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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
22/07/2005 15/07/2005 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Duração do filme
115 minuto(s)

A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005)
Charlie and the Chocolate Factory

Dirigido por Tim Burton. Com: Johnny Depp, David Kelly, Deep Roy, Freddie Highmore, James Fox, Missi Pyle, Helena Bonham Carter, Noah Taylor, Adam Godley, Annasophia Robb, Julia Winter, Jordan Fry, Philip Wiegratz, Blair Dunlop, Christopher Lee.

Por mais que seja fã da versão original de A Fantástica Fábrica de Chocolates, dirigida por Mel Stuart em 1971 (e confesso que amo aquele filme), não há como negar que a grandiosidade da fábrica construída pelo amalucado Willy Wonka só poderia ser retratada com justiça absoluta nas telonas com a ajuda indispensável dos efeitos digitais mais recentes. O belíssimo trabalho de direção de arte feito há 34 anos foi competente, sem dúvida alguma, mas não pode competir com a mágica criada pelos poderosos computadores modernos – e, para constatar este fato, basta observar os créditos iniciais desta nova versão, que acompanham uma das linhas de produção dos chocolates Wonka.

Visualmente, a refilmagem comandada por Tim Burton representa um espetáculo impressionante: além dos efeitos digitais utilizados para ilustrar o universo concebido pelo escritor Roald Dahl (como, por exemplo, os inteligentes esquilinhos que descascam nozes), a equipe do designer de produção Alex McDowell faz um trabalho absolutamente fabuloso - do magnífico jardim comestível (com sua cascata de chocolate) à humilde casa da família Bucket (fortemente influenciada pelo expressionismo), os cenários são fenomenais. Além disso, ao incluir trechos do livro de Dahl que haviam sido deixados de fora do filme de 71, Burton ganha a oportunidade de expandir o mundo fantasioso de Wonka, merecendo destaque a seqüência que acompanha a construção de um imenso palácio feito inteiramente de chocolate. Por outro lado, as referências vazias a Psicose, 2001 – Uma Odisséia no Espaço e Edward Mãos-de-Tesoura provocam efeito contrário, lembrando o espectador de que, afinal de contas, aquele universo não passa de pura invenção cinematográfica, o que quase o torna mundano.

Comprovando a inteligência e a relevância do texto original, que se mantém atual mais de 40 anos depois de publicado, esta refilmagem de A Fantástica Fábrica de Chocolates resgata os mesmos arquétipos apresentados por Roald Dahl em seu livro: há o guloso Augustus Gloop, cuja auto-indulgência alimentar é incentivada pelos pais; o alienado Mike Teavee, que vive em função de videogames e computadores (substitutos óbvios da televisão; a competitiva Violet Beauregarde, que encarna o espírito perniciosamente pragmático norte-americano, com sua filosofia do `vencer a qualquer preço`; e, finalmente, a mimada Veruca Salt, habituada a conseguir tudo aquilo que deseja. Estas características lamentáveis são comentadas, como antes, através das canções interpretadas pelos pequenos Oompa Loompas, funcionários da fábrica de Willy Wonka – mas, ainda que as melodias compostas por Danny Elfman sejam divertidas, jamais conseguem ser tão contundentes e marcantes quanto aquelas do filme de Stuart.

E já que mencionei os Oompa Loompas, vale dizer que, desta vez, eles ganham mais destaque na história, graças ao flashback que revela suas origens e também à performance sensacional de Deep Roy, que interpreta todos os nativos da Loompalândia. Outro que merece elogios é o jovem Freddie Highmore, que cria um Charlie Bucket infinitamente mais carismático do que aquele vivido pelo péssimo Peter Ostrum na produção original: enquanto Ostrum claramente se esforçava ao máximo para transformar o protagonista em um `coitadinho`, Highmore vive Charlie como uma criança bondosa, mas comum, o que confere verdade à sua atuação. Enquanto isso, Johnny Depp comprova mais uma vez sua versatilidade admirável ao compor um personagem totalmente diferente de suas criações anteriores. Sem o menor receio de se arriscar, o ator emprega caretas e trejeitos para ilustrar a excentricidade de Willy Wonka, um sujeito que, depois de anos de reclusão, perdeu claramente a capacidade de comunicar-se com outras pessoas. Não ficarei espantado caso Depp seja mais uma vez indicado a vários prêmios por seu trabalho aqui.

Curiosamente, apesar do excepcional desempenho de Johnny Depp, é inevitável reconhecer que o principal problema deste novo A Fantástica Fábrica de Chocolates diz respeito justamente ao seu personagem. Frio e até mesmo cruel, o `novo` Willy Wonka é um homem cujos maneirismos podem até ser divertidos, mas que é obviamente uma pessoa de caráter corrompido – e seu ódio por crianças é algo que fica patente ao longo da projeção. Ora, como uma pessoa assim pode conquistar a simpatia e o respeito do espectador? Sim, o Wonka concebido por Gene Wilder em 71 podia se mostrar cínico e certamente desprezava as falhas de caráter de Augustus, Veruca, Violet e Mike – mas é inegável que ele gostava de crianças e sabia demonstrar seu carinho por elas. O Wonka de Wilder era essencialmente bondoso, caridoso; já o de Depp é um homem egoísta e frio.

Outro grave problema do roteiro de John August reside na abordagem do passado de Willy Wonka, que enfoca o relacionamento entre este e seu pai (vivido pelo sempre intenso Christopher Lee). Ainda que abordar as origens do personagem seja uma boa idéia, o tratamento de August é excessivamente simplista e maniqueísta, buscando solucionar os dilemas psicológicos do chocolateiro de maneira frágil e inverossímil. Como se não bastasse, o roteirista comete um erro ainda mais grave ao sugerir que o passeio à fábrica organizado por Wonka foi cuidadosamente planejado para provocar o fracasso de crianças específicas, como se este houvesse determinado previamente a `vitória` de Charlie. Ora, além de tirar os méritos do garoto, esta abordagem elimina totalmente o propósito do concurso organizado por Willy Wonka, já que, em vez de teste de caráter, a excursão se transforma em mera desculpa para que ele possa `punir` as quatro crianças.

Finalmente, vale dizer que até mesmo o amor de Wonka por chocolate era mais visível em 71, já que ele estava constantemente saboreando seus produtos – algo que praticamente não acontece aqui. E se o `original` evidenciava sua vasta cultura ao citar com freqüência autores como Shakespeare, Oscar Wilde e John Keats, o `novo` chocolateiro raramente diz algo de memorável. Johnny Depp faz um trabalho genial, é verdade, mas, caso pudesse escolher, eu certamente optaria por conhecer o gentil Willy Wonka de Gene Wilder, e não este monstro egocêntrico do (sim, divertido) filme de Tim Burton.
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21 de Julho de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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