Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Última Noite
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
23/05/2003 10/01/2003
Distribuidora

 

 


A Última Noite
The 25th Hour

A Última Noite

Dirigido por Spike Lee. Com: Edward Norton, Philip Seymour Hoffman, Barry Pepper, Rosario Dawson, Anna Paquin e Brian Cox.

Durante os créditos iniciais de A Última Noite, o cineasta Spike Lee atinge o espectador com a fantasmagórica imagem dos dois fachos de luz que, durante alguns dias, substituíram a presença do World Trade Center no horizonte de Nova York. Com isso, o diretor estabelece o tom de seu filme: assim como a cidade, o protagonista da história acaba de ter suas ilusões de invulnerabilidade e seus projetos futuros completamente destruídos. Atordoado, ele procura encontrar formas de compreender exatamente o que lhe aconteceu e de cercar-se de alguma esperança para continuar a viver.

Adaptado por David Benioff a partir de seu próprio livro, A Última Noite traz Edward Norton como o amargurado Montgomery (Monty) Brogan, um sujeito que, depois de conseguir uma bolsa de estudos em uma instituição conceituada, optou por utilizar sua nova posição para vender drogas para jovens da alta sociedade. Inicialmente bem sucedido, ele compra um caro apartamento, um carro luxuoso e se envolve com a bela Naturelle (Rosario Dawson). Certo dia, porém, a polícia bate em sua porta com um mandado de busca e a informação precisa de onde o sujeito esconde a droga. Condenado a sete anos de prisão, Monty decide utilizar suas últimas 24 horas de liberdade para despedir-se do pai, de seus dois melhores amigos e da namorada – apesar de não conseguir ocultar a dolorosa suspeita de que foi esta última quem o denunciou.

Brilhantemente interpretado por Norton como um sujeito deprimido e angustiado, Montgomery sabe que sua aparência bem cuidada lhe trará problemas na cadeia – temor que fica claro no momento em que ele descreve para um amigo o que provavelmente acontecerá em sua primeira noite na prisão: `As portas se fecham, as luzes se apagam e... bum! Alguém mete os joelhos nas minhas costas enquanto outro cara aparece com um cano e arrebenta meu rosto – não para me machucar, mas para quebrar meus dentes e impedir que eu os morda quando estiver sendo obrigado a chupá-los durante a noite`.

Não deixa de ser curiosa, portanto, a ironia de Spike Lee ao incluir um cartaz de Rebeldia Indomável no apartamento de Montgomery: dono de uma forte determinação, o personagem de Paul Newman naquele filme conquistava o respeito de seus companheiros de cárcere – algo que Monty gostaria (sem esperanças, no entanto) de conseguir (aliás, se nos lembrarmos do destino de Luke, a ironia de Lee se torna ainda mais implacável). Assim, ciente (talvez pela primeira vez na vida) de sua fragilidade, o rapaz procura encontrar algo ou alguém que possa lhe trazer algum tipo de conforto moral, físico ou espiritual, num interessante reflexo de sua própria atitude para com o cachorro Doyle, no início do filme. Mas não se deixe enganar: em nenhum momento o sujeito parece se arrepender de seus atos; ele lamenta, apenas, ter sido apanhado.

No entanto, A Última Noite não se concentra somente em Monty: aos poucos, também conhecemos as angústias de seus dois amigos: Francis (Barry Pepper), que insiste em manter uma fachada de frieza e brutalidade, embora se culpe pelo destino do companheiro; e Jacob (Philip Seymour Hoffman), um professor de segundo grau que se encontra apaixonado por uma de suas alunas (Anna Paquin). A subtrama envolvendo os personagens de Hoffman e Paquin, aliás, é a mais envolvente do filme – e é uma pena, portanto, que eles sejam apenas figuras secundárias na história.

Lamentável, também, é a insistência de Spike Lee em estabelecer a analogia entre o destino de Monty e as conseqüências dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001: caso tivesse encerrado a comparação na imagem inicial, o cineasta certamente teria enriquecido o filme; porém, ao descartar qualquer sinal de sutileza em seu trabalho, Lee dilui o drama de seu protagonista em um oceano de sofrimento. Em certo momento, por exemplo, Francis e Jacob discutem o futuro do amigo em frente a uma janela que se abre diretamente para o local em que os destroços das Torres Gêmeas se encontram e, mais tarde, Monty conversa com o pai em um bar repleto de homenagens aos bombeiros mortos no atentado. Nestas cenas, o compositor Terence Blanchard procura aumentar o impacto dramático das imagens com uma trilha trágica, grandiosa - o que inquestionavelmente ofusca o drama pessoal do condenado.

Produzido por Tobey Maguire, A Última Noite possui, no entanto, seus bons momentos – como aquele em que Norton protagoniza um monólogo raivoso contra todos os grupos sociais, étnicos e religiosos de Nova York (uma seqüência que, creio eu, estará presente em todos os clipes produzidos sobre a carreira do ator).

Caso não tivesse permitido que seu próprio choque relativo aos atentados interferisse de forma tão intensa no filme, Spike Lee poderia ter realizado mais uma produção de grande impacto. Infelizmente, o contrário ocorreu: um grande impacto enfraqueceu seu trabalho.
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22 de Maio de 2003

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.