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Sete Homens e um Destino

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por Antoine Fuqua. Roteiro de Nic Pizzolatto e Richard Wenk. Com: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Vincent D’Onofrio, Byung-hun Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Sensmeier, Haley Bennett, Luke Grimes, Matt Bomer, Cam Gigandet, Jonathan Joss e Peter Sarsgaard.

Quando Akira Kurosawa concebeu seu clássico Os Sete Samurais, talvez não imaginasse a natureza universal e duradoura da história que estava contando. Creditado por praticamente inventar a estrutura “equipe de anti-heróis contrastantes é montada para cumprir uma missão”, o longa de 1954 usava a jornada dos personagens-título para retratar o desejo de redenção e pertencimento nutrido por estes, advogando que, algumas vezes, sacrificar-se em prol do próximo poderia representar o feito capaz de definir a vida de uma pessoa. Assim, quando seis anos depois a obra ganhou uma refilmagem hollywoodiana, bastou ao diretor John Sturges substituir um ícone cultural por outro (cowboys no lugar de samurais) para que a produção ressoasse junto a um novo público.

Pois mais de meio século depois ainda há força nesta premissa: agora adaptada pelos roteiristas Nic Pizzolatto (True Detective) e Richard Wenk (16 Quadras, Os Mercenários 2), a nova versão de Sete Homens e um Destino mantém alguns diálogos e situações idênticos aos vistos nas anteriores, ganhando um novo contexto, porém, apenas ao “modernizá-los” através da diversificação de seu elenco, que substitui alguns dos sete homens brancos do filme de 1960 por integrantes de minorias. (É bom lembrar que, embora vivesse um mexicano chamado “Chico” naquele longa, Horst Buchholz era alemão.)

O Cinema, claro, tem esta propensão inata de refletir o mundo à sua volta – e não é à toa que, pela sexta vez em 22 anos de carreira*, sinto-me compelido a retornar a Eric Rohmer, que dizia que todo filme tende a funcionar como um documento de sua época. Sim, pode não ser historicamente correto trazer, numa narrativa ambientada no Velho Oeste, um grupo liderado por um pistoleiro negro e que inclui harmoniosamente um mexicano, um asiático e um índio (especialmente se considerarmos que ninguém ao redor parece notar ou comentar isso), mas a realidade nunca foi um bom critério para se avaliar a Arte – principalmente em um projeto cujo principal objetivo é entreter, não promover um reflexo acurado do oeste norte-americano no final do século 19. Assim, certamente é bem mais interessante (além de dramaticamente rico) investir em um elenco diversificado do que se restringir a variações dos velhos tipos que povoam mais de um século de westerns desde que O Grande Roubo do Trem inaugurou o gênero em 1903.

Aliás, a modernização de Sete Homens e um Destino não envolve somente seus (anti-)heróis, mas também seu vilão: se antes tínhamos um (brilhante) Eli Wallach refletindo os ressentimentos ainda recentes dos mexicanos para com os Estados Unidos (a batalha do Álamo e a anexação do Texas tinham pouco mais de cem anos), é apenas natural que o novo antagonista reverbere a frustração dos milhões de norte-americanos que perderam suas casas e suas economias no estouro da bolha imobiliária (e sua exploração pelos bancos) em 2008. Com isso, se os bandidos de Kurosawa e Sturges queriam tomar boa parte das colheitas de suas vítimas, agora o personagem de Peter Sarsgaard quer se apropriar de seus lares, pagando uma mixaria por tudo que construíram – e é divertido observar como o ator se entrega à vilania completa, não hesitando em abraçar a caricatura com seu cavanhaque, os cabelos pregados pelo óleo de pentear e os olhares ameaçadores de baixo para cima (e não, não tenho dúvidas de que a caricatura é intencional, já que de cara Bogue intimida uma criança, mata inocentes e põe fogo na igreja do vilarejo, faltando só chutar um cachorro e cuspir em um bebê ao sair de cena).

Ao longo de toda a projeção, por sinal, o diretor Antoine Fuqua deixa bastante claro que sua versão de Sete Homens e um Destino jamais se esquece de pertencer a um gênero, abraçando de forma quase metalinguística suas principais convenções. É claramente deliberada, por exemplo, a forma como o cineasta traz o protagonista entrando em um saloon (enfocando inicialmente suas botas e subindo para revelar seu rosto ao empurrar as portas de madeira vai-e-vem) ou pistoleiros girando suas armas antes de colocá-las de volta no coldre, sendo um ponto fora da curva, portanto, que a fraca trilha sonora de James Horner (sua última, infelizmente) não flerte com as gaitas e os assobios típicos das composições mais conhecidas do gênero (e quando o tema clássico de Elmer Berstein é ouvido durante os créditos finais, acaba servindo apenas para ressaltar como a música que veio antes era medíocre).

Ciente da importância de desenvolver de alguma forma seus personagens a fim de levar o público a se importar com seus destinos, esta refilmagem é inteligente ao encontrar espaço para incluir breves momentos nos quais praticamente todos ganham a chance de expor alguma inquietação/aspiração/fragilidade particular, deixando que o peso e os nomes de seus intérpretes preencham o restante das lacunas. Exibindo o carisma e a intensidade de hábito, Denzel Washington confere dignidade ao líder do grupo, enquanto Ethan Hawke (seu parceiro em Dia de Treinamento, também dirigido por Fuqua), com fortes e precoces linhas de expressão, projeta a exaustão emocional de um homem que passou sua vida tirando a dos outros. E se Chris Pratt encarna Faraday como um indivíduo cujo sorriso antes dos confrontos sugere um prazer niilista diante da batalha, Vincent D’Onofrio (praticamente completando a transformação em Orson Welles iniciada em Ed Wood) expõe sua natureza de character actor ao contrapor a imponência física de seu Jack Horne à voz frágil e ao olhar de quem já viu sangue demais. Para finalizar, Haley Bennett surge completamente diferente do que víramos em Hardcore: Missão Extrema, substituindo a postura de femme fatale pela de mulher estoica e surpreendentemente forte, ao passo que o sul-coreano Byung-hun Lee parece reviver o “cowboy” que interpretou no ótimo Os Invencíveis, incluindo até mesmo suas coreografias com as facas. (Já Manuel Garcia-Rulfo e Martin Sensmeier se veem mais limitados em seu tempo de tela menor, demonstrando que nem tudo mudou em Hollywood.)

Contando com uma sequência final que talvez seja a mais sangrenta de todas as versões, Sete Homens e um Destino pode não ter a densidade temática de Os Sete Samurais ou a aura icônica do filme de Sturges, mas é suficientemente eficaz em sua construção para não se envergonhar diante de seus antecessores. E isto, por si só, já é um feito considerável.

* As críticas que mencionavam a frase de Rohmer: Batman Begins, O Homem-Urso, Getúlio, RoboCop e Que Horas Ela Volta?.

20 de Setembro de 2016

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Confira também o videocast SEM spoilers sobre o filme:

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

Jamais se esquece de pertencer a um gênero, abraçando de forma quase metalinguística suas principais convenções.

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Avaliações dos Usuários

Henrique Xaxá
Henrique Xaxá4 de out. de 2016

Excelente! Aqui segue a minha. Abraços e bons filmes! "Sendo competente em sua proposta, Sete Homens e Um Destino (2016) é uma refilmagem muito divertida que faz merecidas referências ao longa de 1960 (de mesmo título) e apresenta temas modernos de forma eficiente. Em 1954, Akira Kurosawa criou o consagrado Os Sete Samurais. A história é tão inteligente e cativante que foi muito bem recebida pelo público (vindo a ser adaptada diversas vezes ao longo dos anos). Não demorou para chegar em Hollywood: Em 1960, John Sturges faria a consagrada versão norte americana do filme de Kurosawa adaptando o roteiro para a cultura dos Estados Unidos (substituindo samurais por cowboys). Em 2016 (56 anos depois), coube a Antoine Fuqua o desafio de dirigir a refilmagem do clássico faroeste de 1960: Sete Homens e Um Destino. O longa retrata um pequeno vilarejo, no velho oeste estadunidense, ameaçado por Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard) e seus capangas. Emma Cullen (Haley Bennett), tomada pelo sentimento de justiça, contrata os serviços de Chisolm (Denzel Washington), que, por sua vez, monta um grupo de sete pistoleiros para combater os vilões. Apesar da história ocorrer no final do século 19, a nova adaptação de Sete Homens e Um Destino conta com um contexto mais atualizado: se antes a motivação do antagonista mexicano era de saquear um vilarejo em busca de alimento, agora vemos um vilão extremamente capitalista que deseja desabrigar os moradores da vila (reflexo da recente crise imobiliária norte-americana). E se em 1960, tínhamos um grupo formado inteiramente por homens brancos, em 2016 nossos heróis (ou melhor: anti-heróis) são etnicamente diversificados. Criando diferenças consideráveis do filme de 1960 (e isso não é um defeito), o roteiro de Nic Pizzolatto (The Killing, True Detective) e Richard Wenk (Os Mercenários 2, O Protetor) destaca-se por promover a representatividade: uma personagem feminina de personalidade forte ganha grande importância na trama ao passo que um negro lidera um grupo composto por quatro americanos, um chinês, um mexicano e um índio. E é interessante notar como o grupo convive em harmonia, sem divergências étnica-culturais. O roteiro desenvolve uma história interessante e conecta bem os acontecimentos (mantendo a coerência), porém desliza em um momento e outro (como ao tentar justificar de forma rasa a motivação de alguns personagens). Com seu carisma invejável, Denzel Washington protagoniza o personagem negro conhecido (e temido) por todos e que provavelmente é o melhor pistoleiro do Oeste. Chris Pratt, que vem se consolidando como um talentoso ator cômico (desde a ótima série Parks and Recreation), junta o tom cômico com a natureza anti-heroica de seu Josh Faraday. Haley Bennett confere a Emma Cullen uma personalidade forte e tendo uma participação decisiva. Ethan Hawke está muito bem em seu Goodnight Robicheaux, demonstrando o cansaço de um homem que já lutou demais, mas que ainda sim é movido pelo dinheiro. Quando aparece, Vincent D'Onofrio (irreconhecível) rouba a cena contrastando (de maneira acertada) o gigante porte físico de seu personagem, Jack Horne, com a personalidade delicada de voz aguda. Byung-hun Lee representa o asiático especialista em facas de forma competente. E Manuel Garcia-Rulfo e Martin Sensmeier dão vida aos personagens do mexicano Vasquez e do índio Colheita Vermelha respectivamente (estes com menos tempo de tela, infelizmente). Contudo, outro grande destaque vai para a atuação de Peter Sarsgaard ao antagonizar o maléfico Bartholomew Bogue, capaz de fazer qualquer coisa pelo dinheiro. Fuqua utiliza bem o roteiro ao misturar western, comédia e ação (nas medidas certas), criando um ritmo envolvente. E é interessante ver como o diretor teve o cuidado de deixar o longa nos moldes dos filmes de bangue-bangue ao mesmo tempo em que presta homenagens ao filme de 1960 (como na cena que introduz o protagonista e nos planos detalhes das cenas de duelo). É importante ressaltar o preciosismo estético de Fuqua junto com o diretor de fotografia Mauro Fiore ao utilizar uma razão de aspecto de 2.35:1 (repare nas composições dos belíssimos planos gerais do velho oeste e no plano onde vemos a silhueta de certo personagem já no final do terceiro ato). A trilha sonora de 1960 criada por Elmer Bernstein é tão marcante que entrou na história do cinema como uma das principais de filmes de faroeste. O brilhante James Horner (que infelizmente faleceu ano passado) ficou responsável pela trilha desta refilmagem de 2016. É perceptível a falta da trilha marcante durante essa nova adaptação. Não que esta seja ruim, mas não consegue criar uma atmosfera à altura dos clássicos de faroeste. Pelo menos, para a felicidade dos fãs, o tema de 1960 toca assim que os créditos finais começam a subir. Sete Homens e Um Destino (2016) é uma ótima refilmagem que tem faroeste, comédia e ação em dosagens certas. Com diálogos, piadas e cenas, faz boas e merecidas homenagens ao filme de 1960. Promovendo, ainda, uma mensagem de paz, onde deve prevalecer o respeito cultural e racial entre os povos. Nota do crítico: 4.0/5.0. Por Henrique Xaxá. Crítica disponível em: http://bit.ly/2ddgwfX"

Eduardo Moniz Vianna
Eduardo Moniz Vianna27 de set. de 2016

em tempo, o filme também vai contra a misoginia dos filmes de ação de Hollywood, colocando a personagem feminina para SPOILER substituir com muita competência no rifle o personagem do Ethan Hawk, além de ser a reponsável pela salvação do personagem do Denzel (o que, aliás, me lembrou Matar ou Morrer), "quebrando" a proposta de Sete Homens salvadores da pátria

Eduardo Moniz Vianna
Eduardo Moniz Vianna27 de set. de 2016

"Já Manuel Garcia-Rulfo e Martin Sensmeier se veem mais limitados em seu tempo de tela menor, demonstrando que nem tudo mudou em Hollywood." Concordo com a lamentação de estes personagens terem pouco tempo de desenvolvimento em tela, mas discordo da afirmação de que nem tudo mudou em Hollywood, pelo simples fato de que, dos sete homens, SPOILER sobrevivem ao confronto final somente três minorias, o negro, o índio e o mexicano, resistindo á tentação, inclusive de força dramática na narrativa clássica, de matarem o líder negro do grupo, mesmo este tendo finalmente encerrado o seu arco e se vingando da morte da família.

Digo Freitas
Digo Freitas22 de set. de 2016

Refilmagens sempre nos dão medo de serem horríveis, porque a grande maioria é, então só de ser um filme que vale a pena ver, já me instiga a ir ao cinema!

Otávio Augusto Gaudencio
Otávio Augusto Gaudencio22 de set. de 2016

Excelente crítica Pablo, em meio de várias pegando pesado com o filme, creio que a sua é a mais sensata e apropriada.