Dirigido por Paul Verhoeven. Roteiro de David Birke. Com: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Judith Magre, Christian Berkel, Jonas Bloquet, Virginie Efira, Vimala Pons, Raphaël Lenglet.
Elle, novo longa de Paul Verhoeven, é um filme curioso: seguindo as convenções de um thriller, gira em torno de Michèle (Huppert), uma mulher sob ameaça que olha para todos que a cercam com a desconfiança de que podem estar prestes a atacá-la. E, no entanto, por mais que ela seja uma vítima inquestionável de violência, ao longo da projeção temos a sensação de que representa um perigo maior para seus adversários do que o contrário.
Baseado em um livro de Philippe Djian e roteirizado por David Birke, o longa já tem início com os gritos da protagonista ao ser atacada e estuprada em sua casa – um crime repugnante que Verhoeven retrata sem qualquer fetichismo (infelizmente recorrente em narrativas do tipo). No entanto, depois que o agressor parte, Michelle assume uma postura surpreendente: em vez de chamar a polícia ou mesmo algum amigo, ela apenas arruma a bagunça causada pelo bandido, cata os cacos de vidro espalhados pelo chão, toma um banho e vai trabalhar. Assim, de imediato já percebemos que há muitos elementos que desconhecemos sobre a personagem, o que posiciona a narrativa não só como um mistério acerca da identidade do estuprador, mas como uma investigação acerca da personalidade de sua vítima.
Sócia de uma produtora bem-sucedida de games, Michelle adota atitudes que a transformam quase num daqueles vilões de telenovela que acabam sendo assassinados, parecendo fazer questão de fazer inimigos: humilha o filho em público (ele realmente é um imbecil), ofende a nora, tem um caso com o marido da melhor amiga, provoca a mãe e o noivo (gigolô) desta e seduz o vizinho casado. Ao mesmo tempo, ela é vivida por Isabelle Huppert com tanto charme e bom humor que, de certa maneira, as gravidades de seus atos são relativizadas pelo espectador, que vê até com simpatia alguns deles.
A performance de Huppert, aliás, é uma lição de sutileza: reconhecendo que as ações de sua personagem falam por si mesmas, a atriz jamais busca ressaltá-las, agindo como se fossem simplesmente inevitáveis. Ao mesmo tempo, às vezes basta um olhar de lado ou um sorriso quase imperceptível para que percebamos o calculismo por trás de determinadas decisões que pareciam inofensivas, como convidar a namorada do ex-marido para um jantar ou tocar o braço do vizinho.
Enquanto isso, Verhoeven exibe um domínio notável sobre o tom da narrativa, deixando o espectador desconfortável mesmo que este não saiba exatamente o motivo. Em alguns pontos, a sugestão é visual (como o sangue que lentamente mancha a espuma na banheira); em outras, sonoras (como a força da ventania que empurra as janelas da casa de Michelle) – e o cineasta chega mesmo a se divertir com certas convenções (como ao trazer um gato saltando sobre a anti-heroína). Além disso, é curioso constatar como, num jantar aparentemente amigável, a protagonista usa um vestido de um vermelho intenso, que entrega o subtexto de seus objetivos nada amistosos, fazendo par com um único convidado que também veste a cor por razões próprias.
Fazendo eco à personagem de Sharon Stone em Instinto Selvagem (que Verhoeven dirigiu há quase 25 anos), Michelle é uma mulher de desejos fortes e que não tenta podar seus impulsos. Aliás, gradualmente notamos como há até mesmo um componente de masoquismo em sua reação ao estupro, que parece excitá-la de alguma maneira.
(E aqui é preciso observar que todos os responsáveis por Elle são homens e que, portanto, há uma questão problemática envolvendo – aí, sim – certos fetiches masculinos acerca do estupro e que o longa obviamente tenta contornar ao apontar de forma aparentemente crítica a forma com que a violência contra a mulher é explorada pela Arte – no caso, os games produzidos por Michelle. É possível interpretar esta tentativa como um ato de cinismo, como um mea culpa antecipado ou mesmo como uma crítica genuína, dependendo da visão particular de cada espectador – e numa época em que a cultura do estupro vem sendo cada vez mais discutida, a obra acaba se posicionando como uma possível e instigante iniciadora de debates acerca do tema.)
Ambíguo até o último segundo, Elle é um filme de gênero com ambições de estudo psicológico. E se falha neste último, é muito bem sucedido no primeiro.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.
22 de Maio de 2016

Um filme de gênero com ambições de estudo psicológico.