Críticas por Pablo Villaça

Poster: Lion
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
16/02/2017 25/11/2016
Distribuidora

 

 


Lion
Lion

Lion

Dirigido por Garth Davis. Roteiro de Luke Davies. Com: Sunny Pawar, Dev Patel, Rooney Mara, Nicole Kidman, David Wenham, Divian Ladwa, Priyanka Bose, Abhishek Bharate, Tannishtha Chatterjee, Khushi Solanki e Nawazuddin Siddiqui.

Lion conta uma história real com pontas emocionantes, mas um miolo cinematograficamente desinteressante. Baseado no livro autobiográfico de Saroo Brierley, aqui adaptado por Luke Davies, o filme acompanha a trajetória geográfica e psicológica de um jovem que, depois de se perder na Índia, é adotado por um casal australiano e decide, 25 anos depois, tentar encontrar sua família biológica.

Com uma direção correta do estreante Garth Davis, a projeção tem início com o pequeno Saroo (Pawar) roubando carvão ao lado do irmão Guddu (Bharate) para que possam comprar leite para a mãe (Bose) e a irmã caçula (Solanki), o que estabelece a existência miserável que levam. Certa noite, ao acompanhar Guddu enquanto este vai trabalhar, o menino adormece em um trem e vai parar em Calcutá, a 1.600 quilômetros de distância. Sem saber falar bengali e desconhecendo o nome de sua cidade, ele enfrenta os perigos locais enquanto tenta descobrir uma forma de retornar para casa – o que, pela descrição no primeiro parágrafo e pelo trailer, já sabemos que não conseguirá fazer.

Esta primeira parte de Lion é também sua melhor, já que o adorável Sunny Pawar (vocês precisam ouvi-lo chamando o irmão Guddu) expressa com talento não só o horror crescente que seu personagem experimenta à medida que percebe a dimensão do problema, mas também a inteligência do menino, que é capaz de detectar ameaças antes que estas se concretizem. Aliás, a fotografia de Greig Fraser ajuda a criar esta atmosfera opressiva e sombria através de um uso cuidadoso do contraste, destacando-se especialmente na cena no metrô, quando os meninos de rua são atacados por adultos com intenções obviamente perversas, e aquela em que Saroo vê um suposto benfeitor entrando no quarto em que se encontra (o personagem é vivido pelo excelente Nawazuddin Siddiqui, desconhecido no Ocidente e, portanto, fazendo aqui apenas uma ponta). Para completar, o design de som faz uma contraposição importante entre o vilarejo natal do protagonista e Calcutá, quando este subitamente se vê envolto em ruídos, músicas e um falatório que o deixam aturdido – e o instante em que ele decola para a Austrália é também beneficiado por uma sobreposição momentânea do ronco do motor do avião pelo som de um trem, remetendo à única experiência que Saroo tivera com viagens e também ao fato de estar deixando tudo que conhecia para trás.

No entanto, pela própria estrutura da trama, era inevitável que em algum instante Saroo envelhecesse e seu intérprete fosse substituído – e o filme enfraquece consideravelmente quando Dev Patel assume o papel. Mesmo que eu geralmente admire o trabalho do ator e reconheça que ele evoca bem o sofrimento de um adulto que se vê obrigado a dizer, como uma criança, “Eu estou perdido”, o fato é que o roteiro não sabe muito bem como lidar com a versão crescida de Saroo, basicamente mantendo-o no modo “deprimido” e incluindo uma subtrama romântica que serve apenas para prolongar sua duração, já que nada acrescenta além de clichês. Em contrapartida, Nicole Kidman encarna Sue Brierley, mãe adotiva de Saroo, com uma ternura palpável: seu olhar ao ver o filho pela primeira vez exala amor; podemos praticamente enxergar sua imensa vontade de cercar o garoto de carinho – e a atriz também rouba a cena com um monólogo sobre suas motivações para adotar duas crianças, quando o diretor, reconhecendo a força da passagem, enfoca a atriz num primeiro plano que revela cada micro expressão de Kidman.

Por outro lado, não havia muito que Garth Davis pudesse fazer com aquele que se torna o maior segmento de Lion e que se concentra nas investigações de Saroo: envolvendo buscas no GoogleMaps, em mapas com as linhas ferroviárias da Índia e cálculos da velocidade dos trens e a distância que poderiam percorrer em certo número de horas, este segundo ato quebra completamente o ritmo da narrativa por mais que o cineasta tente torná-lo dinâmico através de cortes rápidos, vários planos-detalhe que trazem a mão de Saroo mexendo no mouse e outros que percorrem pontos da tela de seu notebook. Já em outro momento, Davis tropeça feio ao fazer uma brincadeira com as sequências musicais das produções de Bollywood ao sugerir uma coreografia com Patel e Mara – algo que (ainda bem) não se concretiza, mas soa redutivo por basicamente correlacionar histórias protagonizadas por indianos a um aspecto específico da indústria cinematográfica daquele país.

Evitando o melodrama que tantos outros diretores abraçariam, Davis se recupera no ato final do longa, que, encenado sem maniqueísmos excessivos, surpreende pelo impacto emocional que revela. E é uma pena, portanto, que ainda assim o diretor opte por adotar um recurso que se tornou uma convenção irritante em produções baseadas em fatos reais, incluindo registros documentais de algo que acabara de dramatizar na tela – um instante que, desconfortável como a realidade tende a ser quando forçada a parecer tocante, encerra Lion num anticlímax que, nos últimos segundos, o faz soar apelativo e artificial.

19 de Fevereiro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.