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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
22/02/2018 25/12/2017 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Universal

Trama Fantasma
Phantom Thread

Dirigido e roteirizado por Paul Thomas Anderson. Com: Vicky Krieps, Daniel Day-Lewis, Lesley Manville, Sue Clark, Camilla Rutherford, Gina McKee, Brian Gleeson, Harriet Sansom Harris, Phyllis MacMahon, Richard Graham, Emma Clandon, Julia Davis, Sarah Lamesch, Jane Perry.

Ela entra em sua vida em um tropeço desajeitado; o rosto, bochechas rosadas pelo frio, registra sua presença e o presenteia com um sorriso tímido antes de sair do salão carregando várias bandejas sujas. Novamente sozinho, ele quase ri para si mesmo enquanto olha pela janela, sem saber ainda o que está sentindo exatamente – uma constatação que chega segundos depois, deixando-o com um ar confuso sob a luz quente do sol do início da manhã que entra pela janela e o transforma quase numa silhueta recortada, com seu perfil clássico, o nariz aquilino e o queixo projetado para a frente. Naquele instante, ele percebe que descobriu algo importante, algo que lhe faltava. O nome da garota? “Alma”.

Reynolds Woodcock (Day-Lewis) é um homem desesperadamente em busca de uma musa. Estilista renomado na Inglaterra do início dos anos 50, ele está acostumado a vestir milionários, aristocratas, princesas europeias. Mas agora, depois de entregar sua última encomenda, ele se encontra vazio. “(O vestido) valeu tudo que passamos”, suspira sua cliente baronesa, fazendo o processo soar como uma batalha – e para alguém exigente como Woodcock, é. Habitualmente acompanhado da irmã (e sócia/administradora/conselheira/protetora), o sujeito, que deveria sentir prazer diante do que realiza e do que alcançou, expressa uma angústia indefinida: “Eu tenho um sentimento incômodo; não consigo identificar qual”. Cyril (Manville), a irmã, já acostumada com os humores do caçula, sugere que este passe alguns dias em sua casa de campo – e é durante esta viagem que ele conhece Alma (Krieps), a jovem estrangeira atrapalhada e “comum” que inesperadamente o arrebata e o inspira a criar novos vestidos com tecidos que há muito guardava para um momento que jamais chegava.

Há algo de Pigmalião em sua relação com a garota, obviamente – e é revelador como, já em seu primeiro encontro supostamente “romântico” com Alma, Woodcock já a converte em manequim, resumindo-a a medidas e observando, casualmente, como seus seios são minúsculos. “É minha função torná-los maiores... caso eu decida fazê-lo”. Surpreendida com a observação, a oferta e a imposição, Alma acaba por sentir-se lisonjeada diante da atenção – e não há dúvidas de que, naquele instante, ela é seu foco absoluto -, revelando-se uma manequim elegante e inata, posando por horas enquanto ele costura sua arte sobre seu corpo. Por outro lado, Alma é também uma criatura de espírito forte e desafiador, recusando-se a permanecer calada ao se sentir desafiada ou ofendida, o que eventualmente provoca irritação em Woodcock, que parece preferi-la enquanto mármore.

Concebido por Daniel Day-Lewis como um indivíduo que vive para o trabalho, o estilista não esconde da nova companheira sua condição de “solteirão convicto”, afirmando que o casamento o tornaria “desonesto” (não pelas tentações representadas por todas as modelos ao seu redor, mas por saber que seu amor é integralmente voltado para suas criações). O mais interessante, porém, é notar como, determinado a projetar uma constante imagem de força, Woodcock tem suas fragilidades sugeridas por Day-Lewis aqui e ali, seja por um olhar de insegurança momentâneo, por um tremor na voz já rouca ou – numa excelente decisão de Paul Thomas Anderson – ao se permitir flagrar em seu ritual matutino logo no início da projeção, quando o vemos construindo a armadura que exibirá ao mundo durante o dia enquanto cuidadosamente apara pelos do nariz e do ouvido e veste as várias camadas de roupa que o transformam numa marca.

Enquanto isso, Lesley Manville compõe Cyril como uma mulher cujo olhar rigoroso lembra o do irmão ainda que seja capaz de projetar frieza bem maior – pontualmente amenizada por breves sorrisos de cumplicidade momentânea. Pois o que torna Cyril ainda mais fascinante como personagem é a maneira como – mesmo de forma discreta, quase invisível – permite que percebamos sua compaixão para com as “musas” do irmão mesmo que esta seja manifestada sob um verniz de crueldade (como ao comentar que uma delas “está ficando gorda esperando que você volte a se apaixonar” ou ao desaconselhar Alma a surpreender o amado). Além disso, ainda que indubitavelmente dedicada a Woodcock, Cyril faz questão de alertá-lo para que não a subestime ou a encare como uma subalterna – e reparem no tom gelado e ameaçador com que aconselha o sujeito a não provocá-la e perceberão como Manville modula com segurança absoluta a personalidade da mulher.

E, no entanto, a protagonista de Trama Fantasma não é nenhum dos dois responsáveis pela “Casa de Woodcock”, mas Alma: é sua jornada emocional e psicológica que o filme usa como fio condutor da narrativa e são suas ações que influenciam com maior peso os demais personagens. Inicialmente deslumbrada diante da atenção que recebe do estilista, ela ainda assim jamais esconde sua irritação nos momentos em que este a humilha, conscientemente ou não. É notável, aliás, como Vicky Krieps jamais se deixa ofuscar por Manville ou por Day-Lewis, dois intérpretes consideravelmente mais experientes, exibindo também uma expressividade impressionante – tanto ao demonstrar a felicidade de Alma ao sentir-se única ao receber atenção de Woodcock quanto ao projetar um olhar de desapontamento e solidão ao perceber-se negligenciada. Ao mesmo tempo, Alma jamais se submete ao domínio que o amado tenta exercer como se fosse algo esperado, recusando-se a seguir o conselho de Cyril para abrir mão de seu lugar à mesa e abordando uma cliente para deixar claro que, mesmo relegada a segundo plano, pertence àquela Casa.

Reconhecendo com inteligência os instantes nos quais o companheiro se encontra fragilizado, Alma emprega-os mais como oportunidade de fortalecer sua posição do que apenas para ampará-lo; se o ampara, é para que este perceba como dela depende mais do que gostaria de admitir. Ao mesmo tempo, seu orgulho diante do que Woodcock cria é algo que o encanta por alimentar seu ego, não sendo surpresa que um de seus primeiros gestos impulsivos de afeto surja como resultado da defesa que Alma faz de um de seus vestidos diante de alguém que não considera digno de usá-lo. Aliás, é a dinâmica continuamente em movimento entre os dois que move a narrativa de Trama Fantasma, sendo instigante acompanhar, por exemplo, o protesto infantil de Woodcock ao vestir colete e terno sobre o pijama a fim de manifestar sua irritação ou a explosão de Alma diante desta atitude, quando as palavras saem emboladas de sua boca, mas não menos contundentes.

Apresentando-se provavelmente como o filme mais narrativamente convencional de Paul Thomas Anderson desde sua estreia em Jogada de Risco, Trama Fantasma é um filme que constantemente leva o espectador a perceber o que encanta ou incomoda seus personagens sem depender de diálogos expositivos, empregando o design sonoro para ressaltar os ruídos feitos por Alma durante o café da manhã ou um lento travelling que, aproximando-se do casal no sofá, expõe uma alteração importante na postura do estilista ao tirar do quadro, aos poucos, o vestido de casamento que normalmente seria seu foco absoluto. E se Anderson consegue extrair sensualidade não do ato de despir-se, mas da maneira como Woodcock veste Alma, esta subversão narrativa pode ser constatada também na excepcional trilha composta por Johnny Greenwood, que não se limita apenas a ilustrar a ação, fazendo questão de comentá-la – seja nas harmonias clássicas que acompanham as atividades da Casa de Woodcock, quase como se as enxergassem como ambientadas em uma corte real, seja na microfonia incômoda que surge quando o casal se desentende.

Mergulhado em tons edípicos que me fazem suspeitar que Paul Thomas Anderson só utilizou o título Trama Fantasma porque mãe! já havia sido tomado, o filme acaba se apresentando como uma combinação de narrativa de câmara e estudo de personagem, levando o espectador a compreender gradualmente como a oscilação entre vulnerabilidade e força é parte essencial da dinâmica de um casal formado por duas personalidades fortes, mas entre as quais apenas uma é madura o bastante para compreender o que é necessário para mantê-las em equilíbrio. E é esta epifania que eleva o longa a uma dimensão absurda e brilhante.

Sim, Alma sabe que Woodcock exige todos os seus pedaços, mas compreende também que sentir-se frágil e dependente é a única coisa capaz de devolvê-lo à posição infantil que o remete ao amparo materno do qual tanta falta sente – e que o leve a abraçar sua solução radical e a encará-la como um gesto definitivo de romantismo é algo que converte o casal em um dos mais fascinantes que o Cinema já nos apresentou.

07 de Março de 2018

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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