Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Chamado do Mal
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
06/12/2018 Unknown
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O Chamado do Mal
Malicious

O Chamado do Mal

Dirigido e roteirizado por Michael Winnick. Com: Bojana Novakovic, Josh Stewart, Melissa Bolona, Ben VanderMey, Jaqueline Fleming, Luke Edwards, Presley Richardson, Joy Kate Lawson, Bailee MyKell Cowperthwaite, Jo-Ann Robinson e Delroy Lindo.

“E=mc2”, escreve o professor Adam Pierce no quadro negro em uma de suas primeiras aulas na universidade que acabou de contratá-lo por uma pequena fortuna somada ao casarão luxuoso e livre de aluguel incluído como bônus. Não, Adam não é professor de Física; seu propósito é apenas o de usar a fórmula de equivalência entre massa e energia apresentada por Einstein para explicar para seus alunos o conceito de equação. Sim, pelo visto, os universitários ensinados pelo sujeito não sabem o que é uma equação, o que soa natural quando consideramos que, ao observar a explicação do professor, seu chefe observa que este está “ensinando Einstein aos alunos”. Mas se você considera isto risível, não se anime: a profissão do personagem também será empregada para tentar criar uma metáfora através da repetição ad nauseam de variações da frase “um mais um (é igual/nem sempre é igual) a dois” – algo que o diretor e roteirista Michael Winnick parece achar brilhante.

Vivido por Josh Stewart (mais sobre este em breve), Adam se muda com a esposa Lisa (Novakovic) para o campus que abriga a maior parte da narrativa ao receber a irresistível oferta mencionada no início deste texto e que é a única forma de atrair docentes para um departamento de matemática comandado pelo Dr. Clark (Lindo), um indivíduo que também atua como parapsicólogo, o que não contribui para criar uma boa reputação para a instituição. Não que Adam se importe com isso, já que sua surpresa ao conhecer seu superior indica que não teve sequer a curiosidade de pesquisar seu nome no Google antes de aceitar o emprego.

Como estamos lidando com um filme de terror, não é difícil perceber para onde a história caminha a partir daí: Lisa permanecerá sozinha na nova casa, começará a vivenciar incidentes estranhos que afetarão seu comportamento e inicialmente terá dificuldades para convencer o marido de que não está apenas sendo afetada pelos “hormônios” resultantes de sua gravidez (escrevi “hormônios” entre aspas porque os roteiristas de Hollywood obviamente adoram mencioná-los em relação a qualquer personagem feminina que se mostre ansiosa ou amedrontada). E por falar na ausência de Adam, é curioso notar como seu novo trabalho parece ocupá-lo tanto, já que aparentemente ele tem apenas uma turma - ao menos, é o que podemos deduzir, já que sempre vemos exatamente os mesmos alunos deixando a sala ao fim de suas aulas. Ou talvez o professor esteja apenas tentando evitar a esposa por estar cansado de ser surpreendido por seus autoquestionamentos que podem surgir aleatoriamente no meio de qualquer conversa - como na cena em que, do nada, ela solta um “E se eu não for uma boa mãe?”. Malditos “hormônios”.

Dirigido por Winnick com a competência de alguém que parece não ter a menor ideia do conceito de “suspense” (ou “direção”), O Chamado do Mal aqui e ali permite que o espectador identifique suas fontes de inspiração (cof-cópia barata-cof) ao incluir uma cena em que um homem é seduzido em um banheiro por uma bela mulher que acaba se revelando um espírito repulsivo (O Iluminado) ou ao apresentar o personagem de Delroy Lindo como uma versão grandalhona e cega da médium vivida por Zelda Rubinstein em Poltergeist que, por sua vez, representava um tipo clássico do gênero. Repetindo duzentos milhões de vezes certos planos que claramente julga fantásticos (como aquele em que, em câmera subjetiva, caminha em direção à porta do corredor no segundo andar, atravessando-a), o cineasta ainda se contenta com efeitos digitais de maquiagem patéticos para os seres que assombram os heróis e com uma trilha sonora que repete os velhos acordes de violino dissonantes que se transformaram em clichê trinta filmes atrás. Além disso, Winnick atira todo tipo de convenção na história, de pinturas cujos retratados mudam de posição a objetos que caem sem explicação, passando por reflexos com vida própria e indivíduos institucionalizados (em hospícios ou, neste caso, em prisões) que já enfrentaram a mesma ameaça no passado e podem oferecer informações cruciais para derrotá-la.

No entanto, se Winnick é um péssimo diretor, ao menos sua incompetência não se compara à dos atores que emprega – e poucas vezes vi uma atriz tão ruim quanto Melissa Bolona, que, vivendo a irmã da protagonista, nos proporciona um momento acidentalmente hilário no qual, ao ver o próprio reflexo se movimentando de forma independente no espelho, solta um “What the hell?” que envergonharia até Ashton Kutcher ou Steven Seagal. E se Bojana Novakovic até consegue demonstrar alguma emoção, nada pode ser dito em defesa de Josh Stewart, cuja presença no topo do elenco só pode ser atribuída ao fato de ser um dos produtores do projeto, já que sua expressão permanece inalterada do início ao fim da projeção, esteja seu personagem surpreso ao ver alguém em dois lugares ao mesmo tempo ou reagindo a um ferimento grave. Para finalizar, até mesmo o talentoso Delroy Lindo surge sem brilho ao interpretar “um dos pesquisadores de paranormalidade mais respeitados do país”, sendo obrigado a recitar diálogos ridículos como “Se as pessoas se esforçassem para ouvir, poderiam ver muito melhor com os ouvidos do que com os olhos” – uma afirmação que me despertou o desejo de dar um cocão no sujeito.

E em todos que repetiram incessantemente a tal fala sobre “um mais um”. Cujo resultado, no caso deste filme, é a tortura absoluta.

07 de Dezembro de 2018

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.