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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
25/07/2003 07/03/2003 1 / 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
105 minuto(s)

A Casa Caiu
Bringing Down the House

Dirigido por Adam Shankman. Com: Steve Martin, Queen Latifah, Eugene Levy, Jean Smart, Betty White, Missi Pyle, Michael Ensign e Joan Plowright.

Não há equívoco maior, em uma comédia, do que permitir que o espectador perceba que determinada situação foi criada exclusivamente com o objetivo de arrancar risadas. Assim, é lógico concluir que os melhores exemplares do gênero são aqueles em que as gags parecem surgir naturalmente a partir da personalidade de seus personagens: quando Harry (vivido por Jeff Daniels) lambe uma haste de metal congelada e fica com a língua presa, em Débi e Lóide, sua atitude é perfeitamente compreensível dentro do contexto estabelecido por seu caráter. Por outro lado, quando Charlene (Queen Latifah) tenta ensinar o advogado Peter Sanderson (Steve Martin) a dançar, neste recente A Casa Caiu, a cena imediatamente soa pouco natural, revelando sua intenção de fazer graça – o que, obviamente, anula sua tentativa.

Infelizmente, este é apenas um dos defeitos do péssimo roteiro escrito por Jason Filardi, que transborda de clichês. Não acredita? Então leia a sinopse a seguir e veja quantos chavões consegue detectar (e perceba que este é apenas um resumo da trama): advogado bem-sucedido, que raramente encontra tempo para ficar com os filhos, conhece mulher misteriosa em um chat da Internet, com quem marca um encontro. No entanto, para sua surpresa (ele esperava uma advogada loira e rica), sua namorada virtual é uma ex-presidiária negra e falastrona que o obriga a ajudá-la na tentativa de provar sua inocência. Enquanto tenta esconder sua hóspede da vizinha racista, Peter luta para conquistar a confiança de uma milionária de quem quer se tornar advogado. Aos poucos, porém, Charlene (a ex-presidiária) vai conquistando a todos com seu jeito espontâneo – o que não a impede de colocar Peter em várias confusões.

Antes de mais nada, é preciso admitir que, ao longo de seus 105 minutos de duração, A Casa Caiu consegue provocar algumas poucas risadas – em sua maior parte, graças às reações de Steve Martin aos problemas que enfrenta: em certo momento, por exemplo, ele disca para a polícia e, ao desistir da ligação, finge ser oriental a fim de despistar a atendente – o que o ator faz com sua graça costumeira. Além disso, Martin sempre foi um mestre no humor físico, o que também é explorado (embora não muito) ao longo do filme, como na cena em que tenta acordar Charlene, com resultados desastrosos.

Na maior parte do tempo, porém, o filme falha ao não explorar o imenso talento do comediante, obrigando-o a protagonizar cenas forçadas e com resultados desastrosos (como na seqüência em que ele se disfarça para entrar em uma boate freqüentada apenas por negros. Além de ridícula – no sentindo nada divertido da palavra -, a seqüência ainda copia descaradamente um dos melhores momentos de Politicamente Incorreto, em que o personagem de Warren Beatty faz exatamente a mesma coisa). Da mesma forma, a cena em que Peter convida sua cliente para jantar em sua casa se esforça ao máximo para atingir o clímax cômico de situações semelhantes em A Gaiola das Loucas e Entrando Numa Fria, mas o resultado é medíocre, levando o espectador a testemunhar vários minutos de tentativas desesperadas por parte do roteirista, que chega a utilizar velhas piadas como a dos `pratos trocados` e a do `laxante na comida`. Aliás, qualquer filme que tente provocar risos através de animais vestidos com `roupas engraçadas` está claramente ciente de suas deficiências.

Como se não bastasse, Jason Filardi cria uma subtrama, envolvendo um marginal, pesada demais para o estilo do projeto – e, assim, durante o segundo ato da narrativa há vários momentos que parecem pertencer a outro filme, já que nenhuma tentativa de provocar risos (mesmo que equivocada) é feita. Para piorar, a amizade entre Charlene e Peter desenvolve-se de forma abrupta, como uma simples exigência do roteiro, o que impede que acreditemos no relacionamento da dupla – e o mesmo pode ser dito com relação ao elo de confiança entre a ex-presidiária e os filhos do advogado.

E isto é uma pena, já que Steve Martin certamente merecia um filme melhor. Extremamente talentoso, o comediante encarna, em A Casa Caiu, um dos tipos que se tornaram sua marca registrada: o do americano careta que se vê metido em problemas `socialmente` constrangedores – basta ver os ótimos Antes Só do que Mal Acompanhado, Como Agarrar um Marido e O Pai da Noiva. Aliás, como já dito, os poucos momentos realmente engraçados deste novo filme são justamente aqueles em que o ator pode brincar com o embaraço de seu personagem.

Por outro lado, Queen Latifah se limita a ser a causa destes embaraços, raramente provocando o riso do espectador (uma destas poucas ocasiões é aquela em que a atriz imita o estilo histriônico de Eddie Murphy ao fazer um escândalo na porta da casa de Peter). Enquanto isso, Eugene Levy rouba algumas cenas, como de hábito, no papel do melhor amigo do advogado vivido por Steve Martin – mas nada que consiga salvar o filme. Infelizmente, o elenco conta, também, com a péssima Missi Pyle, que, no papel da ex-cunhada de Peter, parece acreditar ser engraçada, insistindo em caretas, gracinhas e gestos exagerados (especialmente durante o ridículo confronto com a personagem de Latifah). Para ser sincero, não ficarei espantado se Pyle for indicada ao Framboesa de Ouro, em 2004.

Sem saber sequer como concluir o filme, o diretor Adam Shankman (`auxiliado` pelo roteiro) falha até mesmo ao não dar continuidade ao relacionamento entre Peter e Charlene: depois de protagonizarem um tórrido encontro em um sofá, por exemplo, os dois jamais voltam a tocar no assunto, o que é incompreensível.

Aliás, incompreensível mesmo é a razão que levou A Casa Caiu a receber luz verde do estúdio.
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5 de Maio de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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