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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
15/11/2018 16/11/2018 4 / 5 / 5
Distribuidora
Warner

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald
Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald

Dirigido por David Yates. Roteiro de J.K. Rowling. Com: Eddie Redmayne, Johnny Depp, Katherine Waterston, Ezra Miller, Dan Fogler, Zoë Kravitz, Alison Sudol, Callum Turner, Ingvar Eggert Sigurðsson, Claudia Kim, William Nadylam, Jamie Campbell Bower, Toby Regbo, Joshua Shea, Thea Lamb, Brontis Jodorowsky e Jude Law.

Tenho um fraco tremendo pelo universo concebido pela escritora britânica J.K. Rowling desde que acompanhei um confuso Vernon Dursley observar a celebração dos bruxos diante da partida de Voldemort apenas para, horas depois, ter o sobrinho Harry deixado à sua porta por Albus Dumbledore, pela professora Minerva McGonagall e por um emotivo Rubeus Hagrid. Desde então, Harry cresceu, derrotou o líder dos Comensais da Morte pela segunda vez e tornou-se adulto e pai, seguindo sua vida em paz enquanto, do lado de fora dos livros e das telas, ficávamos órfãos de suas aventuras. Não à toa, comemorei o retorno àquele universo em Animais Fantásticos e Onde Habitam e agora, dois anos depois, mais uma vez saio feliz de um reencontro com a imaginação de Rowling, que, mesmo perdendo-se pontualmente na estrutura de seu roteiro, mantém a habilidade de tornar aquele mundo palpável em seus fascinantes detalhes.

Retomando a história alguns meses depois dos eventos do capítulo anterior, Os Crimes de Grindelwald tem início quando o perigoso bruxo-título (Depp) está prestes a ser transferido dos Estados Unidos para a Inglaterra: eloquente a ponto de levar o ministério da magia a remover sua língua a fim de impedi-lo de cooptar seus carcereiros, Grindelwald não demora a escapar, partindo rumo à França com a intenção de encontrar o jovem Creedence (Miller), cujos poderes de destruição podem auxiliar sua causa contra os humanos não-mágicos e contra os bruxos que insistem em conviver pacificamente com estes. Convencido por Dumbledore (Law) a impedir que Creedence se torne parte dos planos do vilão, o magizoólogo Newt Scamander (Redmayne) viaja clandestinamente a Paris, onde acaba reencontrando o amigo trouxa Jacob (Fogler), a bruxa telepata Queenie (Sudol) e a irmã desta, a auror Tina (Waterston). Enquanto isso, o irmão mais velho de Newt, Theseus (Turner), lida com a pressão do ministério para prender Grindelwald ao mesmo tempo em que sua noiva, Leta (Kravitz), é forçada a enfrentar insinuações sobre o retorno de seu irmão supostamente falecido ainda bebê.

Apenas pela síntese acima é possível perceber como o roteiro de Os Crimes de Grindelwald é carregado de personagens, tramas e subtramas, não sendo acaso que o elemento Animais Fantásticos tenha se tornado desimportante a ponto de aparecer em fonte minúscula no título. Esforçando-se para justificar a manutenção de Newt como protagonista (algo que faz com relativo sucesso através de Dumbledore), Rowling faz questão também de incluir pequenos momentos dramáticos na trajetória de praticamente todos os personagens, deixando de perceber que um roteiro cinematográfico, ao contrário de um livro, rapidamente escancara qualquer elemento desnecessário – e toda a subtrama envolvendo Yusuf Kama (Nadylam) poderia perfeitamente ser descartada da narrativa sem afetar a história. Para completar, a britânica investe em flashbacks que, além de redundantes, soam fora de lugar em um projeto que, afinal de contas, já foi concebido como prequel (leia-se: um imenso flashback no universo original).

Mas se os tropeços ocasionais de Rowling podem ser creditados à sua pouca experiência como roteirista, menos compreensíveis são os equívocos cometidos pelo cineasta David Yates, que aqui comanda sua sexta incursão ao mundo de Harry Potter: a sequência que abre o longa, por exemplo, é absurdamente caótica, combinando uma montagem retalhada, movimentos de câmeras excessivos e uma fotografia mergulhada na escuridão ao acompanhar a fuga de Grindelwald, transformando uma passagem com imenso potencial em uma bagunça completa. Do mesmo modo, é difícil encontrar um motivo para o uso recorrente de câmeras subjetivas ao longo da projeção, já que estas surgem de forma aparentemente aleatória e sem qualquer função narrativa – o mesmo se aplicando à decisão de seguir Leta em sua excursão por Hogwarts com uma inexplicável câmera na mão. Além disso, se no capítulo anterior Yates exibia detalhes do universo mágico de modo ágil e sutil, aqui ele chega a interromper o fluxo da trama para enfocar, por exemplo, todo o processo de desmonte de um pequeno circo e o empacotamento de seus materiais.

Porém, é até possível compreender – mesmo reconhecendo o problema que representa - este impulso do diretor em exibir cada elemento da sociedade bruxa, já que o design de produção de Stuart Craig é magistral tanto em seus aspectos grandiosos (como a recriação de época, que combina o histórico e o fantástico) quanto em seus detalhes (como a mesa no ministério da magia que, em vez da clássica bola de cristal, traz uma poça d’água como superfície para exibir imagens invocadas pelos magos). É interessante, também, como a equipe de Craig diferencia os ministérios francês, britânico e norte-americano uns dos outros, destacando-se, de maneira similar, ao idealizar as criaturas do título (meus favoritos são o cavalo aquático feito de algas e o dragão chinês). Além disso, é um prazer especial retornar a Hogwarts e aos seus amplos salões, jardins e, claro, à icônica ponte que conduz até sua entrada – um reencontro que o compositor James Newton Howard torna ainda mais emotivo ao resgatar o tema de John Williams.

Mais uma vez fotografado pelo francês Philippe Rousselot em uma paleta sombria e com cores lavadas que corretamente conferem uma atmosfera pesada ao mundo mágico de J.K. Rowling, o longa certamente faz jus ao seu visual ao investir em uma narrativa que – apenas para exemplificar – inclui a morte não de um, mas dois bebês (não se preocupem; não se trata de spoiler). Aliás, é justamente por se tratar de um projeto tão carregado que se torna incompreensível como Yates, em mais um instante de julgamento pobre, decide incluir um plano em câmera lenta para fazer uma piadinha boba envolvendo uma criaturinha voando em uma rolha, já que se trata de algo que simplesmente não se encaixa em uma obra tão preocupada com a tensão e mesmo a possibilidade de genocídio (a sequência que traz um interminável véu negro cobrindo a cidade é bem mais apropriada, além de visualmente impactante).

Voltando à sua composição estilizada de Animais Fantásticos e Onde Habitam, Eddie Redmayne é novamente bem-sucedido ao retratar o fascínio e o carinho de Newt por suas criaturas e também sua valentia, mantendo os olhos constantemente arregalados diante do que testemunha e um ar de doce ingenuidade que desperta o carinho do espectador. Além disso, Redmayne é hábil ao trazer o personagem executando encantamentos e os movimentos de varinha mágica de forma quase casual, sugerindo segurança e conferindo verossimilhança às suas ações. Enquanto isso, o Jacob interpretado por Dan Fogler mais uma vez funciona como alívio cômico sem jamais tornar-se irritante ou artificial, ao passo que Alison Sudol evoca a natureza ansiosa de Queenie com talento. E se Katherine Waterston volta a criar uma boa dinâmica com Redmayne, Zoë Kravitz tem a oportunidade de imprimir um tom melancólico à Leta, mas acaba obtendo resultados irregulares ao por soar monocórdica demais. Já Claudia Kim, em contrapartida, deixa Nagini firme na mente do público mesmo com tempo reduzido de tela, beneficiando-se também da boa química com Ezra Miller, cujo Creedence consegue se estabelecer como uma figura ameaçadora sem perder a complexidade dramática vista no filme anterior. Dito isso, nenhum destes intérpretes é páreo para Jude Law, que, sem parecer se intimidar com o legado de Richard Harris e Michael Gambon, se apropria com segurança de Dumbledore, exibindo carisma, inteligência e calor humano – além de surgir como uma versão bem mais estilosa do poderoso bruxo graças aos ótimos figurinos da sempre competente Colleen Atwood (e é bom constatar como Rowling finalmente inclui uma referência clara à orientação sexual do futuro diretor de Hogwarts em vez de apenas abordá-la em redes sociais).

O que nos traz finalmente ao personagem do subtítulo, Gellert Grindelwald: encarnado por Johnny Depp como um tipo que foge do histrionismo, optando pela persuasão através da retórica, o vilão evoca ameaça desde o princípio – não só por sua implacabilidade, mas por se mostrar hábil ao empregar as vulnerabilidades emocionais e psicológicas de cada um como arma de sedução para sua causa. Atento à necessidade de revestir suas intenções fascistas com um verniz de boas intenções, ele alerta seus seguidores para o erro de expressar em voz alta o ódio pelos não-mágicos, sugerindo que, em vez disso, se concentrem em descrever sua causa como uma luta por “liberdade”. Além disso, o roteiro de Rowling é sábio ao apontar como a linguagem, especialmente a escolha cuidadosa de palavras, é uma arma em si mesma, ocultando a intolerância e tornando-a ainda mais cruel por agir através de subtextos, o que dificulta o combate aos seus efeitos: “(Os trouxas) não são inferiores; são diferentes”, diz Grindelwald em uma inflexão que quase nos permite ouvir uma piscada irônica em sua fala. Assim, não é difícil perceber como a roteirista emprega o sujeito e suas ideias como uma alegoria nada sutil do nacionalismo (e da consequente xenofobia) que atualmente ressurge ao redor do planeta – e tampouco é coincidência que Grindelwald mantenha residência na Áustria, berço de Hitler, já que os “puros-sangue” que o sujeito tanto preza nada mais são do que uma versão ariana bruxa.

Amarrando tematicamente o filme através dos conflitos entre vários pares de irmãos (Queenie-Tina; Newt-Theseus; Leta-etc) e das perdas individuais que praticamente todos os personagens importantes sofrem em algum ponto, Os Crimes de Grindelwald é um esforço mais irregular do que seu antecessor, mas não menos ambicioso. Além disso, representa um lembrete importante de que, como Newt eventualmente percebe, a omissão (ou “não escolher lados”) é um erro grave diante da ameaça representada pelo autoritarismo.

Algo que talvez seja bom todos mantermos em mente.

19 de Novembro de 2018

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Assista também ao videocast (sem spoilers) sobre o filme:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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