Críticas por Pablo Villaça

Poster: Psicose (1998)
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
15/01/1999 04/12/1998
Distribuidora

 

 


Psicose (1998)
Psycho (1998)

Psicose (1998)

Dirigido por Gus Van Sant. Com: Vince Vaughn, Anne Heche, Julianne Moore, William H. Macy, Viggo Mortensen, Rita Wilson, Robert Foster, Philip Baker Hall.

Pense nisso: por que a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, está exposta no Museu do Louvre e tem valor inestimável enquanto qualquer cópia aparentemente idêntica desta tela pode ser adquirida por uma quantia irrisória em qualquer lugar do mundo? O que torna o quadro de da Vinci tão valioso, tão... inigualável? Uma possível resposta seria: nenhuma réplica teria o toque de gênio, a sutileza e o frescor impressos pelo artista em sua obra. É mais ou menos assim que enxergo esta nova versão de Psicose.

Pois a verdade é que Gus Van Sant fez uma réplica do filme de Hitchcock - e não me refiro apenas ao fato de ter utilizado o mesmo roteiro, de Joseph Stefano, e de ter até mesmo procurado seguir o mesmo cronograma de gravações utilizado pelo Mestre do Suspense. Curiosamente, Van Sant abriu mão de tentar explorar sua visão particular de Psicose e optou, ao invés disso, por copiar até mesmo os enquadramentos e movimentos de câmera criados por Hitchcock para o filme original. Em função disso, assistir a este filme nos traz uma sensação curiosa. É quase como se estivéssemos assistindo a uma versão colorizada do filme de 1960. Eu disse `quase`.

Infelizmente, esta nova versão nada mais é do que a cópia da Mona Lisa. Apesar de aparentemente igual, o filme fica a desejar - e muito - para o clássico que o inspirou. É quase como se houvesse uma essência, uma `alma` na obra de Hitchcock, algo que Gus Van Sant não foi capaz de captar.

No entanto, não se trata apenas de algo subjetivo, de uma `impressão`. As falhas desta cópia são perfeitamente detectáveis. Temos, por exemplo, o `elemento surpresa`: o próprio trailer desta nova versão se encarregou de revelar a identidade do verdadeiro `psicótico` indicado pelo título do filme. Se a versão original foi cercada de mistério, fazendo com que o público chegasse a pensar que a `psicótica` era a personagem de Janet Leigh (que agora é interpretada por Anne Heche), desta vez o mistério foi completamente desfeito, impedindo a complexa (e inteligente) história de brincar com a cabeça do público.

Soma-se a isso a infeliz escalação de Vince Vaughn para interpretar Norman Bates. É claro que ninguém esperaria que o trabalho de Anthony Perkins no filme original pudesse ser suplantado. Infelizmente, porém, Vaughn ainda fez péssimas escolhas durante sua caracterização. O Norman Bates de Perkins, por exemplo, quando surge pela primeira vez na tela inspira uma imediata simpatia no público. É exatamente como ele virá a dizer para o detetive Arbogast, mais adiante: `Devo ter um destes rostos que inspiram confiança.` Quando ouvimos a Mãe gritando com Bates, sentimos pena do rapaz. Quando ele se oferece para preparar sanduíches para Marion Crane, sentimos sua generosidade. Quando ele se nega a internar a Mãe doente, percebemos sua bondade. E quando, finalmente, ele descobre o crime cometido pela `Mãe`, sentimos aflição por ele. Mais tarde, quando a verdade é descoberta, estes sentimentos são atirados de volta na surpreendida platéia.

Nada disso acontece nesta nova versão. O Norman de Vince Vaughn inspira, ao contrário, imediata antipatia. É quase como se quiséssemos avisar Marion Crane: `Não confie neste sujeito! Ele não presta!`. Infelizmente, o ator não percebeu que a simpatia de Bates assusta mais do que suas expressões doentias. Outro exemplo claro: no filme original, Perkins terminava muitas de suas falas com uma risadinha nervosa, quase compulsiva. Era a tentativa de agradar uma bela desconhecida partindo de um rapaz tímido. Já Vaughn emite uma risada forçada, falsa, que alerta o público mais uma vez sobre a perigosa natureza de seu personagem.

Enquanto isso, Anne Heche se limita a tentar copiar as expressões de Janet Leigh, no que é relativamente bem sucedida. Porém, a atriz falha em um ponto crucial: em nenhum momento ela é capaz de transmitir a ambigüidade da personagem, o conflito em que ela se vê constantemente mergulhada. Por incrível que pareça, a Marion Crane de 1960 era mais decidida e segura de si do que a de 1998. Enquanto isso, Julianne Moore e Viggo Mortensen passam pela trama sem muito alarde. Se não acrescentam nada, também não comprometem. Na verdade, o único trabalho digno de nota neste novo Psicose é o de William H. Macy, como Arbogast. Se o detetive interpretado por Martin Balsam, no original, já era um personagem marcante, Macy consegue dar ainda maior dimensão para o sujeito. Na verdade, a atuação deste ator é o único elemento que eu arriscaria em apontar como `superior` ao original.

Já analisar a direção de Gus Van Sant é algo mais complexo: se ele literalmente copiou o filme de Hitchcock, como dizer se ele teve sucesso ou se falhou? A seqüência do assassinato de Arbogast é tão assustadora quanto à do original: a câmera acompanha o detetive enquanto este sobe as escadas e, passando por sobre sua cabeça, enquadra a escadaria da Mansão Bates por cima, permitindo que a platéia veja, antes de Arbogast, a Sra. Bates saindo de seu quarto com uma faca nas mãos. Já a famosa seqüência do chuveiro virou uma verdadeira piada: a iluminação inadequada permite que vejamos com maior nitidez o rosto da `Mãe`, praticamente entregando, de cara, o segredo do filme. Para se ter uma idéia de como ela perdeu o impacto, várias pessoas riram durante esta cena, no cinema em que eu me encontrava. Uma lástima.

Além disso, o diretor teve a péssima idéia de explicitar o conteúdo sexual `embutido` no original, acrescentando uma cena na qual Norman Bates se masturba enquanto observa Marion Crane se despindo. Esta cena, aliás, falha em todos os sentidos: evidencia ainda mais a perturbação de Norman; desvia a atenção da platéia da carência afetiva do personagem, transformando-o apenas em mais um voyeur; e, ainda, quebra a tensão que vinha sendo construída até ali, arrancando mais gargalhadas da platéia. A verdade é que Hitchcock transmitiu toda a sexualidade de seus personagens sem que, para isso, precisasse mostrá-la. A exceção fica por conta da cena em que Marion Crane diz, logo no começo do filme, que não irá esperar seu namorado `calçar os sapatos`. Enquanto no filme original ele realmente estava descalço, desta vez o personagem está completamente nu - o que confere uma malícia divertida à moça.

A verdade é que Gus Van Sant assumiu um trabalho ingrato: quando as cenas funcionam, em seu filme, a responsabilidade é de Hitchcock. Quando falham, a responsabilidade é sua. Uma lição dura, óbvia e completamente desnecessária. O resultado: mais uma Mona Lisa pendurada na parede de um bar.
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15 de Janeiro de 1999

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.