Críticas por Pablo Villaça

Poster: As Viúvas
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
29/11/2018 16/11/2018
Distribuidora
Fox

 

 


As Viúvas
Widows

As Viúvas

Dirigido por Steve McQueen. Roteiro de Gillian Flynn e Steve McQueen. Com: Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Cynthia Erivo, Daniel Kaluuya, Carrie Coon, Jon Bernthal, Manuel Garcia-Rulfo, Molly Kunz, Garret Dillahunt, Kevin J. O’Connor, Brian Tyree Henry, Jacki Weaver, Lukas Haas, Liam Neeson, Colin Farrell e Robert Duvall.

Em certo momento de As Viúvas, a líder de um pequeno grupo de mulheres que se prepara para executar um roubo audacioso encerra um encontro marcando uma nova reunião para a noite do dia seguinte a fim de acertarem novos detalhes – algo que leva uma de suas companheiras a se manifestar com relação ao horário: “(Às 23h15) é difícil; tenho filhos pequenos”. No entanto, se um filme menor trataria esta passagem como uma piada, o novo trabalho do cineasta Steve McQueen o encara com absoluta seriedade, mostrando-se consciente de que, para aquela mulher, trata-se realmente de um obstáculo significativo.

Escrito pelo próprio McQueen ao lado de Gillian Flynn (Garota Exemplar), As Viúvas é recheado de breves instantes como este, que, de forma tangencial à trama principal, ilustram as dificuldades do cotidiano de suas personagens e que frequentemente resultam não só de sua condição social, mas principalmente do fato de serem mulheres (e o pânico da normalmente valente Belle ao correr por sua perigosa vizinhança à noite, ao se dirigir ao ponto de ônibus, atesta como as risadas dos homens que a observam são um indício do perigo que representam). Assim, embora em essência o longa pertença ao subgênero heist film (que traz figuras planejando e executando roubos e assaltos elaborados), As Viúvas é também um trabalho que reflete sua época marcada por mudanças na compreensão da dinâmica entre homens e mulheres na sociedade e na queda de paradigmas que por toda a história da humanidade mantiveram as últimas subordinadas aos primeiros. Aqui, o roubo que move as personagens-título é um mero reflexo do protagonismo que estas assumem em suas próprias vidas quando uma ação executada por seus maridos resulta na morte destes, deixando-as vulneráveis às ameaças do perigoso líder criminoso local Jamal Manning (Tyree Henry) e de seu irmão Jatemme (Kaluuya).

Saltando entre uma dezena de personagens e desenvolvendo diversas subtramas que vão se encontrando de forma eficiente, o filme é encabeçado por Veronica, que a sempre fabulosa Viola Davis encarna como uma mulher que por anos preferiu manter os olhos fechados para as atividades ilegais do marido (Neeson), beneficiando-se do conforto sem se preocupar com a moralidade das ações que o tornavam possível. Subitamente atirada no universo que o sujeito ocupava, ela salta do medo à confiança ao decidir usar as anotações deixadas pelo companheiro para assaltar um cofre-forte e se livrar das exigências financeiras de Jamal – e serão suas interações com as companheiras, todas viúvas dos parceiros de seu marido, que moverão a narrativa. A latina Linda, por exemplo, ganha o rosto sério e triste de Michelle Rodriguez, que mais uma vez nos lembra da atriz talentosa que conhecemos há quase 20 anos em sua estreia no ótimo Boa de Briga, no qual já combinava dureza e fragilidade como faz aqui, ao passo que Elizabeth Debecki, a grande revelação do projeto, transforma a esguia Alice em uma figura que, logo percebemos, atravessou uma vida inteira de abusos físicos sofridos nas mãos da mãe (Weaver) e do marido (Bernthal), finalmente dando os primeiros passos para se tornar uma mulher independente e capaz de lutar contra seus algozes. Fechando o grupo, a estreante no Cinema Cynthia Erivo compõe sua Belle como alguém que rapidamente se adapta às necessidades do grupo, exibindo uma força capaz de silenciar até mesmo a dominante Veronica quando necessário. (Há também uma viúva interpretada pela excelente Carrie Coon, mas o pouco tempo de tela representa um desperdício de seu talento.)

Enquanto isso, o elenco masculino é basicamente composto por antagonistas: Daniel Kaluuya, que exibiu tanta vulnerabilidade em Corra!, desta vez surge como um homem frio em sua crueldade e na maneira como persegue as heroínas a fim de surpreendê-las no pior momento possível – e seu olhar sugere sempre uma malícia regada a sadismo, como se ele se divertisse com a própria antecipação ao que fará de terrível (e Brian Tyree Henry, como seu irmão, mostra-se igualmente eficaz no tom de perigo). Já Colin Farrell, como um político em meio a uma dura campanha contra Jamal, confere complexidade a um personagem que poderia facilmente ter se tornado uma caricatura, evocando incerteza quanto às suas ações, à carreira política de modo geral e aos métodos corrompidos do pai – o que resulta numa ótima cena que traz uma conversa entre ele e o pai (vivido pelo fantástico Robert Duvall) na qual décadas de ressentimentos começam a jorrar quase que por acidente e da qual ambos saem profundamente feridos. E se Jon Bernthal deixa clara a personalidade abusiva de seu personagem em menos de um minuto de cena, Liam Neeson tem um pouco mais de tempo para construir Harry, o marido da protagonista, descobrindo tons de cinza em um personagem que poderia se limitar ao preto ou ao branco. Para finalizar, o filme conta ainda com pequenas participações de Jacki Weaver e Lukas Haas que, embora breves, marcam ao seu próprio modo.

Demonstrando seu interesse em incutir subtextos sociais e políticos a uma narrativa que poderia se limitar às convenções com as quais o espectador já se mostraria confortável, o diretor Steve McQueen (Fome, Shame, 12 Anos de Escravidão) usa a atmosfera corrompida da política de Chicago (se um filme é ambientado naquela cidade, a corrupção inevitavelmente será abordada pela trama) com o objetivo de comentar o efeito das ações dos poderosos personagens sobre a população mais carente – e o momento mais revelador, neste sentido, é aquele em que a dona de um salão de beleza, acuada por ter que pagar propina justamente ao político responsável pela lei que viabilizou o estabelecimento, explica sua situação ao dizer “Eu sempre quis ter meu próprio negócio; agora posso pensar que tenho”. Do mesmo modo, não é à toa que Jamal quer entrar para política: ainda que afirme desejar se tornar o primeiro negro a representar seu distrito, seu verdadeiro objetivo é poder continuar a cometer crimes, mas agora sem o risco de prisão. E, claro, McQueen e Flynn tampouco esquecem que a religião desempenha um papel importante na manipulação política dos miseráveis, o que aqui é ilustrado pela figura de um pastor influente que em essência leiloa sua congregação à campanha disposta a pagar mais.

A inteligência do cineasta, por sinal, pode ser comprovada justamente na passagem que nos apresenta ao líder religioso: se normalmente um diretor dá início a uma cena através de planos abertos que estabelecem o espaço ocupado pelos personagens, aqui McQueen faz o contrário, abrindo-a em um close do sujeito em silêncio e que apenas gradualmente se abre, à medida que ele prega, para que descubramos aos poucos o alcance de suas palavras e, consequentemente, de sua influência e poder. Da mesma maneira, é notável como a sequência de ação que abre a projeção é ancorada na traseira da van que transporta os ladrões, colocando o espectador ao lado dos sujeitos em seu pânico – uma abordagem oposta à cena no boliche e durante a qual McQueen usa os quadros estáveis para gerar suspense com relação ao que Jatemme fará com o paraplégico Bobby (o expressivo Kevin J. O’Connor).

Contudo, um dos melhores momentos de As Viúvas é um relativamente sutil: aquele que tem início quando Jack Mulligan (Farrell) e sua companheira-assistente-? Siobhan (Kunz) entram em um carro após um evento e discutem durante o trajeto até o quartel-general da campanha – algo que McQueen acompanha em um plano único, sem cortes, ancorado do lado externo do veículo, permitindo que escutemos a conversa enquanto testemunhamos como a vizinhança vai mudando rapidamente, contrastando a humildade dos blocos habitados pela população negra carente à suntuosidade da rua ocupada pelo político. Já o flashback que revela o que ocorreu ao filho de Veronica e Harry é eficiente em sua construção, que expõe o racismo sistemático da sociedade norte-americana (e da nossa), mas a justificativa narrativa para a inclusão do incidente é frágil na melhor das hipóteses, soando como um esforço pouco orgânico para incluir mais um manifesto político em uma trama já supersaturada de incidentes e personagens.

O que nos traz ao principal problema do filme e que o compromete um pouco: a insistência do roteiro de incluir reviravolta atrás de reviravolta, mesmo que algumas destas (incluindo a principal) soem tolas e implausíveis. Além disso, o destino de certos personagens soa anticlimático (vocês saberão quando o virem), o mesmo valendo para o desfecho da história em si – embora, neste último caso, ao menos haja uma justificativa dramática.

Seja como for, As Viúvas é um projeto que já se destacaria apenas por seu excelente elenco; que não se contente com isso e traga um pouco de ambição a um projeto que poderia se limitar ao formulaico é algo digno de admiração.

30 de Novembro de 2018

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.