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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
27/05/2016 19/10/2016 2 / 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
105 minuto(s)

Personal Shopper
Personal Shopper

Dirigido e roteirizado por Olivier Assayas. Com: Kristen Stewart, Lars Eidinger, Anders Danielsen Le, Nora von Waldstätten, Benjamin Biolay, David Bowles, Benoit Peverelli.

No excelente Acima das Nuvens, longa anterior do diretor francês Olivier Assayas, Kristen Stewart interpretava a assistente pessoal de uma atriz vivida por Juliette Binoche e com a qual discutia questões pessoais e artísticas de maneira interessante e intrigante – até que, num toque de realismo fantástico, determinado incidente surpreendia Binoche e o espectador, provocando interpretações e reflexões ainda maiores. Pois em Personal Shopper, Assayas claramente tenta reproduzir um pouco do sucesso daquele filme, conseguindo repetir apenas o elemento fantástico e a ótima performance de Stewart, já que o restante é uma bobagem tola e vazia.


Escrito pelo realizador, o roteiro segue Maureen (Stewart), que trabalha como assistente de uma celebridade (Waldstätten), sendo encarregada de fazer suas compras pessoais de roupas e joias. Ainda enlutada pelo falecimento súbito de seu irmão gêmeo, a garota, que se diz médium embora não acredite em vida após a morte, insiste em morar em Paris a fim de esperar algum sinal do espírito do rapaz. Para isso, ela passa algumas noites em uma casa que pertencia a ele, onde se depara com o espectro de uma mulher. Para completar, acompanhamos também a cunhada de Maureen e as interações entre esta e uma pessoa anônima que lhe envia repetidas mensagens de texto, aluga quartos em seu nome e acaba cometendo um crime que pode colocá-la sob suspeita.

Se ao ler o parágrafo acima você teve a impressão de que Personal Shopper concebe uma trama elaborada, repleta de incidentes, se enganou: na maior parte do tempo, o filme enfoca a personagem-título enquanto escolhe roupas, anda de moto pela cidade, assiste a vídeos sobre artistas que acreditavam em espíritos, conversa com o namorado pelo Skype e diz frases como “Ela vomitou o ectoplasma, que flutuou por algum tempo até sumir”. Ah, sim: e troca mensagens e mais mensagens pelo celular.

Aliás, um título bem mais apropriado para este projeto seria Persistent Texter, já que Maureen, ao receber as SMS de um estranho, logo passa a respondê-las, intrigada, ainda que elas não tragam absolutamente nada de interessante – e eu, em seu lugar, logo responderia “Pessoa, você é chata demais. Block.”. Ainda assim, entendo que Assayas procure usar o recurso quase como um substituto dos pensamentos em off, mas não há como contornar o fato de que filmar a tela de um celular por longas passagens é algo pouco cinematográfico (mesmo que ele mantenha Stewart trocando de ambientes frequentemente para evitar um tédio ainda maior).

E este é só um dos muitos pecados do roteiro, já que o tal crime, que supostamente deveria provocar grande impacto, é logo deixado de lado numa revelação óbvia e anticlimática, devolvendo o público à punição de ter que ficar seguindo Maureen em seu cotidiano chatíssimo.

Curiosamente, Personal Shopper é um filme bem melhor quando Assayas brinca de diretor de filme de terror – algo que faz com competência surpreendente: as sequências envolvendo espíritos são assustadoras (e, para mim, ele cria o fantasma mais apavorante desde A Espinha do Diabo), a investigação da heroína pelo casarão escurecido é tensa e o momento no qual a moça recebe uma sequência de mensagens acumuladas indicando a aproximação de uma ameaça é angustiante.

Fora isso, porém, o longa aparenta estar em busca de uma história para contar – e esta ausência de propósito é algo que nem mesmo a entrega de Kristen Stewart ao papel pode contornar, o que é um desperdício de seu talento cada vez maior.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

18 de Maio de 2016

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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