Críticas por Pablo Villaça

Poster: Paterson
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
16/05/2016 28/12/2016
Distribuidora
Fênix Filmes

 

 


Paterson
Paterson

Paterson

Dirigido e roteirizado por Jim Jarmusch. Com: Adam Driver, Golshifteh Farahani, Barry Shabaka Henley, Method Man, Chasten Harmon, William Jackson Harper, Nagase Masatoshi, Rizwan Manji.

Paterson é um filme melancólico sobre personagens melancólicos que levam existências melancólicas. Em outras palavras: é uma obra de Jim Jarmusch – e os fãs do cineasta encontrarão aqui todos os elementos que tornaram sua voz tão distinta entre os realizadores independentes norte-americanos.

Já de imediato, quando o fade in revela o casal Paterson (Adam Driver) e Laura (Golshifteh Farahani) despertando enquanto a legenda “Segunda-feira” surge na tela, a estrutura que será empregada para desenvolver a narrativa fica clara: iremos acompanhar uma semana na vida do personagem-título e os incidentes desta trajetória. Ou talvez “incidente” seja uma palavra forte demais, já que o roteiro do próprio Jarmusch demonstra muito mais interesse em seguir sua rotina comum do que em criar qualquer obstáculo dramático grandioso. Assim, ficamos ao lado de Paterson enquanto desperta sempre em torno do mesmo horário, mantém as mesmas conversas com seu supervisor, percorre a mesma rota com o ônibus que dirige, leva o cachorro para passear pelo mesmo caminho, bebe sua cerveja diária no mesmo bar e assim por diante.

Aliás, se há algo que caracteriza o sujeito é o fato de ser tão... comum – algo que o filme salienta ao observar que ele tem o mesmo nome não só da cidade em que mora, mas da linha de ônibus que conduz. Não à toa, o diretor emprega, como rima narrativa, a recorrência de diversos tipos de padrões no cotidiano do rapaz, das formas que sua esposa insiste em pintar nas cortinas, tapetes e cupcakes aos vários gêmeos que Paterson encontra ao longo da projeção. A única coisa a romper estas repetições é a paixão do motorista por poesia, o que o leva a escrever seus próprios poemas em um pequeno caderno que sempre carrega e que despertam a admiração incondicional da esposa.

Admiração que provavelmente vem mais do amor que ela sente do que da qualidade do que o marido compõe. Por outro lado, a poesia parece desempenhar mais um exercício de sensibilidade para o protagonista do que um esforço artístico autêntico, já que seus versos são uma forma de buscar algum romantismo em seu dia-a-dia e mesmo de encontrar um sentido para sua vida tão banal – uma procura compartilhada por praticamente todos os demais personagens do longa: Laura tenta ser pintora e música country; um conhecido de infância se apresenta como ator; um estranho visto em uma lavanderia ensaia letras de rap e ao menos duas outras pessoas além de Paterson se identificam como poetas.

Que nenhum destes indivíduos seja especialmente talentoso é algo que não faz qualquer diferença.

O que importa é que tentam – e mesmo que o pouco de beleza que conseguem construir seja tão frágil a ponto de poder ser destruída numa única noite, o fundamental é que constatem que, prosaicos ou não, sempre haverá uma página em branco cheia de possibilidades.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

16 de Maio de 2016

(O Cinema em Cena precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Se você gostou deste texto e quer saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.