares. Para completar, a trilha sonora é irregular, mesclando melodias contagiantes com outras meramente burocráticas, alcançando um resultado que dificilmente inspirará o público a ouvi-la repetidamente, ao contrário do que ocorria com Moulin Rouge! e Chicago, este último também roteirizado por Condon. (E há pelo menos um número completamente desnecessário em Dreamgirls que, além de fraco, quebra o ritmo da narrativa: o dueto “When I First Saw You”.)

Apelando para montagens mais freqüentes do que o recomendável a fim de indicar passagens de tempo, a montadora Virginia Katz (também responsável por O Mestre das Armas, que coincidentemente chega aos cinemas brasileiros esta semana) emprega um número excessivo de fades, outra deselegante muleta que, quando empregada em excesso, geralmente indica falta de inspiração ou problemas incontornáveis do roteiro. Com isso, Dreamgirls assume uma cronologia trôpega, muitas vezes surpreendendo o espectador com saltos abruptos no tempo: de um segundo para outro, as garotas se transformam em sucesso e, da mesma maneira, a filha de Effie já surge com 10 anos de idade sem que ao menos tivéssemos sido informados claramente sobre a gravidez da cantora.

Por outro lado, o filme conta com uma direção de arte espetacular, desde o estúdio completamente branco no qual cantores igualmente pálidos regravam sem a menor energia um sucesso inicial das Dreamgirls até a mansão auto-congratulatória de Curtis Taylor, passando pelos cenários dos shows das garotas. Já os figurinos, além de belíssimos, exercem a importante função de ilustrar os vários estágios da vida das cantoras, incluindo as oscilações de peso de Effie – algo fundamental para a trama. Finalmente, é claro que nenhum destes elementos poderia ser completamente apreciado caso a ótima fotografia de Tobias A. Schliessler não ressaltasse corretamente as cores e texturas de cenários e figurinos. Aliás, Schliessler é, ao lado de Jennifer Hudson, a grande revelação do projeto, já que até então contava com um currículo perigosamente irregular e basicamente centrado em produções para a televisão.

E já que mencionei Hudson, a atriz estreante (e participante perdedora do programa American Idol) oferece um espetáculo que engrandece e quase salva o filme de Bill Condon. Espontânea e carismática, a moça assume uma personagem complicada – Effie – sem medo de retratar suas características menos atraentes, como o gênio explosivo e a arrogância, demonstrando inteligência ao perceber que a trajetória dramática da cantora não depende da simpatia irrestrita do espectador por esta. Mas, ainda mais importante do que isso, Hudson nos convence facilmente de que Effie é, de fato, a mais talentosa do grupo – e sua voz poderosa alcança um clímax comovente ao cantar “And I’m Telling You I’m Not Going”, quando conseguimos sentir toda a dor e a mágoa da moça ao ser rejeitada por seus antigos amigos. É uma pena, portanto, que o roteiro nos negue a oportunidade de testemunharmos a conversa final entre Effie e Deena, que certamente renderia mais uma cena notável (e importante) a Hudson.

Enquanto isso, Eddie Murphy merece aplausos por finalmente assumir um papel dramático, comprovando o imenso talento para caracterizações já evidenciado em produções como O Professor Aloprado 2 e Um Príncipe em Nova York, quando deu vida a vários personagens completamente diferentes entre si. Embora boicotado pelo roteiro (sempre voltamos a este, pelo jeito), que lhe nega um arco dramático eficiente, Murphy faz o possível para transformar James “Thunder” Early em uma figura marcante, destacando-se principalmente na cena em que o cantor, inicialmente preso a uma apresentação pasteurizada completamente diferente de seu estilo, não consegue se conter e se solta diante de uma platéia de brancos preconceituosos em Miami (algo que acontece duas vezes ao longo da projeção). Por outro lado, sua dependência das drogas soa melodramática e artificial, especialmente na cena em que ele ouve um comentário negativo sobre sua nova música e decide se dopar diante de todos.

Fechando o elenco, Beyoncé Knowles retrata bem a transformação de Deena, que de jovem tímida se converte em uma mulher confiante e firme; Danny Glover exibe a simpatia habitual como o primeiro empresário de James Early, que se deixa derrotar pelo próprio conformismo diante do racismo de sua época; e Anika Noni Rose faz o máximo com um papel pouco desenvolvido pelo roteiro: o da terceira Dreamgirl. Já Jamie Foxx oferece um desempenho apenas correto como Curtis Taylor, decepcionando particularmente nos números musicais, quando sua falta de energia compromete sua performance (o que é estranho se considerarmos seu brilhantismo em Ray).

Entregando-se ao água-com-açúcar hollywoodiano, sempre obcecado por um final feliz, Dreamgirls jamais consegue fazer jus à trágica história que pretende contar. Além disso, é particularmente irônico que Jennifer Hudson, a mais do que óbvia protagonista do filme, tenha sido classificada pelo próprio estúdio como “coadjuvante” nesta época de premiações, abrindo espaço para que a bela Beyoncé assumisse a posição de atriz principal. Com isso, os realizadores exibem exatamente o mesmo preconceito que fingem condenar em seu longa, valorizando mais a estética do que o talento.

Hipocrisia, Dreamgirls é seu nome.

15 de Fevereiro de 2007

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.