27 ANOS

1922

★★★☆☆3/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Zak Hilditch. Com: Thomas Jane, Molly Parker, Dylan Schmid, Kaitlyn Bernard, Neal McDonough, Tanya Champoux, Brian D’Arcy James.

Stephen King não se tornou um dos principais representantes do Horror nas últimas décadas por acaso: embora vários de seus livros recaiam na prolixidade, há um componente inegável de força e universalidade nos pesadelos que descrevem. Aliás, assim como Edgar Allan Poe, seu precursor espiritual, King comumente constrói histórias nas quais o terror pode até vir de fontes sobrenaturais, mas é realmente encontrado na alma atormentada ou corrompida dos personagens. John Coffey podia ter poderes inexplicáveis em À Espera de um Milagre, mas o horror vinha do sadismo do carcereiro Percy; monstros pavorosos podiam estar invadindo o mundo em O Nevoeiro, mas nenhum superava a monstruosidade da evangélica Sra. Carmody; Carrie podia ser paranormal, mas anormais eram os bullies da escola.

E em 1922, mais recente adaptação de uma obra do escritor, podemos até ver espectros deformados e ameaçadores, mas nada que choque mais do que o ato frio e cruel, movido a ganância, cometido pelo fazendeiro Wilfred James (Jane): frustrado diante da insistência da esposa Arlette (Parker) para vender as terras que esta herdou do pai, Wilfred convence o filho Henry (Schmid) a ajudá-lo a matá-la. Depois do assassinato, porém, a vida dos dois homens se torna uma sucessão de tensões e frustrações que se manifestam, em último grau, na infestação de ratos que toma conta da fazenda.

Obviamente funcionando como um conto de moralidade, 1922 é um pequeno estudo sobre culpa e (auto)punição que tem, como inspiração, contos clássicos de Poe como O Coração Revelador e, especialmente, O Gato Preto. Além disso, o próprio título da obra contém uma ironia óbvia, já que, ao estabelecer firmemente o ano em que os incidentes se passam, leva o espectador a constatar, desde o princípio, como toda aquela ganância será recompensada apenas pela destruição que chegaria poucos anos depois com a Grande Depressão. Assim, é um pouco decepcionante que o roteirista e diretor Zak Hilditch não tenha compreendido totalmente como os elementos sobrenaturais da trama atuam mais como alegoria do que como algo real, o que o leva a retratá-los sem qualquer ambiguidade, tratando-os como algo inquestionável (de outro modo, como, por exemplo, o espectro poderia saber o que aconteceria à distância e no futuro?).

Esta abordagem, diga-se de passagem, já é estabelecida nos primeiros segundos do filme, quando os velhos e clichês sussurros são ouvidos enquanto saímos do poço que se tornará importante nos minutos seguintes – e, da mesma maneira, quando Wilfred pensa ter visto o fantasma da esposa sob o batente de uma porta, Hilditch e o montador Merlin Eden prolongam o plano por um tempo excessivo e que elimina a possibilidade de ter sido um ato falho visual ou mesmo uma alucinação momentânea. Além disso, a trilha composta por Mike Patton, com seus violinos dissonantes e incômodos, é tão carregada de convenções do gênero que qualquer confusão possível entre o suspense e o horror é excluída da interpretação por parte do público. Já de um ponto de vista puramente técnico, 1922 às vezes beira o vergonhoso – e o plano geral que apresenta a cidade no início da narrativa é um dos exemplos mais ridículos do uso recente do greenscreen, praticamente gritando a natureza digital do lugar e o fato de os figurantes estarem dentro de um estúdio (a fotografia, claro, contribui para o fracasso do efeito ao não conseguir ajustar a luz interna àquela criada para o “cenário”).

Ancorado por uma performance curiosa de Thomas Jane, que aqui aparece em sua terceira adaptação de um texto de Stephen King (antes desta, vieram o ótimo O Nevoeiro e a bomba O Apanhador de Sonhos), 1922 traz o ator com uma dicção marcada pelos dentes sempre cerrados e pelo físico magro, além do forte sotaque sulista – uma composição tão carregada que, por alguns bons minutos, a impressão é a de que arruinará o filme ao seu redor, sendo fascinante observar como aos poucos ela se revela multifacetada (é interessante, por exemplo, como ele demonstra um carinho para com o cadáver da esposa que nunca se preocupou em exibir quando esta se encontrava viva).

Em contrapartida, o jovem Dylan Schmid alcança resultados menos eficazes à medida que seu personagem passa pelas crises que o definem – e é tão difícil acreditar que se deixaria convencer tão facilmente a matar a mãe quanto é aceitar suas mudanças mais radicais na segunda metade da história. Além disso, o rapaz não consegue definir se Henry tem medo do pai (o que é sugerido por seu impulso de dizer que se controlará) ou se o encara como uma criatura insignificante, o que representa um problema grave para entendermos suas motivações. Para finalizar, se o ótimo Brian d’Arcy James é desperdiçado como o xerife da cidade, a normalmente competente Molly Parker transforma Arlette numa caricatura antipática, o que afasta o espectador quando este deveria lamentar o destino da personagem em vez de apenas condená-lo moralmente.

De todo modo, 1922 se mostra bem mais instigante ao adotar os ratos como uma representação física da culpa que devora o protagonista e ao representar sua degradação moral e psicológica através da destruição gradual da própria fazenda. Aliás, é uma estratégia boa o suficiente para me levar a perdoar a produção pela referência desastrosa a O Poderoso Chefão e que, ao tentar recriar um momento-chave daquela obra-prima, transforma momentaneamente o drama de Wilfred em uma mera piada.

Produção original da Netflix, esta adaptação não é espetacular ou particularmente memorável (especialmente no ano de It – A Coisa), mas está muito acima de vários dos desastres que Stephen King acidentalmente já inspirou no Cinema.

04 de Novembro de 2017

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
3.0
★★★☆☆

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Avaliações dos Usuários

Larissa
Larissa13 de dez. de 2017

*Opa, close, não. Os exemplos do meu comentário são zoom in/travelling em câmera lenta, né? (:

Larissa
Larissa13 de dez. de 2017

Oi, Pablo! (: Uma pessoa que, claramente, não chegou a ler o seu texto me disse que você tinha achado o filme excelente. Respondi com um incrédulo "ué..." e vim ler. Você não disse nada disso! Vou postar um comentário que fiz em uma rede social, mas queria dizer logo que já vim esperando sua observação sobre a referência a O Poderoso Chefão. Menino, a risada alta que eu dei nessa cena... Acho até que valeu a pena de assistir à essa referência tosca. Concordo plenamente sobre a inconsistência do personagem Henry. Para piorar, também achei a performance do ator bem ruim. No livro a Arlette é até mais antipática, mas vi isso como uma forma do Stephen jogar com a questão moral, em um primeiro momento, em meio às tensões psicológicas e às manipulações. Posteriormente, King também chega à conclusão moral de que nada justificaria um ato daquele. Não gosto de fazer comparações específicas entre fonte e adaptação (e sim ver a obra cinematográfica pelo que ela é), mas quis comentar sobre isso, porque o Zak optou por abrandar nesse aspecto, mas deixou uma grande lacuna no desenvolvimento do filho, como você observou. Ele se perdeu nas escolhas que fez, pois as mudanças que fez nesse ponto não adicionaram profundidade aos personagens (fugindo de tendências maniqueístas da narração do protagonista), mas sim deixaram o filme em um "nem lá, nem cá" confuso e mal desenvolvido. Mais uma excelente análise (rica em informações e precisa nos apontamentos) em um texto gostoso de ler. Um abraço!! Minhas impressões gerais sobre o filme: Que pena. Eu tenho uma mente muito aberta para adaptações de livros, mas essa não chega nem perto da tensão, do horror e do impacto da história escrita pelo Septhen King. Tem seus bons momentos (as cenas com os ratos foram um destaque), mas a direção se entrega rapidamente à clichês que começam incômodos e que, depois, passam a ser insuportáveis. Um exemplo? MUUUUUUITOOOS. CLOOOOSEEES. EEEEEM. CÂÂÂÂMEEEERAAAA LEEEEEENTAAAA. Poxa, há muitas formas mais inventivas e eficientes de transmitir as mensagens que ele queria, mas o diretor agarrou essa muleta visual e não largou mais. Outro ponto que me incomodou foi a já conhecida trilha estridente de cordas. O problema não foi utilizar a mesma, mas sim se apoiar nela para aumentar uma tensão que não existia, justamente porque o diretor não fez o dever de casa. Aumentar o volume da trilha não vai adiantar, companheiro. Apesar das mudanças em relação à obra original - algo natural em qualquer roteiro adaptado - parecia que esse roteiro, especificamente, estava mais preocupado em marcar a lista de acontecimentos principais da história original do que em conduzir o espectador por uma viagem psicológica (sobre como a deterioração emocional e mental podem se retroalimentar e corroer a existência humana). O grande desapontamento aqui é a fraqueza da direção e do roteiro na tarefa de passar o impacto que a história merece e de fazer o espectador se importar com os personagens. Muitos diálogos são jogados ao vento. Não tive a oportunidade de entrar na mente do Wilfred e muito menos de me aproximar a algum outro personagem. Sobre o elenco, a atuação do Dylan Schmid me fez sofrer, não pela história, mas porque foi ruim mesmo. Até torci pelo ator e rolou momentos que pensei "agora ele paga no tranco!", mas nada acontecia ou melhorava, feijoada. Thomas Jane e Neal McDonough fizeram o melhor que podiam com o roteiro que tinham e desenvolvem boas performances. Fico com um 5.5/10. Como disse, é uma pena. P.S. Agora vi que o diretor também assina o roteiro. Isso explica muita coisa.