Críticas por Pablo Villaça

Poster: Velozes e Furiosos
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
28/09/2001 22/06/2001
Distribuidora

 

 


Velozes e Furiosos
The Fast and the Furious

Velozes e Furiosos

Dirigido por Rob Cohen. Com: Vin Diesel, Paul Walker, Michelle Rodriguez, Jordana Brewster, Rick Yune, Chad Lindberg e Ted Levine.

Velozes e Furiosos é um filme de ação na melhor e na pior acepção da palavra: na melhor, porque contém cenas de tirar o fôlego; e, na pior, porque não se preocupa em contar uma história, julgando que apenas as perseguições e tiroteios são o bastante para agradar ao espectador. Talvez isso seja verdade para parte do público, mas não posso deixar de ter a esperança de que a maioria das pessoas sentirá falta de uma trama mais elaborada.

Na verdade, o tom do filme pode ser sintetizado por sua introdução: com apenas dez minutos de projeção, Velozes e Furiosos já metralhou o espectador com uma perseguição envolvendo quatro carros e um caminhão; uma cena em que um carro alcança uma alta velocidade e rodopia; e uma briga entre dois sujeitos musculosos. Em contrapartida, depois destes dez minutos, a platéia continua sem saber do que se trata a história – que, descobrimos depois, parece girar em torno de um grupo de jovens que ganha a vida disputando corridas de rua e que pode ou não ser responsável por uma série de assaltos a caminhões. Digo `parece` porque, na verdade, a história gira mesmo em torno de carros velozes, mulheres voluptuosas – algumas lésbicas, inclusive -, cerveja e (novamente) carros velozes. Em resumo: o filme se passa em um universo que pode ser definido como o `paraíso do machão`. A certa altura, por exemplo, diversos carros aparecem estacionados, com seus capôs erguidos, enquanto dezenas de rapazes contemplam os motores uns dos outros, como se admirassem garotas de topless ou (numa interpretação mais apropriada) competissem para ver qual deles tem o maior pênis (não estou sendo original aqui: a interpretação do carro como símbolo fálico é um conceito antigo).

Para ser honesto, este tal `paraíso do machão` não me incomodaria tanto (que minha esposa não leia estas palavras) caso o filme também oferecesse um bom roteiro. Infelizmente, os roteiristas Gary Scott Thompson, Erik Bergquist e David Ayer (sim, são três!) conseguem atrapalhar mais do que ajudar: em certo momento, para explicar o porquê da polícia não interferir na corrida de rua, o trio mostra um dos corredores monitorando o rádio-comunicador dos policiais até escutar a informação de que ocorreu um crime em uma loja distante dali. Em outras palavras: eles já podem correr, pois toda a força policial da cidade se deslocou para investigar o mesmo delito. Minutos depois, a polícia (já de volta) persegue Toretto (Vin Diesel), um dos personagens principais do filme, enquanto este tenta fugir. A pergunta é: por que ele foge, já que a polícia sabe seu nome, seu endereço e ele não pretende permanecer foragido? Aparentemente, há uma regra nesta cidade: se os policiais não conseguirem prendê-lo naquele momento, são obrigados a deixá-lo livre. E é exatamente isso que acontece: Toretto escapa e nenhum policial aparece em sua casa para (no mínimo) interrogá-lo. Em compensação, logo depois vemos uma festa na qual todos escutam rock pesado, bebem, transam e, como se não bastasse, duas belas mulheres se beijam. É como se os roteiristas dissessem: `Esqueçam os furos da história... Ei! Vejam estas lésbicas maravilhosas!`.

Infelizmente, este pouco caso com o espectador não é o pior elemento de Velozes e Furiosos: o grande problema do filme reside, de fato, em seu protagonista – um sujeito sem o menor carisma, interpretado por um ator (Paul Walker) desprovido de talento e com um caráter altamente questionável (não que ele seja um anti-herói; o filme apenas não percebe que as características `viris` do personagem comprometem sua índole). Basta dizer que, em determinada cena, ele provoca um estranho, com quem disputa um `racha`, colocando, com isso, as vidas de várias pessoas em risco. E por qual motivo? Nenhum. Esta atitude talvez fosse `perdoável` caso partisse do personagem de Vin Diesel, já que Toretto é apresentado como um sujeito problemático, mas acaba sendo um problema quando atribuída ao suposto herói.

Vin Diesel, aliás, é um dos poucos elementos positivos de Velozes e Furiosos, sobressaindo-se em meio a um elenco terrivelmente fraco (até mesmo Michelle Rodriguez, aclamada por sua atuação em Girlfight, oferece um desempenho constrangedoramente ruim; enquanto Jordana Brewster, tão brasileira quanto Gwyneth Paltrow, serve apenas como figura decorativa).

Aliás, é somente em função do carisma de Vin Diesel que este filme consegue se tornar um passatempo razoável, o que explica a atual popularidade do ator em Hollywood. Caso Toretto fosse interpretado por um manequim ao estilo Chris O’Donnell, Velozes e Furiosos seria realmente detestável – e seu título serviria apenas para descrever a forma e o humor do público ao sair do cinema.

Observação: há uma pequena cena, logo após os créditos finais, que explica melhor o destino de um dos personagens do filme.``

29 de Setembro de 2001

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.