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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
12/04/2018 01/06/2017 5 / 5 / 5
Distribuidora
Imovision

A Noiva do Deserto
La novia del desierto

Dirigido por Cecilia Atán e Valeria Pivato. Roteiro de Cecilia Atán, Valeria Pivato e Martín Salinas. Com: Paulina García e Claudio Rissi.

Durante 34 anos, Teresa (García) trabalhou como empregada doméstica para a mesma família argentina. Viu o filho único de seus patrões se tornar um adulto, registrou seu crescimento no batente da porta de seu quarto e jamais retornou ao seu Chile natal. E agora, com o casamento do rapaz, ela foi informada de que seus serviços não serão mais necessários, recebendo a opção de ir trabalhar na casa dos sogros do jovem – que fica em outra cidade. Resignada, ela inicia a viagem até que, depois que seu ônibus estraga, fica temporariamente presa em um vilarejo, conhecendo o caixeiro viajante El Gringo (Rissi).

Durando breves 78 minutos e contando uma história simples de maneira impecável em sua sensibilidade, A Noiva do Deserto é o filme de personagem por excelência, investindo cada cena, cada plano, na tarefa de tentar compreender quem é aquela mulher, o que a move e o que sonha – se é que sonha. Interpretada pela chilena Paulina García (tão brilhante em As Analfabetas), Teresa tem os olhos tristes e um rosto que se recusa a dar qualquer sinal do que passa em sua mente, indicando décadas de treinamento para anular-se ao morar, trabalhar e, consequentemente, dedicar 24 horas de sua vida, sete dias por semana, aos interesses de seus empregadores. Assim, quando a vemos se permitir uma lágrima enquanto se prepara para dormir em seu pequeno quarto ou um sorriso quando ouve uma gracinha do Gringo, o espectador se vê surpreso com uma reação que em qualquer pessoa seria trivial, mas que em Teresa é impactante como a explosão de uma bomba.

Contrapondo-se à tristeza de García, Claudio Risse transforma o Gringo em uma figura expansiva, sempre pronta a gargalhar e cujos elogios à beleza de Teresa soam – e isto é importantíssimo – sempre sinceros em vez de galanteios baratos e automáticos feitos por um homem disposto a tentar transar com qualquer mulher que surja em seu caminho. Quando o Gringo olha para a protagonista, acreditamos em seu encantamento e também em sua doçura.

Dirigido pelas estreantes Cecilia Atán e Valeria Pivato, o longa traz a protagonista essencialmente em todos os seus planos, mantendo a câmera próxima à atriz na maior parte do tempo – e quando se afasta, normalmente tem a intenção de ressaltar sua pequenez diante do ambiente (e da vida) ou a distância que mantém de outros personagens. Enquanto isso, a trilha composta por Leo Sujatovich é minimalista a ponto de ser quase inexistente, consistindo de poucas notas de piano melancólicas em um ou outro instante.

A Noiva do Deserto é, em suma, uma obra que transpira compaixão, demonstrando carinho e respeito pelos indivíduos que retrata por saber que, para uma pessoa cuja vida inteira cabe numa bolsa de mão, um encontro romântico em um banheiro sujo de um restaurante miserável pode representar um dos momentos mais felizes de sua existência.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017

26 de Maio de 2017

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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