Críticas por Pablo Villaça

Poster: LEGO Batman: O Filme
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
09/02/2017 10/02/2017
Distribuidora
Warner

 

 


LEGO Batman: O Filme
The LEGO Batman Movie

LEGO Batman: O Filme

Dirigido por Chris McKay. Roteiro de Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern, John Whittington. Com as vozes de Will Arnett, Michael Cera, Rosario Dawson, Zach Galifianakis, Jenny Slate, Conan O’Brien, Doug Benson, Billy Dee Williams, Jason Mantzoukas, Zoë Kravitz, Eddie Izzard, Jemaine Clement, Channing Tatum, Jonah Hill, Adam Devine, Ellie Kemper, Mariah Carey, Hector Elizondo e Ralph Fiennes.

Uma Aventura LEGO foi uma das melhores surpresas de 2014: ágil, inventivo e divertido, o filme trazia um humor absurdo que frequentemente parecia resultado dos improvisos imaginativos de uma criança que atira todas as peças no chão e cria mundos e personagens não previstos na ilustração da caixa, extraindo uma lógica particular da brincadeira.

Isto também é o que acontece, em boa medida, com LEGO Batman, embora desta vez os esforços dos realizadores soem ocasionalmente ansiosos demais para sugerir uma irreverência que nem sempre se encontra na narrativa. Como um comediante que sobe no palco usando o boné virado para trás, roupas com tons gritantes e meias de cores diferentes em cada perna, tentando sinalizar sua graça de antemão, esta continuação (ou spin-off) parece acreditar que o simples conceito de um Batman LEGO com a voz de Will Arnett é hilário o bastante, trazendo um número considerável de diálogos dos quais deveríamos rir apenas por serem ditos pela voz impossivelmente grave do ator.

Escrito por cinco roteiristas (e parte do problema já está aí), o roteiro nos apresenta a uma versão egocêntrica e narcisista do Homem-Morcego, que, traumatizado pela morte dos pais (um incidente que felizmente não somos obrigados a testemunhar pela vigésima-oitava vez), isolou-se emocionalmente, mantendo até mesmo seu fiel mordomo/figura paterna Alfred (Fiennes) distante. Irritado pela decisão da comissária Barbara Gordon (Dawson) de limitar a liberdade de suas ações como justiceiro, ele acaba adotando acidentalmente o jovem Dick Grayson (Cera) enquanto enfrenta mais um plano ambicioso do Coringa (Galifianakis), seu arqui-inimigo que gostaria de receber apenas um pouquinho de seu (des)afeto.

Metalinguístico desde os primeiros segundos, quando o herói narra as vinhetas das produtoras do filme, o longa sabe ser parte de um universo que já teve diversas versões, chegando a mencioná-las direta e indiretamente ao citar seus anos de lançamento, ao relembrar ações passadas dos Coringas de Jack Nicholson e Heath Ledger e até mesmo ao trazer Billy Dee Williams como a voz do Duas-Caras. O universo de LEGO Batman, por sinal, atira sobre o espectador todas as referências possíveis: se é um personagem sobre o qual a Warner/DC e suas subsidiárias têm os direitos autorais, este é visto na tela; se não é, acaba sendo citado (como o Homem de Ferro, da Marvel). Algumas destas figuras exercem funções diretas na trama; a maioria, porém, tem em sua mera aparição a própria função, soando gratuitas.

Já o tom de seu humor oscila de forma curiosa, indo da mais pura inocência (os disparos dos tiros têm seus sons feitos com a boca pelos personagens) e do óbvio (“Nada (ruim) acontece comigo”, diz um figurante que, claro, em alguns segundos já não poderá mais afirmar isto) até gags maldosas envolvendo Robin e que chegam muito perto da homofobia, não conseguindo deixar claro se está rindo com os personagens ou destes. Já em outros instantes, o roteiro parece querer dizer algo relevante com suas piadas, mas sem saber exatamente como fazê-lo: quando Batman batiza Barbara Gordon de “Batgirl”, esta pergunta se ele, então, é um “Batboy”, o que não chega a ser nem piada nem comentário social/político, ainda que se julgue ambos.

Com um design de produção que explora bem o conceito de mundos construídos por peças LEGO mesmo que estes sejam menos imaginativos (e bem menos coloridos) do que aqueles vistos no filme anterior, LEGO Batman é tecnicamente irrepreensível, sendo bacana, por exemplo, notar como a luz é refletida na superfície lisa e pintada dos corpos dos personagens enquanto estes se movem. Além disso, o diretor Chris McKay sabe usar os cenários de maneira expressiva, ilustrando a solidão do herói, por exemplo, ao conceber quadros abertos que contrastam a dimensão da mansão Wayne à sua figura diminuta. Do mesmo modo, apenas o fato de demorar a tirar a máscara (mesmo depois de ter trocado o resto da roupa) já atua simultaneamente como gag visual e como uma fresta que revela os sentimentos do protagonista.

Não que estes exijam grande perspicácia para serem diagnosticados, já que o Batman de Will Arnett não para de falar sobre si mesmo um segundo sequer, funcionando como uma ilustração óbvia do conceito de “significado explícito” ao praticamente gritar para o público qual será o arco narrativo que seguirá ao manifestar repetidas vezes como ninguém importa para ele. Arnett brinca também com o narcisismo do personagem, que o deixa cego para todos que o cercam. Enquanto isso, Zach Galifianakis se diverte com os exageros do Coringa, entregando-se a falsetes e outros histrionismos vocais que constantemente levam o espectador a identificar-se mais com seus dilemas do que com os de seu oponente (o que é intencional), ao passo que Michael Cera investe em tons sempre suplicantes (como poderíamos esperar de alguém que diz algo como “Bruce Wayne é o maior órfão de todos os tempos”) e com uma afetação que busca sugerir... bom, o que todos já sugeriram ao falar de Robin (e aí, claro, entra o componente potencialmente homofóbico, mesmo sem intenção de sê-lo).

Com diálogos rápidos que tentam provocar o riso pela quantidade (um humor por metralhadora, digamos), LEGO Batman é aquele amigo que se acha engraçado, faz um esforço colossal para divertir quem está ao redor e até consegue ocasionalmente. Mas que, aqui e ali, também enche um pouco o saco com seu desespero.

21 de Fevereiro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.