Críticas por Pablo Villaça

Poster: Harry Potter e o Cálice de Fogo
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
25/11/2005 12/11/2005
Distribuidora

 

 


Harry Potter e o Cálice de Fogo
Harry Potter and the Goblet of Fire

Harry Potter e o Cálice de Fogo

Dirigido por Mike Newell. Com: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Michael Gambon, Timothy Spall, David Tennant, Maggie Smith, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Brendan Gleeson, Miranda Richardson, Robert Pattinson, Jason Isaacs, Matthew Lewis, Warwick Davis, Frances de la Tour, Gary Oldman, Ralph Fiennes.

Ainda que não contasse com um universo imaginativo povoado de personagens interessantes, a série Harry Potter já mereceria destaque apenas pelo elenco admirável que vem compondo para dar vida a estas figuras. Se fôssemos listar todos os atores e atrizes que já fizeram participações nestes quatro longas, teríamos uma relação que poderia perfeitamente receber o título de `os melhores do cinema britânico`. Além disso, a idéia de trazer novos diretores a cada novo capítulo (algo que começou com O Prisioneiro de Azkaban) é engenhosa, já que permite que a série se renove constantemente graças ao olhar sempre novo sobre o material.

Mais uma vez roteirizado por Steve Kloves a partir do livro de J.K. Rowling, Harry Potter e O Cálice de Fogo traz o herói em seu quarto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, que foi escolhida para sediar o importante Campeonato Tribruxo. Misteriosamente selecionado para participar do evento (que só permitia a inscrição de bruxos acima de 17 anos), Harry lida com as dificuldades apresentadas pelas perigosas tarefas ao mesmo tempo em que estranhos indícios apontam para o retorno de Lord Voldemort. Para superar os obstáculos, o protagonista mais uma vez contará com a ajuda de seus amigos Ron e Hermione, com a proteção do sábio Alvo Dumbledore e com os conselhos de seu novo professor, Olho-Tonto Moody.

Dando continuidade ao clima mais sombrio adotado no filme anterior, o cineasta Mike Newell estabelece um tom de urgência e melancolia desde o início da narrativa – e, seguindo esta lógica, parece determinado a manter o sol afastado de Hogwarts, já que o diretor de fotografia Roger Pratt (e a equipe de efeitos visuais) mantém o céu sempre nublado, acinzentado. Não há, desta vez, qualquer sinal da leveza vista em A Pedra Filosofal ou A Câmara Secreta, e um indício inequívoco desta realidade é a ausência dos Dursley; o mundo de Harry Potter já é ameaçador o bastante para dispensar as maldades inconseqüentes de seus tios.

Da mesma forma, a narrativa de O Cálice de Fogo caminha rapidamente, sem perder tempo com amenidades; todas as cenas trazem elementos relevantes para a trama e empurram a história para frente (um exemplo pode ser encontrado no único momento em que um professor aparece realmente dando aula: de forma econômica, somos apresentados às `três maldições imperdoáveis` que, posteriormente, desempenharão papel importante nos acontecimentos). Infelizmente, isto acaba custando algo ao filme, sacrificando o desenvolvimento de alguns personagens importantes e saltando alguns incidentes que mereciam algum tempo de tela – particularmente, confesso que gostaria de ter acompanhado ao menos alguns segundos das provas dos adversários de Harry, especialmente no que diz respeito à luta com os dragões. Isto serviria até mesmo para salientar as dificuldades que o herói enfrentaria a seguir, contribuindo para aumentar a tensão (de todo modo, Newell acerta ao incluir diversos planos nos quais vemos as reações dos espectadores que assistem ao duelo; é mais eficaz imaginarmos o que está acontecendo através do pavor daquela platéia do que testemunharmos cada instante do confronto).

Ainda assim, é bom ver que o roteiro encontra um tempinho para investir em Neville, um dos alunos mais tímidos e inseguros da Grifinória, e, especialmente, para permitir que Dumbledore se torne mais presente do que nos filmes anteriores. Aliás, uma das vantagens de uma série longa como Harry Potter é permitir que nos tornemos `íntimos` de certos personagens, passando a conhecê-los relativamente bem. Assim, quando vemos o diretor de Hogwarts ansioso em função da escolha de Harry para participar do Campeonato, imediatamente percebemos que a situação é grave, já que sabemos que ele normalmente se mostra impassível mesmo diante de problemas complicados. Além disso, é interessante perceber que Dumbledore se sente culpado por não ter percebido os indícios da ameaça representada por Voldemort no passado, o que o leva a se tornar ainda mais cauteloso no presente. Finalmente, O Cálice de Fogo também se beneficia com as ótimas presenças de Brendan Gleeson, que encarna Olho-Tonto Moody quase como um paranóico veterano de guerra, e de Ralph Fiennes, que comprova ser ideal para dar vida à malevolência sem limites de Lord Voldemort.

Já o trio principal de jovens atores continua a demonstrar segurança em seus respectivos papéis: Daniel Radcliffe ainda funciona como elo de ligação entre o espectador e o universo fantástico apresentado pelo filme, já que Harry jamais deixa de se mostrar fascinado com a magia de seu novo mundo. E mais: ao lado de Rupert Grint, Radcliffe estabelece uma amizade entre Harry e Ron que soa genuína, embora sempre conturbada (em alguns momentos, Ron claramente ressente a fama e a riqueza do amigo, o que confere complexidade ao relacionamento da dupla). Por outro lado, Emma Watson, embora tenha se tornado o rosto definitivo de Hermione, demonstra uma tendência preocupante ao exagero, fazendo caras e bocas sempre que surge em cena, como se tudo o que sua personagem vê ou diz merecesse uma expressão facial sob encomenda. Isto revela, é claro, insegurança por parte da jovem atriz, que ainda não aprendeu a importância da economia na atuação, e é algo que deve ser observado nos capítulos seguintes da série.

Recheado de efeitos visuais espetaculares (o estádio de quadribol visto no início da projeção é absolutamente sensacional), Harry Potter e o Cálice de Fogo é tenso e envolvente, embora substitua a complexidade psicológica e emocional de O Prisioneiro de Azkaban por uma montagem mais preocupada com a história do que com os personagens. Além disso, confesso que, diante do rebuscamento visual do terceiro capítulo, este novo episódio acaba empalidecendo, o que é uma pena.

Superior a A Pedra Filosofal e a A Câmara Secreta e ficando um pouquinho a desejar com relação a O Prisioneiro de Azkaban (que, como falei, explorava melhor os personagens), este Harry Potter e o Cálice de Fogo representa mais uma boa transposição dos livros de Rowling para as telas. A série pode até não ter gerado uma obra-prima até o momento, mas tampouco deu origem a um filme ruim. Mesmo em seus momentos menos inspirados, a franquia vem encantando com sua imaginação, seus personagens e seu elenco. E isto já é um grande feito.
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24 de Novembro de 2005

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.