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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
21/06/2018 22/06/2018 4 / 5 / 5
Distribuidora
Universal

Jurassic World: Reino Ameaçado
Jurassic World: Fallen Kingdom

Dirigido por J.A. Bayona. Roteiro de Colin Trevorrow e Derek Connolly. Com: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Ted Levine, Toby Jones, James Cromwell, BD Wong, Rafe Spall, Daniella Pineda, Justice Smith, Isabella Sermon, Geraldine Chaplin e Jeff Goldblum.

Desde que Steven Spielberg lançou o primeiro – e ainda o melhor – filme da série Jurassic Park, em 1993, nenhuma das continuações conseguiu resgatar a inventividade visual e a intensidade estabelecidas pelo cineasta (nem mesmo seu próprio O Mundo Perdido, talvez o mais fraco de todos). Isto se deve em boa parte às limitações dos diretores que vieram a seguir, Joe Johnston e Colin Trevorrow, que mesmo capazes de criar boas sequências de ação não possuíam um olhar estético mais apurado. Assim, este novo Jurassic World: Reino Ameaçado já começa com a vantagem de ser comandado pelo espanhol J.A. Bayona, cujo excelente O Orfanato se revela a inspiração ideal ao reconhecer que, em sua essência, esta franquia não pertence ao gênero “aventura” ou “ficção científica”, mas ao mais autêntico terror.

Com uma introdução que resgata o célebre Dr. Ian Malcolm (Goldblum), figura essencial nos dois primeiros capítulos, o roteiro escrito por Trevorrow (que aqui também assume o posto de produtor executivo) e Derek Connolly traz o matemático depondo diante de um comitê do congresso norte-americano encarregado de decidir se o país oferecerá ou não recursos para o resgate dos dinossauros que habitam a infame Isla Nublar, cujo vulcão voltou a se tornar ativo e encontra-se prestes a destruir toda a fauna da ilha. Obviamente contrário à ideia, Malcolm acaba convencendo os políticos, o que provoca frustração em Claire Dearing (Howard), que, depois de quase ser devorada no filme anterior, agora se tornou uma ativista pelos direitos dos animais. É então que o bilionário Benjamin Lockwood (Cromwell), antigo sócio de John Hammond (o criador do parque), se oferece para bancar a expedição, que, para ser bem sucedida, deve envolver também o antigo treinador dos velociraptors, Owen Grady (Pratt) – e se a trama parece não fazer muito sentido, é porque realmente não faz; por outro lado, ao menos desta vez os roteiristas não tentam nos convencer de que turistas iriam se arriscar a visitar o parque mais uma vez.

Não que a premissa de Reino Ameaçado seja o único problema do roteiro, que traz os vilões habituais do Cinema hollywoodiano pós-2008: os capitalistas que, hipnotizados pela possibilidade de lucros e poder, cruzam qualquer limite ético, mostrando-se dispostos até mesmo a... bom, melhor evitar os spoilers. Do mesmo modo, não deixa de ser curioso observar como os antagonistas favoritos de Hollywood nas décadas de 50 e 60 estão retornando ao topo da lista na era Trump: os russos, claro. Para piorar, Trevorrow e Connolly frequentemente apelam para o clichê e o óbvio em seus diálogos (“Você é um homem melhor do que acha”) – isto quando não estão martelando no espectador os temas que já haviam ficado mais do que claros (“Eles estão vivos como eu”). Por outro lado, o filme reconhece o erro de ter desperdiçado o timing cômico de Pratt em O Mundo dos Dinossauros, corrigindo-o ao permitir que o ator fuja um pouco do tipo durão e sério visto anteriormente.

Este papel, aliás, agora é assumido pela paleoveterinária Zia Rodriguez (Pineda), que mal contém sua impaciência diante da covardia frequente – e irritantemente caricatural – do analista Franklin (Smith), seu colega na ONG comandada por Claire. Esta, por sua vez, finalmente descarta os saltos altos que jamais abandonou no filme passado, não sendo acaso que, ao surgir em cena pela primeira vez, vejamos apenas seus pés doloridos que logo se tornam livres dos saltos usados em uma reunião, o que já sugere sua participação mais ativa na ação que virá a seguir (mesmo que não abandone completamente o tipo “mocinha em pânico” que tanto a limitou em O Mundo dos Dinossauros). Fechando o ótimo elenco, há ainda James Cromwell projetando um ar bondoso que não víamos desde Babe, Rafe Spall comprovando ser tão capaz quanto seu pai (Timothy) de viver personagens cínicos, Ted Levine demonstrando pela enésima vez como é subvalorizado por Hollywood e, claro, a sempre fantástica Geraldine Chaplin repetindo a parceria com Bayona em uma participação afetiva e afetuosa. Ah, sim: e BD Wong como nosso velho conhecido Dr. Henry Wu, que já deveria ter desistido de clonar dinossauros há muito tempo.

Esforçando-se para recriar novas versões de momentos icônicos do filme de 93 – por nostalgia ou como muleta para conquistar o espectador -, Bayona exibe uma personagem tendo seu primeiro encontro com as criaturas ao se deslumbrar com a imponência de um braquiossauro (até o posicionamento da câmera é similar) e homenageia Spielberg ao utilizar uma de suas marcas registradas: o travelling que se aproxima do rosto dos atores, em um ângulo baixo, enquanto estes olham deslumbrados ou chocados para algo fora de campo, incluindo até mesmo o facho horizontal de luz sobre seus olhos e que quebram as sombras que cobrem levemente o resto de seus semblantes. Aliás, o longa traz até mesmo uma brincadeira bem parecida com certa passagem de Indiana Jones e a Última Cruzada ao acompanhar um personagem que produz altos ruídos encobertos pelo bater de um martelo (assim como o idoso bibliotecário se surpreendia ao ouvir seu carimbo emitindo estrondos que na verdade eram provocados por Indy ao quebrar o assoalho). Na verdade, até mesmo o último capítulo é relembrado no instante em que Claire pede ajuda a Owen, já que em ambos os filmes vemos a mulher caminhando em direção à cabana do protagonista enquanto este se encontra numa escada de madeira.

No entanto, Reino Ameaçado não depende só de referências, alcançando ótimos resultados em várias de suas sequências de ação criadas a partir de conceitos novos: aquela que começa com a erupção do vulcão e retrata os heróis em diversas situações de perigo, por exemplo, é eficaz do início ao fim, alcançando seu clímax em um excepcional plano sem cortes que, ancorado no interior da girosfera que abriga Claire e Franklin, revela o caos e o perigo que cercam a dupla e que incluem não só os dinossauros, mas também lava e água.

Fotografado por Oscar Faura, parceiro habitual de Bayona, numa razão de aspecto considerável (2.40:1), Jurassic World 2 (ou Jurassic Park 5, como queiram) explora as possibilidades estéticas do quadro amplo para criar planos memoráveis por sua elegância, pelo terror que evocam, pelo drama ou pelo puro suspense. É notável, por exemplo, como o filme emprega a lava para iluminar pontualmente um túnel escuro situado atrás de um personagem, revelando, em pequenas explosões laranja, a silhueta de um dinossauro que se aproxima. Já em outro momento, Bayona e Faura deslocam a garotinha Maisie (vivida pela ótima Isabella Sermon) totalmente para a esquerda, fragilizando-a e encurralando-a no canto do pequeno elevador no qual se esconde depois de descobrir algo devastador. E se o Scope não impede que o diretor faça vários closes de Bryce Dallas Howard, com seus olhos expressivos sempre em destaque, a força do formato se apresenta mesmo nos quadros abertos que contrapõem humanos e animais.

Mas é mesmo a partir da segunda metade da projeção que o talento de Bayona vem à tona com vigor, permitindo que o cineasta converta momentaneamente a franquia em algo que ele sabe muito bem como abordar: um terror clássico ambientado em uma mansão mal-assombrada. É ali que Reino Ameaçado nos brinda com algumas de suas imagens mais memoráveis, como aquela que sobrepõe o reflexo do letal Indoraptor em um painel à pequena Maisie, que se encontra do outro lado do vidro. Da mesma forma, o diretor usa as sombras projetadas nas paredes para sugerir a aproximação do perigo (uma delas, envolvendo um cavalo de madeira, merece destaque), concebendo também um plano que mais uma vez traz Maisie em uma situação apavorante, desta vez em seu quarto, e que parece saída de um pesadelo. Para completar, preciso registrar meu prazer particular com a bela rima visual que traz, em dois instantes distintos, a mão de Owen se aproximando da cabeça de um animal enquanto uma única fonte de luz brilha ao fundo, espalhando flares e calor.

Como se não bastasse, o filme também é beneficiado pela excelente trilha de Michael Giacchino, que sabe se equilibrar entre o grandioso e o intimista com maestria, embalando a ação com acordes bombásticos e aumentando o efeito de situações dramáticas ou apenas melancólicas – como na cena em que Claire pergunta a Owen se este se lembra da primeira vez em que viu um dinossauro e o tema original de John Williams ressurge em delicadas notas de piano que dividem espaço com os instrumentos de corda que jamais nos deixam esquecer o perigo no qual o casal se encontra.

Porém, se há uma passagem deste Reino Ameaçado que realmente se encontra entre as melhores de toda a série é aquela que também se qualifica como uma das mais tristes (senão a mais), surgindo como uma combinação perfeita da trilha de Giacchino, da montagem de Bernat Vilaplana (que identifica a necessidade de pausar a narrativa), dos efeitos visuais irretocáveis e, claro, das atuações de Bryce Dallas Howard e Chris Pratt enquanto estes observam um braquiossauro em um píer.

Um pequeno instante de humanidade que cimenta a fantasia em nossa realidade.

Observação: há uma brevíssima (menos de dez segundos) cena após os créditos finais, mas esta não faz diferença alguma e pode ser ignorada sem problema.

09 de Junho de 2018

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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