Críticas por Pablo Villaça

Poster: Chicago
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
07/03/2003 27/12/2002
Distribuidora

 

 


Chicago
Chicago

Chicago

Dirigido por Rob Marshall. Com: Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones, Richard Gere, Queen Latifah, John C. Reilly, Taye Diggs, Lucy Liu, Christine Baranski e Colm Feore.

`Quem disse que matar não é uma arte?`, pergunta alguém, em certo momento de Chicago. De fato, a obsessão da mídia por crimes e violência - e seus praticantes - sempre foi uma característica inquietante, apesar de óbvia (sangue vende jornais). Da mesma forma, os grandes `astros` do crime (como David Berkowitz, Leonardo Pareja e O.J. Simpson) logo descobrem que a fama obtida graças aos seus atos é incrivelmente efêmera: assim que um novo escândalo surge, o anterior é prontamente esquecido.

Foi pensando nestes elementos que o lendário diretor e coreógrafo Bob Fosse realizou, em 1975, o musical Chicago, que se tornou um dos maiores sucessos da história da Broadway. Baseado em fatos reais (o julgamento de duas mulheres acusadas de assassinato, em 1924), o espetáculo – e esta sua versão cinematográfica – gira em torno de Roxie Hart (Zellweger), uma ex-corista que sonha em ser uma grande estrela dos palcos, alcançando um sucesso semelhante ao de seu ídolo, a bela Velma Kelly (Zeta-Jones). No entanto, ao descobrir ter sido enganada por seu amante, que prometia lhe abrir as portas no mundo do showbiz, Roxie mata o sujeito e é enviada para a prisão – onde também se encontra Velma, que havia assassinado a irmã e o marido. É então que entra em cena o advogado Billy Flynn (Gere), cuja principal estratégia para defender as garotas reside em colocá-las nas capas de todos os principais jornais da cidade.

Sendo um musical, no entanto, Chicago obviamente inclui diversos números de canto e dança – números estes que são introduzidos como fragmentos da imaginação de Roxie, que converte a realidade ao seu redor em quadros musicais. Com isso, as personagens de Catherine Zeta-Jones e Renée Zellweger (um par de fazer inveja à dupla formada por Jane Russell e Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras) passam a disputar a atenção do público tanto no mundo `real` quanto nas fantasias desta última.

Dona de uma forma física invejável e relembrando seus tempos de dançarina profissional, Zeta-Jones é, sem dúvida, o grande trunfo do filme: com uma voz sedutoramente rouca e com movimentos elegantes e precisos, a atriz demonstra possuir uma presença que nada deixa a desejar com relação aos grandes astros do gênero musical. Por outro lado, Zellweger, apesar de funcionar muito bem nas cenas que não exigem que sua personagem dance ou cante, jamais se destaca quando Roxie assume a posição de vedete, já que, nestes momentos, suas limitações técnicas se tornam visíveis. Evidentemente, há quem alegue que esta limitação da atriz é mais do que apropriada, já que Roxie também é uma dançarina medíocre – argumento do qual discordo, já que a maior parte dos números musicais acontece na imaginação da garota (e jamais ouvi falar de alguém que, em suas próprias fantasias, se retratasse de forma ordinária). Ainda assim, Zellweger merece crédito por assumir com competência uma personagem bastante diferente de seu tipo habitual: ao contrário de criações simpáticas como Bridget Jones ou as mocinhas de Jerry Maguire e Enfermeira Betty, Roxie Hart é uma mulher maliciosa e até mesmo cruel.

Outro que sai prejudicado em função de suas escassas habilidades como cantor e dançarino é Richard Gere (observe, por exemplo, a maneira com que ele desperdiça um número de sapateado) – que, apesar disso, também funciona bem nas cenas em que seu personagem não age como protagonista de um musical. Billy Flynn é, aliás, uma figura bastante interessante, já que entende perfeitamente a importância da mídia em sua profissão, explorando com inteligência a sede dos jornalistas por escândalos. O advogado sabe que, no fundo, todo julgamento é um espetáculo – algo que ele confessa, acidentalmente, ao interrogar sua cliente: `Pode dizer à platéia... ao júri o que aconteceu em seguida?` (detalhe: a legenda em português não traduz o ato falho, o que é lamentável). Fechando o elenco com talento e competência, vêm John C. Reilly (um de meus atores favoritos, e que merecia já ter sido reconhecido graças às suas atuações em Boogie Nights e Magnólia, entre outros) como o marido de Roxie Hart, e Queen Latifah como a diretora da penitenciária.

Tecnicamente perfeito, Chicago conta com uma belíssima direção de arte, com figurinos luxuosos e adequados aos vários números musicais e com uma fotografia que realça com propriedade o glamour da produção. Da mesma forma, a edição de Martin Walsh é hábil ao intercalar realidade e fantasia, conferindo dinamismo à história roteirizada por Bill Condon. É uma pena, portanto, que o diretor Rob Marshall não aproveite com maior eficiência o talento de seus colaboradores: estreando no cinema depois de uma bem-sucedida carreira na Broadway, Marshall jamais explora o potencial da história, já que elabora os números musicais (ele também é o coreógrafo da produção) como se estivesse dirigindo um espetáculo teatral, e não um filme. Assim, apesar das boas idéias por trás de cada quadro (como aquele em que vemos Richard Gere manipulando a mídia), Chicago só faz o espectador perder o fôlego em poucas ocasiões, o que é lamentável.

O fato é que Rob Marshall acaba sendo vítima do velho problema da `quarta parede` – aquela que, hipoteticamente, deveria separar o público daquilo que acontece na tela. Obviamente influenciado por sua própria experiência nos palcos, o cineasta não permite que a câmera mergulhe nos números musicais, deixando apenas que ela observe, da `platéia`, o desempenho dos atores. Caso tivesse aproveitado melhor os recursos cinematográficos à sua disposição (algo que Baz Luhrmann fez com grande competência em Moulin Rouge), Marshall poderia ter transformado Chicago em um filme absolutamente arrebatador, o que não é o caso.

Para piorar, alguns momentos de Chicago soam constrangedoramente familiares: a seqüência que retrata o enforcamento de uma personagem, por exemplo, é bastante parecida com aquela em que vemos Björk caminhando rumo ao cadafalso, no excelente Dançando no Escuro (outro musical que depende das fantasias da protagonista para funcionar). Em ambos os casos, a execução é retratada de forma alegórica, o que não deixa de ser curioso.

Vários críticos têm afirmado que Chicago é o responsável pelo `renascimento dos musicais`, o que é um tremendo absurdo. O que estas pessoas parecem fazer questão de ignorar é que este caminho foi reaberto justamente por Dançando no Escuro e Moulin Rouge, dois filmes que, além de brilharem enquanto exemplares do gênero, ainda conseguem fazer com que o espectador se envolva emocionalmente com seus protagonistas – aspecto no qual Chicago falha indubitavelmente, já que jamais nos identificamos realmente com Roxie, Velma ou Billy. Além disso, Moulin Rouge não apenas resgatou o musical, como também contribuiu para a reinvenção do gênero, adaptando-o para os tempos modernos ao explorar os recentes recursos disponibilizados pela mídia cinematográfica.

Neste sentido, Chicago pode até ser um filme divertido e cativante (como é), mas acaba representando um passo que vai na direção contrária à evolução dos musicais.
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9 de Março de 2003

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.