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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
19/10/2007 17/08/2007 2 / 5 / 5
Distribuidora

Invasores
The Invasion

Dirigido por Oliver Hirschbiegel. Com: Nicole Kidman, Daniel Craig, Jeremy Northam, Jeffrey Wright, Jackson Bond, Veronica Cartwright, Celia Weston, Roger Rees.

Quando, há cerca de 10 anos, escrevi sobre a versão de Os Invasores de Corpos produzida em 1978, comentei que esta história concebida pelo escritor Jack Finney exercia algum tipo de fascinação particular sobre os norte-americanos, já que fora refilmada três vezes, sempre com ótimos resultados (na época, eu ainda não havia visto o longa de 56, erro corrigido desde então). Prestando-se a diferentes interpretações de acordo com a visão de cada diretor e as obsessões de seus respectivos períodos, a angustiante trama já funcionara como metáfora do mccarthysmo em sua caçada criminosa aos comunistas; como retrato do clima conspiratório inspirado por Watergate; e, é claro, como comentário sobre o medo inspirado pela epidemia de AIDS. Infelizmente, embora tente desesperadamente estabelecer um simbolismo que seja relevante, esta mais recente versão é, também, a mais decepcionante ao trocar a atmosfera de tensão pelo gênero ação, resumindo todo o drama dos personagens a um esforço patético para se alcançar um helicóptero.

Escrito por Dave Kajganich, o filme tem início com a explosão de um ônibus espacial ao reentrar na atmosfera terrestre. Espalhando destroços por uma área imensa (muitos dos quais acabam sendo vendidos no eBay), a nave traz para a Terra uma espécie de vírus alienígena que, ao contaminar uma pessoa, cria uma outra versão de seu hospedeiro – e logo a psiquiatra Carol Bennell, vivida por Nicole Kidman com terrível inexpressividade, ouve uma paciente reclamar que seu marido “não é mais” seu marido (uma fala presente em todas as adaptações, se não me engano). Aos poucos, a heroína se dá conta da terrível ameaça que toma conta do mundo, unindo-se ao médico Ben (Craig, antes de ser escalado como James Bond) para salvar seu filho Ollie (Jackson... Bond!), que se encontra na casa do pai – que, é claro, já foi contaminado.

Parte da mórbida atração exercida pelo conceito criado por Finney deve-se, suspeito, a dois terrores humanos básicos: o de que as pessoas que conhecemos talvez não sejam exatamente como imaginamos e a idéia de que possamos ser vistos como párias, como “aberrações”, por todos que nos cercam. Além disso, há sempre um sentimento de angústia associado a toda trama sobre grandes conspirações: a possibilidade de que possamos conhecer um segredo terrível ignorado pelos demais (que, para piorar, não acreditam em nossos avisos) é, convenhamos, apavorante. Assim, os melhores momentos de Invasores são aqueles nos quais os humanos ainda não contaminados trocam dicas (às escondidas) sobre como enganar os alienígenas – o que resulta na melhor cena do filme, quando duas pessoas se passam por infectadas uma para a outra enquanto tentam concluir se aquela à sua frente é ou não um extraterrestre.

Marcando a estréia em Hollywood do cineasta Oliver Hirschbiegel, Invasores reflete a impassividade de seus vilões, já que desenvolve sua narrativa potencialmente tensa de maneira insossa e pouco envolvente – algo que se torna ainda mais decepcionante quando consideramos que Hirschbiegel comandou os tensos e intrigantes A Experiência e A Queda. Investindo numa montagem que atira flashbacks e flashfowards no meio de suas cenas de forma pouco orgânica, numa tentativa capenga de imprimir ritmo à trama, o diretor cria um filme terrivelmente irregular. Vale dizer, porém, que a falta de coesão do projeto provavelmente se deve, também, ao fato dos irmãos Wachowski terem sido convocados pelo estúdio para escreverem novas cenas (dirigidas por James McTeigue, de V de Vingança) depois que Hirschbiegel já havia concluído uma versão inicial do longa, considerada “lenta” demais pelos executivos – e tenho fortes suspeitas de que a patética e intrusiva seqüência de perseguição que agora toma conta do terceiro ato tenha sido idéia dos realizadores da trilogia Matrix, que possivelmente também escreveram o óbvio monólogo recitado pelo diplomata russo interpretado por Roger Rees e que soa como os discursos do Agente Smith no primeiro Matrix e remetem à pompa oral do Arquiteto de Matrix Reloaded, trazendo um resumo do tema de Invasores que, por via das dúvidas, é repetido nos momentos finais de projeção para se certificar de que nenhum espectador sairá do cinema sem compreender a mensagem.

Ou melhor: “mensagens”, no plural, já que o roteiro se revela uma metralhadora disposta a atirar para todos os lados na esperança de se tornar socialmente “responsável”. Assim, ouvimos comentários sobre a falta de compromisso da imprensa norte-americana para com os fatos (alguém diz que teve que consultar publicações internacionais para descobrir o que está havendo; sobre a manipulação deste “quarto poder” pelo governo (a primeira medida dos alienígenas é contaminar os jornalistas que cobrem a Casa Branca; e, é claro, sobre a natureza animalesca da humanidade – o que é ressaltado de forma inadvertidamente cômica por notícias de que tratados de paz vêm sendo assinados por vários países inimigos.

E já que mencionei a graça acidental de cenas originalmente concebidas como instantes de tensão, não há como deixar de citar o momento em que Nicole Kidman dá instruções ao filho para que este aplique uma injeção em seu coração caso ela venha a dormir – um absurdo só superado pela estupidez do personagem de Jeremy Northam, que, logo depois de ouvir um relatório sobre a contaminação dos destroços do ônibus espacial, não pensa duas vezes antes de estender a mão para pegar um pedaço da nave entregue por um completo estranho. Como se não bastasse, a psiquiatra interpretada por Kidman se estabelece inquestionavelmente como uma das piores profissionais da História do Cinema ao decidir alterar a medicação de uma paciente apenas em função de um relato feito por esta durante a consulta – um tropeço tão grande que a própria personagem chega a reconhecê-lo durante o segundo ato.

Buscando atualizar a história ao adicionar referências ao Google (uma busca feita por Kidman é fundamental para convencê-la de que algo está errado) e ao empregar mensagens de texto via celular como recurso dramático, Invasores volta a errar ao exagerar em sua tentativa de ser “moderno” demais, quando tenta explicar “cientificamente” (com aspas gigantescas) a natureza dos alienígenas – e cabe ao sempre ótimo Jeffrey Wright a tarefa ingrata de conferir credibilidade a alguns dos diálogos mais estúpidos (e, conseqüentemente, engraçados) do roteiro: “Os hormônios do sono agem como catalisadores de algum tipo de reação metabólica e são excretados em seguida”, ele explica com expressão séria, completando: “[Este vírus] é uma entidade nova que invade o corpo das pessoas, integrando-se ao seu DNA e reprogramando sua expressão genética da noite para o dia”. Mas o mais hilário é que esta última frase é precedida, acreditem ou não, pela seguinte afirmação: “[Alguns cientistas] formularam uma hipótese interessante”. Hum-hum. Bom, talvez eu não esteja dando crédito suficiente ao personagem de Wright, já que, apesar de ser um mero técnico de laboratório, ele eventualmente acaba surgindo no comando de um grupo militar, o que indica que talvez ele seja uma espécie de James Einstein Bond disfarçado.

Sem ter a coragem de manter o final sombrio de todos os seus antecessores, Invasores opta, em vez disso, pelo cinismo – e, no processo, ainda acaba defendendo a idéia de que a individualidade talvez seja algo que valha a pena sacrificar em prol do “bem comum”. Com isso, o conceito persecutório do senador McCarthy, que enxergava a diferença como uma ameaça à sociedade, torna-se justificado pelo filme, numa posição oposta à do longa original. Talvez este retrocesso seja o que faltava para fechar o círculo e dar o descanso merecido à história de Jack Finney – mesmo que este se contorça no túmulo ao ver sua mensagem virada ao avesso.

18 de Outubro de 2007

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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