Críticas por Pablo Villaça

Poster: X-Men 2
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
01/05/2003 28/04/2003
Distribuidora

 

 


X-Men 2
X2: X-Men United

X-Men 2

Dirigido por Bryan Singer. Com: Hugh Jackman, Ian McKellen, Famke Janssen, Brian Cox, Alan Cumming, Rebecca Romijn-Stamos, Anna Paquin, Patrick Stewart, Halle Berry, Aaron Stanford, Shawn Ashmore, James Marsden, Kelly Hu e Bruce Davison.

Assim como o original, X-Men 2 é um filme de super-heróis feito para adultos. Ao contrário do ótimo O Homem-Aranha e da irregular série Batman, que apostam em um universo colorido e com papéis bem definidos para seus mocinhos e bandidos, a franquia X-Men tem se destacado graças ao seu ambicioso subtexto sobre preconceito e intolerância racial. Em certo momento desta continuação, por exemplo, a mãe de um dos alunos do Professor Xavier, ao descobrir a verdadeira natureza do filho, pergunta: `Você já tentou não ser mutante?`. Nesta indagação, a palavra `mutante` poderia perfeitamente ser substituída por qualquer outro termo que defina uma minoria, como `gay` ou `comunista`, digamos.

Justamente por admirar a temática do primeiro filme, confesso que tive receios de que esta continuação fosse dominada apenas por seqüências de ação e ignorasse a natureza sofrida de seus personagens. Felizmente, meu medo era infundado: X-Men 2 não segue a velha cartilha do gênero `super-herói`, em que a única diferença entre os capítulos 1, 2 ou 3 reside na identidade dos vilões. Como em As Duas Torres, este segundo filme retoma a história exatamente a partir do ponto em que o primeiro se encerrou e, a partir daí, desenvolve uma trama nova e complexa – que, desta vez, traz os mutantes enfrentando um inimigo que quer destruir todos aqueles que possuam alterações significativas em seu DNA. Para evitar o genocídio, os alunos do Professor Xavier (que foi raptado) são obrigados a estabelecer uma aliança com Magneto e Mística enquanto tentam descobrir quais são os planos de seus novos adversários. Com isso, o espectador é colocado na surpreendente posição de se ver `torcendo` por aqueles mesmos personagens que, em X-Men, haviam assumido o papel de vilões.

No entanto, o roteiro não tenta ignorar o que ocorreu no capítulo anterior (erro freqüente em continuações) e, assim, estabelece um constante clima de tensão entre os aliados: afinal, como Vampira poderia simplesmente se esquecer de que Magneto tentou matá-la tempos atrás? Da mesma forma, o mutante interpretado por Ian McKellen não se esquece de seus próprios princípios, e, ao conversar com o jovem Pyro, pergunta qual é o verdadeiro nome do rapaz, numa mensagem clara para que este jamais renegue a própria natureza mutante. Além disso, as motivações do vilão vivido por Brian Cox não são megalomaníacas como as de Charada ou Pingüim, por exemplo: o General Stryker não quer `conquistar o mundo` ou algo no gênero, possuindo razões muito mais pessoais (que não pretendo revelar) para suas ações.

Mas X-Men 2 não se esquece de rechear sua narrativa com seqüências de ação intensas: já na abertura do filme, somos apresentados a um novo mutante que se move de maneira espetacular e que derruba inúmeros adversários sem muita dificuldade. Aliás, assim como no original, os poderes dos mutantes são fascinantes e jamais são utilizados de forma gratuita – e suas conseqüências não são ignoradas: portanto, a jovem Vampira continua sem poder demonstrar seu afeto por seus amigos, já que seu toque pode ser mortal; e Jean Grey enfrenta uma crise pessoal que culmina em um momento particularmente tocante. E mais: com o objetivo de acrescentar pequenos toques cômicos à narrativa, alguns mutantes utilizam seus poderes como ferramentas práticas do cotidiano, como no instante em que o Homem-de-Gelo resfria uma garrafa de refrigerante para Wolverine.

E, por falar no herói vivido por Hugh Jackman, vale dizer que este mais uma vez assume a posição de personagem central da trama, protagonizando boa parte dos melhores momentos do filme. Porém, desta vez também somos apresentados a um mutante cuja natureza é bastante interessante: apesar de possuir uma aparência demoníaca, Noturno é um indivíduo profundamente religioso que procura rezar sempre que se encontra em crise. Seu visual, capaz de assustar até mesmo outros mutantes, faz um curioso contraponto à sua voz calma e gentil – e é este tipo de complexidade que leva o universo dos X-Men a ser tão instigante.

Como se não bastasse, o roteiro (escrito por Michael Dougherty, Daniel P. Harris e pelo diretor Bryan Singer) costura os diversos elementos da trama de forma ágil e inteligente, criando pequenos momentos de puro brilhantismo (a forma encontrada para tirar Magneto de sua prisão é sensacional). Fornecendo pequenas pistas para a trama de X-Men 3, o filme comprova seu potencial para se transformar em `saga` – algo que Singer compreende muito bem (tanto como roteirista quanto como cineasta). Para completar, a trilha sonora desta continuação é bastante superior àquela do original, provando que John Ottman é mesmo o colaborador ideal de Bryan Singer (que foi obrigado a trabalhar com o fraco Michael Kamen em X-Men).

Contando com ótimos efeitos visuais e ambientado em um universo que certamente ainda pode ser fartamente explorado, X-Men 2 é um filme atípico para a mentalidade tradicionalmente unidimensional de Hollywood. Quando o amargurado Noturno pergunta para Mística o porquê desta não usar seus poderes para apresentar uma aparência sempre semelhante à dos humanos, a moça responde: `Porque não deveríamos ter que fazer isso` – uma resposta inteligente, ponderada e sensível.

A diferença, aqui, é que ela é uma das vilãs.

1o. de Maio de 2003

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.