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Quero Ser John Malkovich

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido por Spike Jonze. Com: John Cusack, Cameron Diaz, Catherine Keener, Orson Bean, Mary Kay Place, Charlie Sheen e John Malkovich.

Na maioria das vezes, dizer que um filme possui um `roteiro original` significa simplesmente afirmar que este não foi escrito a partir de algum outro material previamente publicado, como livro, artigo ou poema. No caso de Quero Ser John Malkovich, no entanto, o significado é literal: são poucas as vezes em que podemos realmente dizer `Nunca vi algo assim!`. Este filme consegue se encaixar nesta rara descrição.

Escrito pelo novato Charlie Kaufman, o roteiro conta a história de Craig Schwartz (Cusack), um titereiro (leia-se: manipulador de marionetes) que encontra-se desempregado há vários meses - ele passa seus dias encenando, nas ruas, uma versão do romance entre Abelardo e Heloísa (visto no drama Em Nome de Deus) interpretada por bonecos - o que geralmente lhe causa muitos problemas. Certo dia, ele resolve responder a um anúncio publicado por uma empresa que está à procura de um arquivista. Chegando ao prédio em questão, Craig tem sua primeira surpresa: o escritório funciona no sétimo e meio andar do edifício - um lugar com teto tão baixo que todos os funcionários devem andar encurvados.

É quando descobre, por acaso, uma pequena porta escondida atrás de um arquivo e, ao passar por ela, é misteriosamente levado para dentro da mente do ator John Malkovich, onde passa quinze maravilhosos minutos - sendo despejado, em seguida, à beira de uma auto-estrada. A experiência altera sua percepção da vida, e Craig resolve compartilhar sua descoberta com a bela, porém inescrupulosa, Maxine (Keener), colega de trabalho por quem está apaixonado. A sugestão da moça é simples: vender ingressos para a mente de Malkovich cobrando 200 dólares por pessoa. Enquanto isso, a esposa do titereiro, a desleixada Lotte (uma irreconhecível Cameron Diaz), também realiza suas próprias descobertas ao entrar por quinze minutos no corpo do ator.

Por mais que se tente resumir a trama de Quero Ser John Malkovich em alguns parágrafos, a tarefa revela-se impossível. O roteiro é tão repleto de revelações e reviravoltas que, em certo momento, as surpresas transformam-se em meros preâmbulos para as seguintes. Em certo momento, para se ter uma idéia, o próprio Malkovich atravessa o portal que conduz para o interior de sua mente - e o que ele vê é uma das melhores seqüências do filme.

Mas o que poderia ter se tornado um projeto simplesmente `excêntrico` ganhou um interessante contorno de realidade graças à segura direção do (também) estreante Spike Jonze, que em nenhum momento perde as rédeas do filme. Além disso, a crescente inquietação da câmera leva o espectador a sentir algo parecido com o que está acontecendo na tela: inicialmente, há uma vontade de se ficar um pouco mais em Malkovich e, mais tarde, de `libertar` o ator. E mais: o diretor chegou ao ponto de dizer a John Malkovich como ele deveria se comportar em certas situações, ignorando o fato de que, supostamente, ele deveria estar interpretando a si próprio. Sim, `supostamente`: o John Horatio Malkovich do filme não é, obviamente, o John Gavin Malkovich da vida real, mas apenas uma versão da persona cinematográfica deste.

Porém, o ator não foi o único a brincar com a própria figura: no filme, Charlie Sheen também faz uma ponta (como si mesmo) absolutamente hilária, na qual aparece como um sujeito completamente aloprado, inconseqüente e fanfarrão que visita Malkovich para aconselhar o amigo (os dois não são íntimos na vida real). Vale ressaltar que na primeira versão do roteiro esta ponta deveria pertencer a Kevin Bacon.

Aliás, esta não foi a única alteração feita no script. Na verdade, a trama foi completamente reescrita a partir da metade do filme, aproximadamente, excluindo, assim, a história dos adoradores do Diabo, o desafio entre Craig e Mantini e, principalmente, a conclusão original (o novo desfecho é bem mais bizarro). No geral, porém, todas as mudanças acabaram se revelando positivas - excetuando-se a exclusão, logo no início do filme, de uma hilária seqüência na qual o titereiro usa vários disfarces para conseguir emprego, terminando sempre na cadeia.

Quanto às atuações, o mínimo que pode-se dizer é que são homogeneamente fabulosas. Cusack, Diaz, Keener e Malkovich mereciam, todos, indicações ao Oscar - especialmente este último, que consegue a proeza de viver várias versões de si mesmo no filme, além de `encarnar` o personagem de John Cusack durante boa parte da trama. Keener, como Maxine, também cria um retrato fabuloso de uma mulher alternadamente egoísta, debochada, solitária, sensível e apaixonada.

É realmente impressionante que um roteiro complexo e arrojado como o de Quero Ser John Malkovich tenha encontrado meios de chegar às telas, já que várias coisas poderiam ter dado errado no processo: além do `excesso de inteligência` (sempre um perigo em Hollywood, como prova a fraca arrecadação deste filme nas bilheterias americanas), o próprio `homenageado` poderia ter proibido a utilização de seu nome a qualquer momento. Ao invés disso, o encontro de várias inspirações possibilitou a produção desta obra-prima - algo que, infelizmente, não encontrou reflexo na Academia, que provou mais uma vez sua falta de visão ao não indicar esta brilhante comédia farsesca ao Oscar de Melhor Filme.
``

27 de Fevereiro de 2000

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

Um manipulador de marionetes descobre um portal que leva diretamente à mente do ator John Malkovich e que acaba virando alvo de disputa entre várias pessoas.

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