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O Apartamento

★★★☆☆3/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Asghar Farhadi. Com: Shahab Hosseini, Taraneh Alidoosti, Babak Karimi, Mina Sadati.

O Cinema do iraniano Asghar Farhadi é um dos mais humanos da atualidade – algo que qualquer um que tenha visto Beautiful City, Fireworks Wednesday, À Procura de Elly, A Separação e O Passado pode confirmar. Seus filmes frequentemente giram em torno de pessoas comuns que se envolvem em pequenos desentendimentos que acabam se complicando de forma inesperada, levando o espectador a se enxergar naquelas situações e naqueles personagens.

Mas não são apenas as situações que provocam esta identificação no público, mas também pequenos gestos e comportamentos: alguém que passa na padaria antes de ir para casa, um outro que se distrai no meio de uma conversa ou um terceiro que perde o fôlego ao subir uma escadaria. Aqui, estas pessoas estão ligadas a uma montagem da peça A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, e que traz o ator e professor de Literatura Emad (Hosseini) no papel de Willy Lomax e contracenando com sua jovem esposa Rana (Alidoosti). Quando o prédio no qual o casal mora começa a dar sinais de fragilidade na estrutura, eles são obrigados a se mudar rapidamente, aceitando o apartamento de um colega de elenco que antes tinha sido ocupado por uma prostituta – e, certa noite, um dos clientes desta acaba agredindo Rana e lançando seu marido numa busca obsessiva pela identidade do sujeito.

Como é costume na obra de Farhadi, a trama principal de The Salesman é apenas um fio condutor da narrativa, que segue diversas tangentes enquanto comenta elementos da sociedade e da cultura iranianas e as questões particulares (mas universais) dos personagens. Assim, embora a peça de Miller seja apenas um recurso que dá estrutura à obra (à medida que a história avança, vemos pontos cada vez mais adiantados do espetáculo), o cineasta acaba empregando-a para comentar de passagem a censura religiosa no Irã ao enfocar alguém sendo incumbido de debater com os censores para evitar cortes no texto. Por outro lado, se há algum centro temático no longa, este reside na natureza predadora dos homens (gênero, não espécie) e que é abordado de forma recorrente durante a projeção.

Em certo momento, por exemplo, o protagonista pega um táxi coletivo e a mulher que está ao seu lado, incomodada, pede para trocar de lugar e passar para a frente do carro – e, em vez de se sentir ofendido, o sujeito pondera que ela provavelmente já passou por alguma situação constrangedora graças ao comportamento de algum homem no passado. Da mesma forma, depois da agressão, Rana treme ao ver qualquer estranho se aproximar, reforçando a ponderação do marido, que, por sua vez, mergulha num comportamento que beira o irracional e que a assusta ainda mais. (Transformações que a dupla central de atores evoca com imensa habilidade.)

Até aí, The Salesman faz jus à carreira de Asghar Farhadi: é envolvente, fluido, complexo e sensível. Infelizmente, ao chegar ao terceiro ato, o diretor se entrega a algo que seus filmes sempre evitaram: o maniqueísmo. Seu propósito é nobre e adulto: apontar que reduzir o agressor de Rana a um estereótipo monstruoso é uma visão tola e que, pior, pode fazer com que acreditemos que apenas indivíduos naturalmente cruéis são capazes de agir destrutivamente. O problema - e, aqui, tentarei ser o mais genérico possível quanto à trama para evitar spoilers – é que Farhadi exagera ao suavizar o responsável pelo ataque para que enxerguemos sua humanidade, tornando-o adorado demais pela família, excessivamente vulnerável diante de Emad e, o mais grave, frágil demais para que acreditemos que seria capaz de provocar tantos ferimentos em Rana. Tornando tudo pior, o que ocorre depois do confronto em si beira o melodramático – outra coisa que o iraniano evitava com talento.

Mas um Asghar Farhadi menor ainda é um Asghar Farhadi. É o que basta.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

21 de Maio de 2016

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
3.0
★★★☆☆

Um Asghar Farhadi menor ainda é um Asghar Farhadi. É o que basta.

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Avaliações dos Usuários

LUCAS MAURO
LUCAS MAURO11 de jan. de 2017

Fala Pablo, excelente texto, como sempre, pensei que você fosse escrever sobre o paralelismo entre a trama principal e a obra referente do Miller. Também achei que você fosse falar do simbolismo contido na figura do apartamento em ruínas. Quanto ao terceiro ato concordo que poderia provocar a dubiedade com mais sutileza. Grande abraço!

João Luiz
João Luiz10 de jan. de 2017

Eu amei o final. Justamente por mostrar que o agressor pode ser qualquer um. Ele era amado pela familia que não fazia ideia do que ele fez e aparentemente frágil(concordo que seria estranho fazer tantos ferimentos, mas...)

João Vitor Moreno
João Vitor Moreno5 de jan. de 2017

Excelente texto como sempre, Pablo! Também sou fã do cinema do Farhadi. Só discordo um pouco quando você diz que o terceiro ato está tão abaixo assim do restante. Acho que tem sim seus problemas (se não estou enganado, em certo momento a esposa do personagem responsável pelo ataque chega a dizer "Este homem é tudo para mim!"- em um raro momento puramente expositivo na carreira do cineasta), mas gosto muito da intensidade gradual de toda a sequência, que me fez sair do cinema muito impactado, e até o "incidente melodramático" que você cita, por ter sido construído de maneira gradual, achei que funcionou bem, mesmo que não deixe de ser exagerado. É bacana também como o filme deixa algumas possibilidades para interpretações metafóricas: como o fato de os personagens morarem em um lugar, sofrerem um “abalo na estrutura”, mudarem para outro, mas que acaba sendo pior – pode funcionar como um comentário sobre o próprio Irã, antes e depois da revolução, não acha? Abraço!