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Aniquilação

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Alex Garland. Com: Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Tessa Thompson, Gina Rodriguez, Tuva Novotny, David Gyasi, Benedict Wong e Oscar Isaac.

Todas temos problemas”, diz a geomorfóloga Cass Sheppard ao analisar por que se ofereceu, ao lado de quatro outras mulheres, para uma missão considerada suicida. Aliás, a fala original em inglês é ainda mais significativa – We’re all damaged goods” -, sugerindo danos emocionais e psicológicos bem mais graves do que problemas”. É uma cena breve, mas essencial na compreensão de Aniquilação, já que sintetiza alguns dos principais temas do filme: a depressão, o suicídio e nossa tendência à autodestruição através de gestos e decisões que reconhecemos como potencialmente devastadores.

Estes temas, contudo, vêm enxertados em uma trama de ficção científica intrigante adaptada pelo diretor Alex Garland a partir de um livro de Jeff VanderMeer: depois que um meteorito atinge um farol no sul da Flórida, uma espécie de “bolha” se forma sobre a região, passando a expandir-se. Chamada de “O Brilho” e delimitando a misteriosa “Área X”, esta barreira se revela uma passagem de mão única, já que ninguém que a atravessa consegue retornar – com exceção do sargento Kane (Isaac), que, depois de um ano desaparecido, surge subitamente diante da esposa Lena (Portman). Fisicamente afetado pela experiência, ele entra em coma, levando Lena a se oferecer para acompanhar a expedição seguinte à Área X a fim de tentar encontrar alguma forma de curá-lo, juntando-se à psicóloga Dra. Ventress (Leigh), à paramédica Anya Thorensen (Rodriguez), à física Josie Radek (Thompson) e à já mencionada Cass Sheppard (Novotny) – uma missão que sabemos ser mal-sucedida, já que a narrativa é estruturada em torno do interrogatório de Lena, a única a retornar (o homem que a questiona é vivido por Benedict Wong).

Segundo longa dirigido por Garland, Aniquilação consegue criar uma atmosfera inquietante similar ao do primeiro, o excepcional Ex Machina, levando o espectador a experimentar a sensação de que algo grave está prestes a acontecer mesmo que não saiba exatamente o quê – uma impressão reforçada pela ótima trilha sonora de Geoff Barrow e Ben Salisbury, que criam composições que gradualmente trocam a melodia por acordes eletrônicos atonais, criando um contraste importante com duas músicas que acabam desempenhando um papel fundamental na narrativa: “Helplessly Hoping” (do grupo Crosby, Stills & Nash) e “The Mark” (do grupo de música eletrônica Moderat), que aqui cumpre um papel relativamente similar ao dos cinco tons de Contatos Imediatos do Terceiro Grau ao se identificar como um som melódico alienígena.

Esta inquietação, porém, não elimina a beleza do mundo criado pelo Brilho; mesmo a barreira em si surge bela como a superfície de uma bolha de sabão – ainda que os tons roxos dominantes levem o público a pressentir os perigos ali contidos (e que surgem também nos raios de sol que atravessam as árvores depois de refratados pela barreira). Neste sentido, por sinal, é bom reparar como a fotografia de Rob Hardy contrapõe as cores intensas da Área X à paleta dessaturada e fria das cenas que enfocam o interrogatório de Lena. Do mesmo modo, Garland e Hardy reforçam a atmosfera claustrofóbica em torno da protagonista ao frequentemente a retratarem cercada por limites físicos, sejam estes representados por divisórias da parede ou por batentes de portas e janelas. Este “confinamento” estabelece uma rima temática com os planos nos quais Lena é vista emoldurada por elementos inesperados como a bocarra de um jacaré, pela entrada de um túnel ou por uma espécie de vórtex de origem indeterminada.

Outro motif significativo, diga-se de passagem, encontra-se nos planos que trazem Lena produzindo reflexo em alguma superfície (concidentemente, discuti a importância simbólica dos reflexos ao escrever sobre Cisne Negro, também protagonizado por Portman), sendo igualmente marcantes aqueles que nos mostram as mãos de dois personagens através de um copo com água que provoca uma distorção em função da refração da luz (e se esta é a segunda vez que menciono este fenômeno neste texto é porque se trata de algo relevante na narrativa). E já que mencionei motifs, devo apontar também como aquele plano do copo no primeiro ato acaba por criar uma bela rima com outro no terceiro, quando, num plano-detalhe, vemos a água na superfície do copo se movendo e criando a impressão de uma fusão entre dois elementos).

Impecável também em seu design de produção, que explora bem os efeitos do Brilho sobre os ambientes que toca, Aniquilação cria um mundo multicolorido que, apesar da vivacidade de sua paleta, jamais deixa de soar ameaçador – especialmente na maneira como cria híbridos entre espécies, resultando em monstros aterradores. Enquanto isso, a montagem de Barney Pilling investe numa cronologia quebrada que ressalta a desorientação temporal das próprias personagens e que passa a ser experimentada também pelo espectador.

E por falar nestas, é importante reconhecer o ótimo trabalho das cinco personagens centrais: Natalie Portman, por exemplo, convence plenamente como uma soldado-cientista, levando-nos a ignorar seu físico frágil ao mesmo tempo em que expressa com sensibilidade suas dores emocionais, ao passo que Jennifer Jason Leigh encarna a dra. Ventress com uma mais do que adequada frieza que reflete sua determinação para chegar no farol e desvendar o que há por trás dos fenômenos. Já Tessa Thompson oferece uma performance diametralmente oposta àquela de seu trabalho anterior, Thor: Ragnarok, transformando Josie na integrante mais frágil do grupo (o que não compromete suas inteligentes avaliações sobre a situação na qual se encontram), enquanto Gina Rodriguez vai na contramão ao projetar força e raiva como Anya. Para completar, a sueca Tuva Novotny combina firmeza e doçura como Cass, convertendo-a na pessoa mais madura da missão. Fechando o elenco, Oscar Isaac pouco pode fazer como Kane além de retratar sua inexpressividade misteriosa e, mais tarde, sua desintegração física (dito isso, sua química com Portman é inegável).

Adotando o ouroboros como um símbolo temático da narrativa (ele surge no antebraço de Lena e de um cadáver deformado que o grupo encontra, por exemplo), o filme busca discutir a tendência de muitos à autodestruição e mesmo ao suicídio (e a diferença entre os dois) ao criar paralelos entre estas ações e as células que, multiplicando-se descontroladamente, transformam a criação de vida em um caminho para a morte através do câncer – algo que Garland expõe de maneira um pouco óbvia demais ao trazer Lena lendo o ótimo livro de Rebecca Skloot sobre Henrietta Lacks e suas células “imortais” que até hoje são usadas por cientistas em seus laboratórios, sendo chamadas de HeLa). Ao mesmo tempo, a depressão surge como motivador importante na decisão das personagens de se oferecerem para uma missão suicida, tampouco sendo coincidência o fato de Lena dizer para um desacordado Kane que sabe porque este entrou na Área X (algo que descobriremos ao longo da narrativa). Além disso, é particularmente tocante notar como a protagonista, tomada pela mais profunda depressão, decide pintar o quarto de branco como forma de tentar se livrar do peso que a acompanha apenas para ser impedida pelo retorno de um Kane vestido de preto, numa representação física do modus operandi da doença.

Amarrando todos estes temas ao abordar as transformações pelas quais as personagens passam em função de incidentes traumáticos, do câncer, do alcoolismo e da depressão, Aniquilação mais uma vez entrega a chave interpretativa da narrativa na cena mencionada no início deste texto e que também é verbalizada por Cass Sheppard, que, ao falar sobre a morte da filha, explica que sofreu duas perdas: “De certa maneira, são dois lutos: minha linda filha e a pessoa que eu era”. Esta visão é replicada mais tarde pela dra. Ventress ao afirmar “Se eu não chegar ao farol logo, a pessoa que começou a jornada não será a mesma que a terminará” – e não é à toa que uma das últimas imagens do filme traz duas pessoas vestidas de branco se abraçando apenas para que, com um travelling lateral, a câmera passe a enfocá-las através de um vidro que torna suas roupas azuis, alterando-as diante de nossos olhos.

Seja como for, mesmo aqueles que não encontrarem algum sentido na obra poderão dizer que a entenderam de certo modo, já que outra ideia que Aniquilação abraça é nossa dificuldade de encontrar respostas para as grandes questões do universo e de nossa existência. Uma dificuldade sintetizada nos vários momentos em que os personagens expressam sua ignorância diante destas perguntas através de três curtas palavras:

Eu não sei.

15 de Março de 2018

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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Avaliações dos Usuários

Lucas
Lucas1 de out. de 2018

Outra bomba na Netflix, a Paramount deu foi sorte de conseguir passar a bomba pra frente. É uma das piores obras do catálogo, junto com ProxPró Parada: Apocalipse. Os coadjuvantes sao bem rasos, pelo tamanho do evento sinistro que tá acontecendo nao tem histórias pralelas e desde o início a gente sabe que é algo que veio do céu, mas os cientistas que motimoram o planeta nao sabem. Por mais que seja abstrata a ideia, e preciso manter uma parcela de realidade e decisões sensatas. A ideia é realmente muito boa, pena que a execução é um desastre. Disseram que era uma área escondida pelos EUA, mas não tinha nada ao redor pra essa proteção. Como outros disseram seria bem mais sensato uma aproximação pelo ar ou pelo mar, já que por terra nao deu certo. Uma coisa daquelas, a 3 anos aumentando misteriosamente e parece que o governo não da a mínima, você não sente nenhum senso de preocupação, de grandeza, de fantástico com aquilo. A base na frente parece ter meia dúzia de pessoas. E as mulheres entraram exclusivamente pra morrer, ok isso entendi. Mas e sério que nao havia nenhuma motivação para descobrir o que era, nenhuma misera curiosidade, ainda mais sendo cientistas? Não levaram equipamentos pra realizar testes, nem material para nada, e talvez nem levaram munição para as armas (e olha que só levaram fuzis). Aquelas câmeras utilizadas, sério aquilo? Nenhuma GoPro pelo menos? Nenhuma delas tentou fazer nada la dentro, alem da Lena, que em determinado momento tenta procurar a outra que foi levada pelo urso porque talvez ela esteja viva. A Paramedica, tenta ir com ela e ela não deixa, ou seja se ela tivesse encontrado a outra viva, a única delas que podia ajudar seria a Paramédica, ou seja ABSURDO. Parece um bando de amadores caipiras tentando invadir a área 51. E por falsr na paramedica, ela pira com a outra que morreu, como se ela nao lida-se com a morte diariamente, e o pior, ela assiste ao video e diz que aquilo é efeito de luz (WTF? Achei que ela disse isso pra não assustar as outras, eé qu ela seria a mais forte e sensata, porém depois percebe se que nao, foi a unica a pirar). Quem autorizou que elas entrassem assim? Todas cientistas altamente inteligentes tomando decisões imbecis. Elas mal sabiam atirar. Quando o filme dá uma pouco de espaço pra física la mostrar a que veio, ela vira planta. Mesmo a psicóloga fazendo parte do governo, ninguém iria autorizar ela com câncer entrar (talvez nem deixasse ela trabalhar com a cintilação assim). É tanta coisa insensata, decisões mal pensadas, sacadas bizarras, nenhuma reviravolta e nenhuma inteligência envolvida que você não sente empatia pelos personagens, tal como aquelas personagens de filme de terror. A única coisa que segura o filme é o mistério, com as cores e efeitos bem elaborados, mesmo que o CGI não seja um primor. Acabei entendendo o conjunto da história, mas é tanto buraco que atrapalha tudo. Bem arrastado, mas você assiste esperando que melhore. De resto, parece que teve uma preguiça de amarrar o roteiro e as ideias, e por fim deram aquela velha desculpa de "deixar a interpretação aberta para quem assistir". Spectral conseguiu ser melhor que isso.

Paulo Pereira
Paulo Pereira27 de mar. de 2018

Eu vi um filme sobre um cancer. Um corpo estranho de dna alterado que cresce e destroi o hospedeiro. Vi as referencias disso por todo o filme e a maneira como cada personagem reage a essa situação. Alguns reagem com aceitação, raiva, depressão. E no meio disso a aceitação de que é preciso destruir para criar algo novo.

Railan Santos
Railan Santos22 de mar. de 2018

Ao que me pareceu, o Alien estava depurando um programa genético. O problema é o seu método.

Antoniorgr
Antoniorgr18 de mar. de 2018

Vale mencionar que a tatuagem do ouroboros vai surgindo no decorrer do filme em todos os personagens, acredito que como uma espécie de "marca" (mutação) a medida que o dna é refratado/fundido com o do alienígena. Como na própria cena da planta a personagem da Portman deixa explícito, todos são da mesma planta, só que diferentes. Quem tinha a tatuagem originalmente era um dos soldados, que no vídeo é morto/aberto pelo Oscar Isaac, acham o corpo dele na piscina cheio de plantas, ali dá pra ver a tatuagem direitinho. Depois, um a um, incluindo o próprio Isaac e por fim a Natalie Portman, acabam com essa tatuagem do ouroboros também no pulso.

Gilberto de Miranda Junior
Gilberto de Miranda Junior17 de mar. de 2018

Eu entendi isso assim: Kane é referência óbvia ao Alien de 1979. E o símbolo referencia "Ripley-8", que não por acaso tinha seu DNA misturado ao do Alienígena. Mas achei inspirada a tatuada de urso no peito de Oscar Isaac... No filme de 1979 quem ataca a tripulação da Nostromo também saiu do peito de Kane! No final tem até o Ovo... Gostei do inter-texto! Quanto ao método na loucura do Shimmer, para mim ele estava rodando um Algoritmo Genético (é um método de otimização) em tempo real.