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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
15/02/2018 13/02/2018 4 / 5 5 / 5
Distribuidora
Disney

Pantera Negra
Black Panther

Dirigido por Ryan Coogler. Roteiro de Ryan Coogler e Joe Robert Cole. Com: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Winston Duke, Sterling K. Brown, Florence Kasumba, Isaach De Bankolé, Denzel Whitaker, Andy Serkis, Forest Whitaker e Angela Bassett.

Quando eu tinha cerca de 17 ou 18 anos de idade, lembro-me de assistir à comédia romântica O Príncipe das Mulheres, protagonizada por um Eddie Murphy que acabara de encerrar uma década de sucesso absoluto, e sentir um estranhamento que só depois de algum tempo percebi vir do fato de que, ambientado em um universo povoado por indivíduos ricos e bem-sucedidos, trazia essencialmente atores negros em todos os papéis importantes. Foi, confesso, um choque que me despertou ainda mais para o racismo histórico e institucional de nossa sociedade – e que me fez refletir, também, sobre como os espectadores negros deviam se sentir diante de basicamente todo o restante da produção cinematográfica, já que a norma era (e, infelizmente, ainda é) contar histórias centradas em personagens brancos mesmo quando a cor de suas peles não desempenha qualquer função na narrativa.

É difícil, portanto, mensurar a importância de uma obra como Pantera Negra, que, mesmo não sendo o primeiro longa do gênero protagonizado por um super-herói negro (Blade, Homem Meteoro, Spawn e Mulher-Gato vieram antes, por exemplo), é definitivamente o primeiro a ter tratamento de superprodução, elenco e equipe negros, contar com uma verba de marketing multimilionária e ter, como resultado, a oportunidade de atingir um público colossal ao redor de todo o planeta. Que ainda seja um filme tão bom é um bônus mais do que bem-vindo.

Escrito por Joe Robert Cole ao lado do diretor Ryan Coogler, o roteiro acompanha T’Challa (Boseman), que, depois da morte do pai, assume o trono de Wakanda e o posto de Pantera Negra, tornando-se responsável pela nação composta por cinco tribos e que conta com uma tecnologia avançadíssima graças à presença do metal vibranium – tecnologia que é mantida em segredo do restante do planeta para evitar tentativas de invasão movidas por interesse pelo raro material. Quando o mercenário Ulysses Klaue (Serkis) tenta vender certa quantidade de vibranium roubada há tempos, T’Challa parte numa missão para detê-lo, sendo auxiliado por Okoye (Gurira), comandante de sua guarda pessoal, pela espiã Nakia (Nyong’o) e por Shuri (Wright), que, além de ser responsável pela sofisticada tecnologia de Wakanda, é também sua irmã. É então que surge em cena Erik “Killmonger” (Jordan), um ex-militar norte-americano que, possuindo ligações particulares com Wakanda, mostra-se decidido a derrotar T’Challa em um combate ritualístico e tomar o trono da nação.

Assumindo um caráter político simplesmente ao imaginar Wakanda como um território africano que jamais foi vítima de colonização, Pantera Negra permite que a designer de produção Hannah Beachler e a figurinista Ruth Carter concebam o reino como um lugar que combina uma cultura intocada pelos brancos europeus e a alta tecnologia propiciada pelo vibranium – e, assim, temos naves futurísticas cujos formatos remetem a máscaras tribais e mantos que se tornam escudos poderosos, além de figurinos multicoloridos que criam um contraste plasticamente belíssimo com as rochas por trás de seus donos durante sequências como a da coroação do protagonista. Além disso, Beachler e Carter se empenham em distinguir visualmente as cinco tribos, que vão de cidades dominadas por arranha-céus a cabanas rústicas que se projetam de rochedos tomados por neve, ao passo que a trilha composta por Ludwig Göransson é inteligente ao incluir percussões e ritmos tipicamente associados ao continente sem reduzi-la a uma coleção de clichês melódicos ofensivos.

Há, claro, os problemas habituais que percorrem basicamente todos os capítulos do Universo Estendido Marvel: a necessidade de enfiar sequências de ação na narrativa a cada 20/25 minutos, mesmo que estas surjam de maneira inorgânica, e o fato de estas serem obrigatoriamente absurdas a ponto de forçar a substituição dos atores por bonecos digitais que jamais soam convincentes, transformando o filme pontualmente em cut scenes de videogames (o mesmo se aplicando aos rinocerontes wakandianos). Por outro lado, a direção de Ryan Coogler é hábil ao conferir peso às cenas dramáticas e ao pontuá-las com humor sem que este se torne forçado, trazendo também energia às lutas e perseguições por mais que estas soem como imposição contratual – e é notável como o jovem cineasta vem exibindo versatilidade como realizador, já que, em tom, temas e estilo, seus três longas não poderiam ser mais diferentes uns dos outros (os anteriores foram Fruitvale Station e Creed).

Ancorado pelo carismático e imponente Chadwick Boseman, que encarna bem a determinação e os conflitos internos do personagem-título, Pantera Negra tem em seu elenco feminino, contudo, sua maior força: se Danai Gurira estabelece Okoye como uma guerreira cuja superioridade física e moral é sempre evidente, Letitia Wright converte Shuri em uma cientista cujo intelecto é rivalizado apenas por seu bom humor, enquanto Lupita Nyong’o deixa claro desde o princípio que sua Nakia pode ser o interesse romântico do herói, mas jamais se deixa definir por isto, apresentando-se como uma mulher forte e independente que tem suas missões como prioridade absoluta. Para completar, o filme ainda traz Angela Bassett como Ramonda, que, longe de ser apenas mãe do protagonista, é também o centro moral e emocional que guia suas atitudes.

Já os homens da trama são retratados com um pouco menos de complexidade, já que Forest Whitaker pouco pode fazer como um personagem cuja principal função é a exposição e Andy Serkis vive uma caricatura de insanidade (o que, devo apontar, é obviamente a proposta por trás de Klaue, não sendo culpa do ator o fato de encarná-lo tão bem). Isto é mais do que compensado, em contrapartida, pelo vilão interpretado por Michael B. Jordan, parceiro habitual do diretor, que eleva Killmonger quase à posição de anti-herói. Motivado não por ambições megalomaníacas ou (apenas) por vingança, o sujeito ressente a omissão de Wakanda diante do sofrimento das populações negras em todo o mundo, mostrando-se determinado a empregar o vibranium para patrocinar uma verdadeira insurreição racial em larga escala – e é particularmente relevante que ele demonstre admiração irrestrita por seus antepassados que saltaram dos barcos que os levavam da África rumo à escravidão, preferindo o afogamento à servidão. Aliás, é justamente por revelar uma empatia tão grande pela causa de Killmonger que não deixa de ser decepcionante que o roteiro sinta a necessidade de incluir não apenas um personagem branco entre os heróis, mas um que pertence à mesma CIA que tanto interferiu (e interfere) nas democracias africanas para beneficiar os interesses norte-americanos – e não é à toa que o agente interpretado por Martin Freeman parece sempre deslocado e descartável na narrativa.

Encontrando espaço para uma alfinetada nada sutil nas políticas nacionalistas de Donald Trump na cena que surge durante os créditos finais, Pantera Negra é um filme importante por sua representação, mas que não se define apenas por isso – e sua coragem me leva a admirar ainda mais, em retrospecto, a exibida por Eddie Murphy no auge de sua carreira, já que usou sua influência não apenas para viabilizar O Príncipe das Mulheres, mas também outras produções com elencos predominantemente negros, como Um Príncipe em Nova York, Os Donos da Noite, Um Distinto Cavalheiro e Um Vampiro no Brooklyn. Um esforço que, independentemente da qualidade de cada um destes projetos, provavelmente prejudicou sua carreira.

E é motivo de otimismo que o sucesso de Pantera Negra indique que os tempos finalmente parecem estar mudando. Que continuem nessa direção.

Observação: como de costume, há cenas adicionais não apenas durante os créditos finais, mas depois destes.

08 de Março de 2018

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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