Críticas por Pablo Villaça

Poster: Power Rangers
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
23/03/2017 24/03/2017
Distribuidora
Paris

 

 


Power Rangers
Saban's Power Rangers

Power Rangers

Dirigido por Dean Israelite. Roteiro de John Gatins. Com: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludi Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Matt Shively, David Denman, Bryan Cranston e a voz de Bill Hader.

Power Rangers é um filme que tem vergonha de ser o que é. Em vez de abraçar sua natureza de obra infanto-juvenil, já que gira em torno de adolescentes que se transformam (perdão: “morfam”) em guerreiros com armaduras coloridas que enfrentam monstros gigantes, o longa aspira a algo que não tem condições de alcançar, orgulhando-se, porém, do pouco que consegue. Neste sentido, é como uma criança pequena que, certo dia, toma banho e faz o dever de casa sozinha e anuncia isto para os pais apenas para, segundos depois, derrubar sorvete e suco sobre si mesma e sobre a lição.

Baseada na franquia da produtora Saban Entertainment (nos Estados Unidos, o título oficial do filme é Saban’s Power Rangers), o roteiro de John Gatins (Gigantes de Aço) tem início com uma batalha desesperada entre o ranger Zordon (Cranston) e a vilã Rita Repulsa (Banks), que culmina com o primeiro encomendando um meteoro para derrotar sua oponente – provocando, no processo, a extinção dos dinossauros (um pequeno dano colateral que o projeto prefere ignorar porque, né? Bobagem.). Algum tempo depois (ok, milhões de anos), os adolescentes Jason (Montgomery, um Zac Efron Jr.), Kimberly (Scott), Billy (Cyler), Zack (Lin) e Trini (G.) encontram moedas coloridas que os convertem nos heróis do título – um achado que, por uma sorte incrível, ocorre no melhor momento possível, já que praticamente no mesmo dia Rita é resgatada de seu túmulo submarino pelo barco do pai de Jason.

Sim, é uma imensa coincidência que o pai do líder vermelho dos Rangers seja o responsável pelo retorno da vilã, mas se pensarmos nas probabilidades estatísticas dos dois incidentes ocorrerem no mesmo dia depois de 65 milhões de anos, a coisa toda parece bem mais aceitável – bem como os demais acasos que levam os adolescentes à nave de Zordon. Ou talvez eu esteja exigindo demais de uma produção que tem personagens chamados Zordon, Rita Repulsa, Goldar e Alpha 5 (Hader) e que encontra tempo para incluir um plano que traz a reação de uma vaca à chegada de uma viatura policial. Ainda assim, não creio que seja pedir muito que Gatins justifique como uma luta intensa pode ocorrer no quarto de um adolescente sem atrair a atenção de ninguém da casa ou que explique melhor por que extrai tanto prazer ao punir uma garota que se torna desafeto de Kimberly se já sabemos que foi esta última quem fez algo horrível contra a ex-amiga.

Felizmente, há um momento ou outro para compensar esta preguiça colossal do roteirista: logo no início, o diretor Dean Israelite se inspira em Deixe-Me Entrar (refilmagem de Deixa Ela Entrar) ao rodar uma perseguição policial a partir de uma câmera que se mantém no interior de um dos carros e, mais tarde, ele faz a obrigatória homenagem à série original através de rápidos zooms durante saltos dos personagens – mas não creio que estes dois breves exemplos sejam suficientes para compensar os demais problemas. Por outro lado, Power Rangers tem um orgulho tremendo da diversidade de seu elenco, o que realmente seria digno de aplausos caso o próprio filme não se encarregasse de bater palmas para si mesmo (Alpha 5 chega a dizer que jovens “de cores diferentes” foram encontrados pelas moedas). Da mesma forma, Trini insinua ser homossexual em uma conversa com os companheiros, mas não reclamarei do fato de que esta menção à sua sexualidade dura meio segundo, é feita com uma sutileza que falta ao restante da narrativa e jamais volta a ser abordada, já que ao menos há algum esforço para incluir uma representante de uma minoria raramente presente em superproduções do gênero.

Já o autismo de Billy é mais difícil de desculpar, sendo tratado ou como fonte de piadas ou como forma de explicar sua genialidade – e sua posição exata no espectro do distúrbio parece oscilar de acordo com as necessidades imediatas do roteiro. Seja como for, RJ Cyler confere carisma ao personagem, o que é um pouco mais do que Zac Efron Jr. traz para sua composição. Enquanto isso, Ludi Lin e Becky G. basicamente se definem por sua etnia e por sua orientação sexual (ok, o primeiro também tem uma mãe doente e a segunda é filha de dois atores da série da década de 90), ao passo que Naomi Scott vive uma daquelas figuras que ilustram sua nova postura diante da vida ao cortar os próprios cabelos, que ficam magicamente belíssimos embora aparados com uma tesoura cega diante do espelho sujo de um banheiro mal iluminado.

Ainda assim, é fácil compreender por que atores em início de carreira aceitariam participar de um projeto como este; complicado é absorver o envolvimento de figuras como Bryan Cranston e Elizabeth Banks. Tá, esta ao menos se diverte loucamente ao adotar uma abordagem camp da qual o restante do filme tenta se afastar durante boa parte do tempo, gesticulando de forma exageradíssima, gargalhando alto e empregando uma energia ensandecida ao dizer falas como “Vamos matar todo mundo!”. Já Cranston essencialmente se apresenta como uma mistura entre o cabeção flutuante do Mágico de Oz e os hologramas de Jor-El em Superman, sendo acompanhado em suas cenas pelo bom trabalho vocal de Bill Hader (que está se especializando neste tipo de trabalho) como Alpha 5.

Sem conseguir encontrar o tom adequado, Power Rangers traz algumas imagens de destruição pesadas demais para uma plateia muito jovem (como a visão de pessoas transformadas em estátuas de cinzas) ao mesmo tempo em que seus personagens e a trama em si são tolos demais para despertar o interesse de espectadores adultos – e, assim, seu alcance acaba se restringindo a uma faixa relativamente estreita do público. Já suas tentativas de evocar algum drama são artificiais e óbvias como o merchandising descarado de uma franquia de donuts – o que só não é mais irritante do que a atrocidade cometida contra “Stand By Me”, que aqui surge na pior versão já concebida por um músico (os criminosos responsáveis são os integrantes da banda Bootstraps).

O que Power Rangers se recusa a encarar, em última análise, é que não há embaraço no escapismo – apenas naquele que tenta justificar suas falhas por ser escapista. É perfeitamente possível ser idiota (ou “idiota”), fugir de qualquer mensagem séria e ainda assim se apresentar como uma obra digna de admiração – como comprovam, por exemplo, Débi & Lóide e Deadpool. Porém, se não quiser ser apenas uma fuga temporária da realidade, será preciso mais do que orgulhar-se apenas por ir sozinho ao banheiro.

Especialmente quando logo percebemos como suas fraldas estão carregadas de resíduos de sua ambição mal digerida.

Observação: há uma cena após os créditos finais.

24 de Março de 2017

(Caso você tenha moedas mágicas e queira ajudar o Cinema em Cena a morfar, assumindo uma estrutura mais estável, temos uma sugestão: se você gostou deste texto - e se curte as críticas que lê aqui -, saiba que ficamos bastante felizes, pois o site precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Para saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.