Críticas por Pablo Villaça

Poster: Joaquim
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
20/04/2017 Unknown
Distribuidora
Imovision

 

 


Joaquim
Joaquim

Joaquim

Dirigido e roteirizado por Marcelo Gomes. Com: Júlio Machado, Rômulo Braga, Isabél Zuaa, Welket Bungué, Karay Rya Pua, Nuno Lopes, Diogo Dória, Eduardo Moreira, Miguel Pinheiro, Chico Pelúcio.

Joaquim não tem este título por acaso: ao contrário do que sugeriria caso se chamasse apenas Tiradentes, o interesse deste novo trabalho do cineasta Marcelo Gomes não é falar da figura histórica, mas do homem que nela se transformaria. Se a versão dirigida por Oswaldo Caldeira e estrelada por Humberto Martins em 1999 trazia o inconfidente como um mito, cavalgando em câmera lenta ao som de “Blowin’ in the Wind” (suspiro), esta nova – e infinitamente superior – produção aborda o papel de Joaquim José da Silva Xavier na Inconfidência Mineira apenas em seu prólogo, quando vemos sua cabeça fincada em uma estaca diante de uma igreja, já que o restante da projeção se dedicará a acompanhar a formação de sua consciência política.

Ou, o que torna Joaquim tão instigante, “consciência política”.

Mas me adianto. Escrito pelo próprio diretor, o roteiro traz o alferes Joaquim José (Machado) trabalhando em um posto de cobrança de pedágio e perseguindo contrabandistas de ouro. Frustrado por ser constantemente ignorado por seus superiores em suas requisições de promoção, ele é destacado para buscar novos veios de ouro, comandando, na missão, um pequeno grupo formado por seu subordinado Januário (Braga), pelo escravo João (Bungué), pelo índio Inhambupé (Pua) e pelo português Matias (Lopes). Convencido de que o sucesso da jornada lhe traria reconhecimento e a promoção a segundo-tenente, o personagem-título também pretende usar sua parte do ouro para mandar procurar a escrava fugida Preta (Zuaa), por quem se apaixonara.

Retratando a época (o final do século 18) sem romantismo e sem buscar cosmetizá-lo, Gomes, o diretor de arte Marcos Pedroso e a figurinista Rô Nascimento apresentam o período como um lugar sujo e hostil; um mundo de dentes apodrecidos, cabelos cobertos de piolhos, peles marcadas por carrapatos e, no caso dos escravos, ainda por roupas imundas e rasgadas. Enquanto isso, a fotografia de Pierre de Kerchove carrega nas grandes angulares que exploram as locações e na instabilidade da câmera, que busca trazer um aspecto moderno à linguagem e evita a abordagem clássica, rígida, que filmes de época normalmente empregam – e mesmo que falte a estes elementos fotográficos uma lógica que sugira algum arco narrativo coeso (a estratégia não muda muito ao longo da projeção), aprecio sua concepção básica.

Vivendo seu primeiro papel de destaque no Cinema (e que num mundo justo o lançaria imediatamente ao estrelato), Júlio Machado compõe o protagonista como um homem menos racista do que seus contemporâneos, mas longe de ser perfeito: ambicioso e rancoroso, ele tenta envenenar o superior contra um colega de farda e não hesita em arriscar os companheiros em sua jornada obsessiva por ouro. Com um olhar cada vez mais ensandecido, Joaquim é um indivíduo cuja solidão se torna cada vez maior à medida que afasta todos que o cercam e cujo envolvimento na luta contra a Coroa portuguesa se dá mais por frustração pessoal e profissional do que por princípios ideológicos. Além disso, se como alferes ele é visto como um nada, entre os revolucionários é visto com distinção – algo que, logo sentimos, talvez seja tão atraente para o protagonista quanto a independência do Brasil. Ou mais.

Por outro lado, ainda que as ironias constantes presentes no roteiro tenham suas virtudes, há momentos nos quais se tornam óbvias demais, o que revela uma falta de confiança incômoda na capacidade do espectador de enxergá-las – cenas como aquela na qual Joaquim diz “Você sabe que não suporto traição!” ou outra na qual começa a discutir a independência dos Estados Unidos como sinal de uma nação mais evoluída e acaba pesando a mão ao completar com a observação de que aquele é um país que jamais colonizaria outros. Já em outros aspectos, Joaquim se sai melhor ao se manter mais sutil, como ao transformar em sons animalescos, de forma discreta, os gemidos do chefe do (anti-?)herói ao estuprar Preta.

No entanto, o ponto forte do filme reside mesmo em sua habilidade ao expor as contradições de indivíduos que lutavam contra o domínio português, mas não viam qualquer problema em possuir escravos (em certo instante, a esposa de um dos líderes do movimento surge deitada numa rede balançada por uma escrava). Da mesma forma, Marcelo Gomes deixa clara a hierarquia inata àquela sociedade: se os brasileiros eram inferiores aos portugueses, ainda mais discriminados eram os índios e os negros – e há uma cena belíssima na qual João e Inhambupé cantam juntos, em suas línguas nativas, criando uma harmonia dos excluídos enquanto seus superiores brancos se embebedam ao lado de uma fogueira.

Mas Gomes vai além ao ressaltar que Joaquim é visto pelos burgueses que o atraem para a revolução como um inferior, um bruto útil aos seus propósitos. “Talvez eu tenha sido o único a perder a cabeça porque era o mais pobre”, ele diz nos primeiros minutos do filme, numa narração vinda do além-túmulo cinematográfico. E é este o brilhantismo de Joaquim: o fato de se encerrar onde a maioria das obras sobre o sujeito iniciaria, já que, para seu realizador, ainda mais importante que ilustrar a formação de “Tiradentes” é apontar como o Brasil já deu início à sua independência sem se preocupar com os erros estruturais mais graves de sua sociedade, cuja desigualdade manteve-se intocada, mas que sempre teve um talento particular para convencer os menos favorecidos de que os interesses da elite eram os mais importantes.

E o olhar de desprezo lançado na direção do protagonista por aqueles que este julga seus iguais é, de uma forma trágica, um símbolo atualíssimo do país mesmo quase dois séculos após alcançar sua independência.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2017.

18 de Fevereiro de 2017

(Se Tiradentes buscava a independência da Coroa portuguesa, o Cinema em Cena busca manter-se como veículo independente - e você pode ser o nosso Tiradentes. Como? É só clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.