Dirigido por Sean Penn. Roteiro de Erin Dignam. Com: Charlize Theron, Javier Bardem, Jean Reno, Adèle Exarchopoulos, Jared Harris, Oscar Best, Hopper Penn, Sibongile Mlambo.
Sean Penn é um ótimo diretor. Responsável por dois filmes excelentes (Na Natureza Selvagem e Acerto Final) e um que considero uma pequena obra-prima (A Promessa), ele é um cineasta com bom olhar para o desenvolvimento de personagens e seus conflitos, além de, como ator, se concentrar particularmente em seu elenco. Aliás, este é um dos problemas de The Last Face, seu novo trabalho: retornar continuamente aos dramas pessoais de seu casal principal quando deveria manter o foco no contexto trágico em que vivem.
Escrito por Erin Dignam, o longa dá um tropeço grave já em seus primeiros segundos, quase não conseguindo se recuperar, ao incluir um letreiro que, depois de explicar a situação básica dos conflitos no Sudão do Sul e na Libéria (o que faz sentido), emenda uma cafonice pavorosa ao dizer que falará da “brutalidade de um amor impossível entre um homem e uma mulher” – no caso, os médicos Wren (Theron) e Miguel (Bardem), envolvidos com uma organização similar ao Médico Sem Fronteiras (ela, como integrante da diretoria; ele, atuando diretamente com os refugiados). Tornando-se próximos quando ela viaja para uma das bases do grupo, eles se apaix...
Aí. Bem aí. Este é o problema: quem se importa com os problemas românticos de um casal de brancos privilegiados quando milhares e milhares de crianças negras estão sendo massacradas em guerras civis brutais? Não é fácil sentir pena das agruras emocionais da protagonista quando acabamos de ver uma mãe desesperada tentando colocar seu bebê num helicóptero que está partindo, abrindo mão de ficar com o filho por saber que ele provavelmente será executado se permanecer ali e terá seu seu coração devorado por guerrilheiros que acreditam que isto os tornará invisíveis durante os combates.
O curioso é que Penn sabe que as questões não se comparam, já que exibe um cuidado imenso ao retratar o verdadeiro genocídio que ocorre naqueles países, jamais poupando o espectador por reconhecer o valor do choque no processo de conscientização humanitária. Assim, The Last Face não só é tenso em suas sequências de violência (incluindo uma cena incrivelmente tensa envolvendo pai e filho) como tenta atingir um forte grau de realismo – e, por esta razão, não é uma daquelas produções hollywoodianas nas quais as crianças estão sempre imunes a qualquer desastre.
Já o romance... ah, o romance. Embaraçoso em vários de seus diálogos (“It’s not grabbing, it’s loving.”), ele se revela ainda mais problemático graças à performance de Charlize Theron, que oferece uma composição monótona que a traz sempre sussurrando em tom sofrido e com os olhos constantemente marejados. Em contrapartida, é interessante notar a dicotomia básica da protagonista, que dedica a vida à ajuda humanitária aos refugiados, mas não consegue trabalhar in loco por sentir medo da violência e por ter dificuldade para lidar com a brutalidade que testemunha. Enquanto isso, Javier Bardem confere dignidade e coragem a Miguel, saindo-se bem melhor no equilíbrio entre os elementos pessoais e profissionais do personagem – e aprecio especialmente o riso que ele dá ao voltar para seu hotel, no conforto de uma capital europeia, e abrir o chuveiro, sugerindo não só o prazer de poder tomar um banho decente como o reconhecimento do absurdo contido no fato de o chuveiro quente ser um “luxo” que os refugiados não têm.
Divididos pelo reconhecimento de que jamais farão diferença no grande esquema das coisas, mas sabendo que alteram radicalmente a vida daqueles que ajudam, Wren e Miguel são muito mais eficazes dramaticamente quando se debatem sobre dilemas como este do que quando sofrem por amor. E capazes de alterar o mundo ou não, ao menos representam bem tantos médicos que dedicam suas vidas no mínimo à tentativa de melhorar a sociedade, contrapondo-se a tantos outros que parecem mais interessados em defender seus interesses corporativos do que em honrar o juramento que prestaram ao se formar naquela que, quando exercida com humanidade, é a mais bela das profissões.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.
21 de Maio de 2016

Retorna continuamente aos dramas pessoais de seu casal principal quando deveria manter o foco no contexto trágico em que vivem.