Críticas por Pablo Villaça

Poster: The Leftovers - Primeira Temporada
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
29/06/2014 29/06/2014
Distribuidora
HBO

 

 


The Leftovers - Primeira Temporada
The Leftovers - Season One

The Leftovers - Primeira Temporada

Dirigido por Mimi Leder, Carl Franklin, Keith Gordon, Daniel Sackheim e Peter Berg. Roteiro de Damon Lindelof, Tom Perrotta, Jacqueline Hoyt e Kath Lingenfelter. Com: Justin Theroux, Amy Brenneman, Margaret Qualley, Chris Zylka, Carrie Coon, Christopher Eccleston, Liv Tyler, Paterson Joseph, Michael Gaston, Janel Moloney, Emily Meade, Amanda Warren, Max Carver, Charlie Carver, Annie Q., Marceline Hugot, Frank Harts, Wayne Duvall, Scott Glenn e Ann Dowd.

Lost foi uma série que amei do início ao fim, mas que deixou muitos de seus fãs desapontados graças a uma última temporada que tratou seus mistérios mais como questões existenciais do que como pontas soltas que precisavam ser amarradas. Particularmente, esta foi uma abordagem que não me desagradou, já que as respostas nem sempre são necessárias quando as questões em si são tão fascinantes. De todo modo, é curioso que um dos principais responsáveis por Lost, Damon Lindelof, esteja por trás de The Leftovers, que, baseada em um livro de Tom Perrotta, deixa claro desde o início que não pretende necessariamente desvendar as questões por trás do evento instigante de sua narrativa (o desaparecimento súbito de 2% da população do planeta), já que sua preocupação é menos o que houve e mais suas consequências.

Depois de uma introdução objetiva durante a qual testemunhamos a confusão do mundo diante de algo similar ao Arrebatamento tão aguardado pelos pentecostais (que gerou os tolíssimos best-sellers “Deixados para Trás”), The Leftovers passa a se concentrar em uma pequena galeria de personagens encabeçada pelo delegado Kevin Garney (Theroux), que assumiu o posto deixado pelo pai (Glenn) depois que este sofreu um aparente surto nervoso e vive agora com a filha Jill (Qualley). Já sua ex-esposa, Laurie (Brenneman), juntou-se ao culto Remanescentes Culpados, liderado pela rígida Patti (Dowd) e que agora atrai Meg (Tyler). Enquanto isso, o filho mais velho de Kevin e Laurie, Tom (Zylka), tornou-se integrante de outro culto, cujo líder Wayne (Joseph) afirma poder remover a dor de qualquer um apenas através de seu abraço – algo que certamente beneficiaria a sofrida Nora (Coon), que perdeu o marido e os dois filhos durante o evento que ficou conhecido como “A Partida”. Ao longo dos dez episódios desta primeira temporada, iremos conhecer outras figuras que entram e saem das vidas de Kevin e dos demais habitantes de Mapleton, mas, de uma forma ou outra, todas elas agirão em função do que ocorreu três anos antes, no dia 14 de Outubro.

Não é preciso muito esforço imaginativo para constatar que 14 de Outubro é, em maior ou menor grau, uma alegoria do 11 de Setembro, quando cerca de três mil pessoas foram pulverizadas durante o colapso das Torres Gêmeas – e, assim como suas famílias não tiveram a oportunidade de enterrá-las, sendo obrigadas a aceitar a realidade de que seus amados simplesmente não voltaram para casa, os habitantes do mundo retratado em The Leftovers ficam presos a um processo de luto que permanece incompleto, o que abre até mesmo oportunidades de negócios para empresas que passam a fabricar réplicas de látex daqueles que desapareceram e que podem ser enterradas, fechando o ciclo de dor de seus parentes.

Porém, há uma diferença fundamental entre o 14/10 da série e o 11/9 real: a ausência de alguém em quem depositar a responsabilidade pela perda. Se a Al-Qaeda e Osama bin Laden eram representações palpáveis que permitiam a sublimação (ao menos parcial) da dor através da ideia de que “os culpados pagarão pelo que foi perdido”, os sobreviventes dA Partida não podem contar com este luxo, já que aqui não há terroristas, mas apenas milhões de indivíduos perdidos que não sabem por que seus familiares partiram, por que eles mesmos ficaram para trás ou o que tudo isto pode significar. Não é à toa que, no episódio piloto, um personagem é visto lendo “O Estrangeiro”, de Camus, já que o protagonista daquela obra era justamente um homem condenado à morte parcialmente por não expressar os sentimentos esperados diante da morte da mãe – o que aqui encontra reflexo, por exemplo, na insistência dos Remanescentes Culpados de abandonar qualquer traço emocional mesmo enquanto se dedicam à tarefa de garantir que ninguém jamais se esquecerá da dimensão do que ocorreu e do fato de que aqueles que seguem aqui foram, por algum motivo inexplicável, “descartados” (é importante lembrar que “leftovers” também significa “restos/sobras”).

Aliás, a maneira como Perrotta e Lindelof concebem o universo da série é instigante, buscando realmente explorar as consequências de algo tão impactante, já que, diante da perda, todos temos nossas próprias estratégias para lidar com o sofrimento – e se as religiões são modos de lidar com a mortalidade e com o desconhecido, buscando conferir propósito ao que nada mais é do que uma breve passagem pelo planeta (com suas alegrias e tristezas), nada mais natural que algo como "A Partida” leve à criação de seitas tão distintas quanto as lideradas por Patti e Wayne ou aquela que move seus seguidores a pintar um alvo na testa a fim de atrair a atenção de Deus.

A simbologia religiosa, por sinal, é constante em The Leftovers, surgindo não apenas através do reverendo Matt Jamison (Eccleston), que no terceiro episódio batiza um bebê e sua própria esposa (neste caso, não literalmente, mas a imagem do casal na banheira não deixa margem para dúvidas), mas também do apedrejamento de outra personagem, culminando no conceito de um bebê como representante da presença divina na Terra. Além disso, é revelador que o carro do protagonista falhe no momento exato em que este emprega a expressão “baby fucking Jesus”, quase como uma punição divina, e que seus pesadelos recorrentes tragam imagens de martírio. Vale apontar, da mesma forma, como os realizadores são hábeis na construção de signos, usando ate mesmo um rolo de papel-toalha como indício da alteração da perspectiva de Nora diante do futuro.

A personagem da excelente Carrie Coon, devo apontar, constantemente expõe o apuro estético de The Leftovers através do arco narrativo representado pelo design de produção, que, por exemplo, confere cores mais alegres ao seu figurino depois de seu encontro com Wayne, refletindo também a lógica da fotografia, que cria um belo motif ao usar a contraluz para ressaltar passagens dramaticamente importantes para os personagens, que, com o Sol às suas costas, dividem o plano com flares que poderiam facilmente ser interpretados como um sinal metafísico. De maneira similar, a direção de arte é expressiva sem atrair atenção para si mesma, criando espaços claustrofóbicos como o do escritório do angustiado reverendo Jamison (espelhado nos corredores estreitos do supermercado que este visita) ou oprimindo através do branco sufocante que acompanha os Remanescentes Culpados. E já que mencionei os motifs do projeto, é impossível deixar de admirar a elegância da rima criada entre o primeiro e o último episódio da temporada, que abre com Kevin tentando se aproximar de um cão raivoso e chega ao fim com seu sucesso na empreitada.

Beneficiado também por uma trilha instrumental magistral de Max Richter, que exala a mesma melancolia que domina os personagens, The Leftovers é uma série povoada por indivíduos cujo sofrimento é uma condição básica da existência, não sendo surpresa que vários deles apareçam, em um instante ou outro, chorando solitariamente pelo que perderam – mesmo que não tenham ilusões acerca do que viviam antes dA Partida, que, por mais imperfeito que fosse, ao menos não constituía uma ruptura tão brutal da realidade à qual haviam se adaptado.

Assim, é admirável que Lindelof e Perrotta nem sequer tentem sugerir uma explicação para o mistério que criaram, já que a questão central da obra é a complexidade psíquica de seus heróis, anti-heróis e “vilões” (se é que alguém aqui pode ser visto como vilão), que encaram a dor que dividem não como um fardo, mas como parte do que tiveram e perderam, reconhecendo, de modo geral, que abrir mão deste sofrimento seria desistir também da memória de tudo aquilo que tanto amavam.

15 de Abril de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.