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Críticas por Pablo Villaça

Ilha dos Cachorros
Isle of Dogs

Dirigido e roteirizado por Wes Anderson. Com as vozes de Bryan Cranston, Koyu Rankin, Edward Norton, Scarlett Johansson, Bob Balaban, Greta Gerwig, Akira Takayama, Yoko Ono, Akira Ito, Fisher Stevens, Liev Schreiber, Courtney B. Vance, Roman Coppola, Anjelica Huston, Ken Watanabe, F. Murray Abraham, Tilda Swinton, Frances McDormand, Harvey Keitel, Jeff Goldblum e Bill Murray.

Wes Anderson fica mais Wes Anderson a cada novo filme – ou esta é sensação que sempre tenho ao ver seus novos trabalhos: a de que seria impossível ele se tornar mais de si mesmo. Aliás, passando os olhos pelos textos que já escrevi sobre suas obras, constatei que já havia feito esta mesma observação, o que talvez seja um elogio à sua autoralidade absoluta. Ou apenas o reconhecimento de que seu estilo se transformou em muleta narrativa. Honestamente, não sei dizer. Dito isso, Ilha dos Cachorros é seu filme mais Wes Anderson. Por que digo isso? Porque um personagem, em certo momento, escreve um haiku para expressar seus sentimentos. Quer algo mais wesandersoniano do que isso?

Segunda animação da carreira do cineasta, o longa se passa num Japão futurista no qual o cruel prefeito Kobayashi (Nomura), maior liderança de Megacity, decide banir todos os cães para uma ilha composta de lixo, começando por Spots (Schreiber), cão de guarda de seu sobrinho Atari (Rankin). Anos depois, quando a ilha já se tornou território de uma infinidade de cães famintos e adoentados, somos apresentados ao grupo formado por Chief (Cranston), Rex (Norton), Boss (Murray), Duke (Goldblum) e King (Balaban). Criado nas ruas, sem dono, Chief se vê num dilema quando Atari cai com seu avião no local enquanto tentava encontrar Spots e passa a depender da ajuda da matilha para concluir sua busca. Enquanto isso, um grupo de ativistas liderado pela aluna de intercâmbio Tracy (Gerwig) inicia uma campanha pela liberação dos cães sem saber que o prefeito Kobayashi pretende exterminar todos os animais em breve.

Assim como ocorria em O Fantástico Sr. Fox, o elenco escalado por Anderson empresta suas vozes para os personagens como se estivessem numa desanimação, empregando tons baixos em um ritmo lento e melancólico mais do que apropriado à sensibilidade do diretor. As exceções ficam por conta de Bryan Cranston, Greta Gerwig e Kunichi Nomura: o primeiro, por usar sua voz naturalmente grave para conferir um sentimento de raiva contida a Chief; a segunda, para refletir a empolgação de Tracy; o terceiro, para expressar o perigo representado pelo prefeito. Já Edward Norton traz um ar de doçura e ingenuidade a Rex, enquanto Bob Balaban investe na insegurança de King (já Bill Murray e Jeff Goldblum fazem o de sempre: brilham criando variações de suas fascinantes e divertidas personas). Encontrando espaço até mesmo para uma inspirada participação de Yoko Ono, Ilha dos Cachorros ainda traz várias presenças recorrentes na filmografia de Anderson, de Frances McDormand a Tilda Swinton, passando por F. Murray Abraham e, numa outra escalação genial, Harvey Keitel.

No entanto, créditos também devem ser dados ao diretor de animação Mark Waring, já que os detalhes nos trejeitos, movimentos e expressões faciais dos personagens trazem um charme importante ao projeto, além, claro, de conferirem verossimilhança a um universo tão fantasioso. Além disso, o excepcional design de produção de Paul Harrod e Adam Stockhausen cria não apenas ambientes belos e evocativos (como o campo de golfe com grama cinza e o abrigo feito de garrafas descartadas), mas também personagens com visuais que lhes garantem individualidade e personalidade (do vilão com tronco imenso e perninhas finas à estudante quase albina com o rosto marcado de espinhas, passando, claro, pelos cães).

Já as marcas estilísticas características de Anderson encontram, na animação, infinitas possibilidades de expressão: a simetria central que domina suas narrativas, por exemplo, mostra-se presente no enquadramento dos personagens (sozinhos, surgem centralizados; em grupo, espalham-se uniformemente na tela) e na própria ação, como no plongé que exibe o avião de Atari envolvido por um círculo perfeito de folhas queimadas por sua queda. Já os travellings laterais, paralelos ao chão, apresentam um problema técnico, borrando a imagem excessivamente em função do contraste entre a velocidade do movimento da câmera e o número de frames que certamente tiveram que ser repetidos para que pudessem chegar aos 24 por segundo (um procedimento habitual no stop motion, já que raramente – por questões práticas óbvias – são realmente criados 24 quadros para cada segundo de projeção). Por outro lado, a fotografia de Tristan Oliver (retornando mesmo depois de reclamar publicamente da ausência de Anderson durante a produção de O Fantástico Sr. Fox) se mantém quente e agradável, trazendo um ar de fábula infantil que contrasta bem com os temas sombrios do roteiro.

Aliás, justamente por lidar com questões mais pesadas, Ilha dos Cachorros se beneficia do senso de humor normalmente melancólico do diretor – que já se mostra presente desde os primeiros segundos, quando percebemos que o narrador da história é um cão cego de um olho que tem a voz de F. Murray Abraham. Inspirado ao extrair piadas da lógica interna de seu universo (o dom premonitório da cadela Oráculo se deve apenas ao fato de que ela entende as transmissões de tevê), o longa usa até mesmo sua estrutura não-linear para provocar o riso, trazendo flashbacks inesperados que preenchem buracos na história de forma absurda.

Mas já que mencionei as ambições temáticas de Ilha dos Cachorros, é preciso apontar que estas também representam um importante ponto fraco do longa, já que tentam desenvolver discussões políticas que, convenhamos, nunca foram uma característica da filmografia de Wes Anderson. Assim, mesmo que o diretor tenha boas intenções ao falar sobre racismo, xenofobia e a intolerância de modo geral, suas alegorias oscilam entre o óbvio e o confuso: se nos apresenta a versões caninas de campos de concentração, por exemplo, Anderson se perde ao abordar as motivações do prefeito – e se o mundo contemporâneo, com suas sucessivas crises de refugiados, remete diretamente ao fascismo que levou à Segunda Guerra, o cineasta consegue a proeza de fragilizar seu filme ao estabelecer estes paralelos.

Nada disso impede que Ilha dos Cachorros seja adorável – e não poderia ser de outro modo: como se manter indiferente a um projeto no qual os personagens criados em plasticina constantemente surgem com os olhos cheios d’água? E, neste sentido, até que o filme acaba conseguindo ser politicamente relevante por acidente – afinal, nada mais importante em um mundo cinza como o nosso do que uma fantasia com um coração tão grande.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2018.

16 de Fevereiro de 2018

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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