Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
30/03/2017 31/03/2017
Distribuidora
Paramount

 

 


A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell
Ghost in the Shell

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

Dirigido por Rupert Sanders. Roteiro de Jamie Moss e William Wheeler. Com: Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Han Chin, Danusia Samal, Anamaria Marinca, Peter Ferdinando, Yutaka Izumihara, Rila Fukushima, Kaori Momoi, Michael WIncott, Michael Pitt, Juliette Binoche e Takeshi Kitano.

Visualmente, A Vigilante do Amanhã é admirável. Durante a projeção, em vários momentos senti o desejo de permanecer por mais tempo naquele mundo fascinante criado pelo impecável design de produção e acompanhar as histórias dos indivíduos que o habitavam - mas não as protagonizadas pelos personagens que o roteiro de Jamie Moss e William Wheeler escolhe seguir.  

Baseado no universo concebido por Masamune Shirow em um manga que deu origem a um anime que deu origem a uma série de continuações e spin-offs, A Vigilante do Amanhã abraça o conceito básico das obras, mas não sua essência, convertendo uma narrativa que se equilibrava entre a ação e discussões existenciais em uma bobagem superficial que não parece ter o Q.I. mínimo para compreender sequer os dilemas mais simples de sua protagonista, que, vivida por Scarlett Johansson, tenta compreender a própria natureza e a própria identidade: fruto dos experimentos da corporação Hanka, a Major Mira Killian é uma androide cujo corpo mecânico abriga o cérebro de uma jovem morta por “terroristas” e que agora trabalha para a Seção 9, encarregada de combater ameaças à ordem mundial. Uma destas ameaças é o misterioso Kuze (Pitt), responsável pelo assassinato de cientistas que trabalharam em um projeto específico da Hanka e que talvez tenha algo a ver com a própria Major. (“Talvez” significando “é óbvio que tem”, já que o roteiro é tão incapaz de criar uma trama minimamente surpreendente quanto é de desenvolver os personagens com complexidade.)

Não é necessário um grande esforço de observação, claro, para perceber como “Kuze” é uma referência a “Kurtz”, já que, como o coronel de Apocalypse Now, o alvo das investigações da Major é uma figura que atinge contornos míticos, exerce influência sobre um considerável número de “soldados” e se esconde nas sombras às margens do mundo. No entanto, ao contrário de Marlon Brando naquele filme, Michael Carmen Pitt (de onde surgiu o “Carmen” depois de todo esse tempo?) é uma decepção – menos por incompetência do ator e mais pelas motivações confusas concebidas pelos roteiristas, que não conseguem nem mesmo escrever um monólogo decente para que o sujeito explique melhor suas razões.

Aliás, sempre que alguém tenta falar com alguma seriedade em A Vigilante do Amanhã, os resultados são risíveis, soando como algo que sairia da mente de um adolescente sem hábito de leitura que passou os olhos superficialmente sobre alguns verbetes de filosofia na Wikipedia e se aventurou a repeti-los na primeira ocasião que se apresentou. “Somos definidos não por nossas memórias, mas por nossas ações”, diz a Major solenemente em sua sempre tola e dispensável narração, esquecendo-se, naturalmente, de explorar como nossas decisões são constantemente movidas pelo que já vivemos e aprendemos, preferindo acreditar, em vez disso, que o que fazemos se origina de impulsos formados em um vácuo. Da mesma maneira, o longa demonstra verdadeira obsessão em “discutir” as semelhanças e contrastes entre fantasia e realidade, mais uma vez fazendo a leitura mais tola possível do material no qual se inspirou, além de repetir ad nauseam como o “fantasma/alma/essência” da Major se encontra preso “aí dentro” da casca robótica criada em laboratório.

Assim sendo, seria injusto criticar Johansson por não saber exatamente o que fazer com a protagonista, já que até mesmo a percepção desta acerca de si mesma varia de uma cena para outra sem qualquer lógica aparente. Com isso, a atriz parece optar pelo menos arriscado ao transformar a Major numa figura que jamais manifesta qualquer emoção ou o menor sinal do que cruza sua mente. Já Pilou Asbæk basicamente se concentra na fisicalidade de Batou, ao passo que Peter Ferdinando, como o vilão Cutter, parte para a caricatura da vilania. Por sorte, o elenco traz também Juliette Binoche, que faz o possível para incutir peso em uma figura unidimensional, e o já lendário ator e diretor “Beat” Takeshi Kitano, que se mostra mais convincente como herói em uma cena do que Johansson e Asbæk conseguem em todas as suas sequências somadas.

Apesar de todas as suas falhas, contudo, A Vigilante do Amanhã é um espetáculo visual formidável: sua metrópole futurística e distópica é um emaranhado de prédios imponentes intercalados com hologramas gigantescos que imaginam a publicidade da época como garotos/garotas/animais-propaganda que surgem como Godzillas em meio ao caos urbano, ao passo que suas ruas se apresentam claustrofóbicas, sujas e cinzas como tudo que as cercam. Além disso, os efeitos visuais jamais deixam de impressionar – sejam eles usados para criar personagens digitais como a gueixa-aranha (na falta de um nome melhor) ou empregados para enriquecer aquele universo com detalhes curiosos como o uniforme que traz a palavra “Polícia” mudando de cor ou um transeunte cuja cabeça parece encerrada em uma bolha de navegação virtual.

Mas, claro, no fim das contas há sempre o fraco roteiro para arrastar tudo para baixo, começando já com letreiros expositivos e encerrando com monólogos também expositivos do vilão, passando pela cena em que a Major encontra uma japonesa de meia-idade (Momoi) que imediatamente lhe conta toda sua vida.

Cercado por controvérsias acerca do whitewashing ilustrado pela escalação de Johansson para um papel que deveria ter ido para uma atriz de origem nipônica, A Vigilante do Amanhã é um projeto construído com tamanha fragilidade que a apropriação feita pelos produtores e pelo estúdio norte-americanos são apenas um insulto adicional. Se o filme ao menos fizesse jus à obra de Shirow, talvez fosse um pouco mais fácil justificar suas decisões criativas; como ainda a atira no lixo, contudo, a tarefa se torna impossível, convertendo esta adaptação em um cenário magistral em busca de uma história que honre sua inventividade.

01 de Abril de 2017

Assista também ao videocast (sem spoilers) sobre o filme:

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.