Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Tartaruga Vermelha
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
21/06/2016 29/06/2016
Distribuidora

 

 


A Tartaruga Vermelha
Le tortue rouge

A Tartaruga Vermelha

Dirigido por Michael Dudok de Wit. Roteiro de Michael Dudok de Wit e Pascale Ferran.

A Tartaruga Vermelha, único longa de animação exibido nas mostras oficiais do Festival de Cannes de 2016, é uma pequena obra-prima que reconhece a capacidade que o Cinema tem de explorar temas e histórias complexas apenas através das imagens. Escrita por Pascale Ferran e pelo animador Michael Dudok de Wit, que aqui estreia como diretor de longas-metragens, este filme magistral é uma fábula que usa a trajetória particular de um personagem para fazer um delicado ensaio sobre a transitoriedade da vida e do peso desproporcional que muitas vezes conferimos ao que não é essencial.

Coproduzida pelo lendário estúdio Ghibli de Hayao Miyazaki, a animação já tem início enfocando o protagonista - cujo nome jamais é revelado (eu o chamarei de Homem) – se debatendo em alto-mar durante uma tempestade. Levado pelas ondas até uma ilha despovoada, ele constrói uma jangada de bambu para tentar retornar à civilização, sendo frustrado em suas repetidas tentativas por uma imensa tartaruga vermelha que insiste em destruir a balsa. Enraivecido diante das ações do animal, o sujeito se vinga num impulso raivoso, atacando-o e aparentemente provocando sua morte – e o “aparentemente” se deve ao fato de a tartaruga se transformar misteriosamente em uma garota de longos cabelos ruivos (que chamarei de Mulher).

Sem se preocupar em explicitar quem é o Homem e como naufragou ou em esclarecer a natureza mágica da Mulher, A Tartaruga Vermelha simplesmente aceita como fato a situação do primeiro e a magia da segunda, partindo destes para o que realmente lhe interessa: uma investigação sobre nossa necessidade de contato e amor e sobre como esta determina a percepção que temos do mundo, do tempo e da vida. Se a princípio o Homem age com autêntico desespero para deixar a ilha, o encontro de uma companheira apazigua esta urgência ao preencher um espaço essencial em sua realidade – e não é coincidência que esta parceira esteja associada à cor que naturalmente ligamos a paixões intensas, ao desejo e ao amor.

Descartando totalmente os diálogos (ouvimos apenas gritos e ocasionais “Ei!”), o filme comunica um mundo através de seu design de produção e da qualidade irretocável de sua animação: a sequência que traz o personagem principal vasculhando a ilha, por exemplo, é um espetáculo de cores, cenários e movimentos, sendo complementada perfeitamente pelo igualmente brilhante design sonoro, que usa os ruídos como um elemento estrutural essencial da narrativa.

Da mesma forma, a economia do diretor ao ilustrar a aproximação sentimental do casal é de uma elegância ímpar, usando para isso apenas as pegadas deixadas por eles na areia e que aos poucos convergem rumo a um abraço. Enquanto isso, a passagem do tempo é apresentada ao espectador não apenas através da introdução de novos personagens ou mudanças na aparência destes, mas também de transições inspiradas como aquela que substitui o Homem deitado na praia por um plano geral da ilha, cuja topografia faz uma rima com a da posição do corpo do náufrago. Para completar, a magnífica trilha composta por Laurent Perez, digna de indicação a todos os prêmios da área, evoca todo tipo de sentimento, da solidão à catarse.

Já a animação, como não poderia deixar de ser em qualquer projeto que carregue o nome “Ghibli”, impressiona pelos detalhes: em certo instante, por exemplo, a Mulher começa a desenhar uma tartaruga na areia e, depois de fazer alguns traços, apaga-os e reinicia a ilustração ao perceber ter errado. São cuidados como este que provocam nosso mergulho num filme animado: o desequilíbrio momentâneo de um personagem ao se levantar rapidamente, o impulso que toma para saltar sobre um buraco, a hesitação ao iniciar uma corrida – e é impossível não ficar embevecido diante da fluidez com que os longos cabelos da Mulher se movimentam sob a água, reagindo à correnteza e ao deslocamento de seus membros.

Encantando o espectador com sua história de amor e emocionando-o com a trajetória temporal de seus amantes, A Tartaruga Vermelha é um filme que provoca lágrimas com sua doçura e com o profundo afeto que evoca.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

19 de Maio de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.