Críticas por Pablo Villaça

Poster: T2 Trainspotting
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
23/03/2017 27/01/2017
Distribuidora
Sony

 

 


T2 Trainspotting
T2 Trainspotting

T2 Trainspotting

Dirigido por Danny Boyle. Roteiro de John Hodge. Com: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Anjela Nedyalkova, Shirley Henderson, James Cosmo, Kelly Macdonald e Robert Carlyle.

Desde que chegou aos cinemas, há 20 anos, Trainspotting se transformou em cult e, posteriormente, em um jovem clássico, sendo celebrado por sua linguagem dinâmica, pela forma ao mesmo tempo autêntica e estilizada com que retratava a cultura junkie e, claro, por ter ajudado a apresentar ao mundo atores como Ewan McGregor e Robert Carlyle. A boa notícia é que sua continuação recupera muito da energia do original e parte de seu humor sombrio; a má é que, ao contrário daquele, não parece uma obra particularmente original ou mesmo necessária, dependendo mais da nostalgia do que de seu roteiro para funcionar.

Abrindo já forjando um claro contraste com seu antecessor, T2 tem início revelando Mark Renton (McGregor) como um exemplo de saúde enquanto corre em uma esteira. Depois de um pequeno susto relacionado à sua condição médica, o sujeito, que agora tem 46 anos de idade, decide retornar a Edimburgo para tentar acertar as contas com Sick Boy (Miller) e Spud (Bremner), embora saiba que jamais poderá fazer o mesmo com Begbie (Carlyle), que, preso há 20 anos, segue tão instável e perigoso quanto antes. Pressionado por Sick Boy para ajudá-lo a levantar dinheiro suficiente para abrir um bordel para sua namorada Veronica (Nedyalkova), Mark acaba se empolgando com a ideia e – não menos importante – com a própria Veronica, tornando-se um alvo quando Begbie escapa da penitenciária.

A melhor parte do roteiro de John Hodge, aliás, é o primeiro ato, que reintroduz todos estes personagens e como estão duas décadas depois - em essência, levando vidas que nada mais são do que continuações lógicas da maneira como as conduziam no passado e das escolhas feitas: umas piores do que outras, mas nenhuma particularmente boa. Assim, mesmo que Mark obviamente tenha melhorado, o diretor Danny Boyle deixa claro como há limitações para esta melhora já ao mostrá-lo desembarcando em Edimburgo, quando vemos um pai sendo recebido pela filha pequena enquanto o protagonista percorre solitariamente o aeroporto. Aliás, Ewan McGregor, um ator que muitos ainda insistem em subestimar, faz um trabalho tecnicamente preciso, recuperando a energia quase maníaca de Mark à medida que a narrativa avança. Além disso, por melhor que ele pareça estar agora, é patente que há algo fora de lugar se, depois de tanto tempo, ele ainda sente necessidade de retornar para a cidade da qual escapou depois de tanto esforço.

Mas McGregor não está só, posto que Jonny Lee Miller, Ewen Bremner e Robert Carlyle vestem novamente as roupas de seus personagens confortavelmente: Sick Boy soa cada vez mais patético com seus projetos grandiosos (ao menos, “grandiosos” para seus padrões); Spud se estabelece como o mais tocante do grupo ao se mostrar plenamente consciente de tudo que perdeu em função do vício (o que não o torna mais capaz de vencê-lo); e Begbie não apenas segue impulsivo e raivoso como demonstra um desejo curioso (e, ok, divertido) de ver seu filho abandonando a faculdade e seguindo seus passos na bandidagem. Fechando o elenco, Anjela Nedyalkova se torna um acréscimo valioso como a prostituta Veronica, apresentando novas facetas à medida que a trama avança; Shirley Henderson transmite dor e cansaço num papel quase mudo e Kelly Macdonald, numa ponta, dirige um comentário a Mark que só será compreendido por quem assistiu ao original.

Trainspotting 2, vale apontar, é repleto destas breves referências ao primeiro filme, chegando a incluir diversos flashbacks que têm menos a função de relembrar incidentes passados e mais o papel de demonstrar como, apesar de tudo, aqueles indivíduos sentem certa nostalgia daqueles dias de vício, desespero e jornada certeira rumo à overdose. Ao longo da obra, aliás, Boyle inclui estes flashbacks não só de forma tradicional através da montagem, mas também como imagens que aparecem projetadas sobre a lataria de um carro, a parede de um quarto e por aí afora. Estes são apenas alguns dos floreios estilísticos do cineasta, que também abusa de freeze frames, planos holandeses, grandes angulares, grafismos, legendas e até mesmo uma rápida paródia intitulada Spud Indomável.

Paradoxalmente, são suas decisões mais sutis que se apresentam como as mais interessantes, como ao trazer Mark e o pai sentados na cozinha, quando inclui uma cadeira vazia que, situada abaixo de uma sombra, reforça a ausência da mãe (há uma outra cena na qual Boyle usará uma brincadeira com sombras para retratar o estado de espírito de um personagem). Da mesma maneira, o humor macabro que pontuava Trainspotting retorna aqui vez por outra, mas nada que chegue perto da icônica sequência do vaso sanitário do longa de 1996 – e desta vez o cineasta também evita incidentes pesados como o da bebê, o que compromete outros aspectos da narrativa (um personagem chega a experimentar heroína sem maiores repercussões).

Porém, se há um instante de Trainspotting 2 com potencial para resistir ao tempo, este é o monólogo de Ewan McGregor envolvendo o bordão “choose life” – e que me fez lembrar de um discurso igualmente poderoso feito por Edward Norton em A Última Noite.

O que não significa que esta continuação chegue aos pés do filme que a originou.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2017.

10 de Fevereiro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.