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Críticas por Pablo Villaça

Roma
Roma

Dirigido e roteirizado por Alfonso Cuarón. Com: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey, Carlos Peralta, Marco Graf, Daniela Demesa, Nancy García García, Verónica García, Andy Cortés, Fernando Grediaga, Jorge Antonio Guerrero, José Manuel Guerrero Mendoza, Zarela Lizbeth Chinolla Arellano, Clementina Guadarrama e Latin Lover.

São os detalhes que conferem vida às memórias. Quando penso em meu pai, que morreu quando eu tinha cinco anos de idade, tenho a tendência de vê-lo como uma figura unidimensional que pouco conheci – até que lembro de observá-lo jogando uma pastilha de Vitamina C efervescente num copo e me explicando o que provocava as bolhas. Então, consigo visualizar perfeitamente o tubo de plástico laranja e o sentimento de divertida fascinação que aquela pequena mágica me inspirava. De certa forma, meu pai é, para mim, uma construção a partir de detalhes como o cheiro do estofado do carro aqui, um olhar ali e o vento ao andar na garupa da bicicleta que ele pedalava acolá. São estes detalhes que o tornam real e trazem saudade de alguém que mal conheci.

Roma é um filme concebido a partir de elementos assim, mas também de uma forte nostalgia – que, em essência, nada mais é do que a romantização do passado. Escrito, produzido, fotografado e dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón, este é um projeto cuja natureza profundamente pessoal é inquestionável, sendo admirável como, no processo, acaba funcionando também como um retrato político e social que ao mesmo tempo o expande (ao usar a protagonista como um símbolo) e o limita (ao prendê-la à percepção do realizador).

Abrindo a narrativa com um plano que revela os ladrilhos da garagem da casa na qual a maior parte da ação transcorrerá enquanto estes são lavados para que se livrem dos dejetos caninos quase onipresentes na área externa, Roma logo nos apresenta à protagonista Cleo (a fantástica estreante Yalitza Aparicio), empregada da família composta pelo médico Antônio (Grediaga), sua esposa Sofia (de Tavira) e os filhos Paco (Peralta), Pepe (Graf) e Sofi (Demesa). Dividindo os afazeres com a amiga Adela (García), que, como ela, mora em um quartinho nos fundos da residência, a jovem trabalha basicamente durante todas as horas em que está desperta, começando o dia acordando as crianças e encerrando-o ao colocá-las para dormir, acompanhando também a família durante as férias (durante as quais segue servindo os patrões, claro) e os momentos de lazer, quando senta-se com esta para assistir a programas humorísticos no fim da noite (até que alguém lhe peça para ir à cozinha preparar um chá, obviamente).

Neste sentido, não seria absurdo encarar Roma como uma espécie de Cuando Ella Vuelve?, já que, como no filme de Anna Muylaert, o trabalho de Cuarón ressalta a influência da empregada doméstica na dinâmica familiar e mesmo na educação das crianças – e em certo ponto, por exemplo, ouvimos a pequena Sofi cantando uma música no dialeto mixteca natural de Cleo. Por outro lado, ao contrário da Val interpretada por Regina Casé, a personagem de Yalitza Aparicio permanece uma protagonista passiva do início ao fim da narrativa, permitindo que sua vida e suas ações sejam determinadas pelos patrões, pelas amigas/colegas e, de certo modo, pelo “namorado” Fermín (Guerrero), sendo revelador perceber como o filme retrata esta passividade até na maneira como a moça observa o sujeito demonstrando suas habilidades em artes marciais, espera seu retorno no cinema ou o observa se afastar depois de um confronto.

O curioso é que esta passividade é refletida na própria abordagem estética de Cuarón, cuja câmera – ao contrário do habitual em seus trabalhos – insiste em observar a ação de modo distante, discreto e nada passional: evitando closes e movimentos de câmera desconectados dos atores, o cineasta emprega panorâmicas lentas que frequentemente se mantêm entre cortes de um plano para outro, travellings paralelos ao movimento dos personagens e longas tomadas durante as quais vemos Cleo apagando as luzes da casa, lavando roupas ou escutando uma colega tagarela. Por outro lado, quando Cuarón quebra este padrão e investe em planos mais expressivos, o espectador registra a mudança e as intenções do realizador de forma mais intensa – e a cena que traz Antônio entrando na garagem com seu imponente veículo é eficaz justamente em função do maior número de cortes e dos planos-detalhe que expõem o cuidado do sujeito com o carro e o emblema de uma coroa na parte dianteira deste, sugerindo como o médico se enxerga (e é tratado) na dinâmica familiar, sendo indicativo também como é obrigado a sair pela porta do passageiro, denotando seu desconforto no próprio lar (além disso, é divertido notar como Sofia parece se empenhar em danificar o carro sempre que possível, descontando no carro sua frustração com o marido).

Imergindo o espectador na realidade de classe média alta na qual Cuarón foi criado na vizinhança que dá título ao filme, Roma faz um magistral trabalho de recriação de época (a ação se passa entre setembro de 1970 e julho de 1971) tanto em seus interiores – como a casa central e a fazenda (o cômodo com cabeças de cachorros empalhadas é inesquecível) – quanto em suas externas – como o miserável bairro no qual Fermín reside, com suas ruas enlameadas e casebres de madeira. Da mesma maneira, a fotografia do próprio cineasta não só é esteticamente primorosa em seu preto-e-branco que reconhece a riqueza das matizes de cinza (em vez de investir apenas no alto contraste ao qual tantos diretores recorrem automaticamente na ausência de cores) como também ao registrar texturas que parecem saídas diretamente de sua memória (como o carro tomado pela fumaça dos cigarros do pai e o jogo de formas e luzes dos terraços ocupados por roupas estendidas ao longo de toda a vizinhança). Para finalizar, o desenho de som do projeto é fundamental ao reconhecer o papel de ruídos e canções particulares na construção de nossas memórias afetivas, sejam estes originados de brinquedos de infância, de músicas ouvidas durante festas de família ou do granizo batendo nas janelas e no chão.

Como se não bastasse, Cuarón cria, em Roma, ao menos três sequências que, narrativa e tecnicamente, se juntam a alguns dos planos mais memoráveis de seus trabalhos anteriores (como o ataque ao carro e a batalha em Filhos da Esperança): o massacre de Corpus Christi que custou a vida de mais de cem estudantes mexicanos que protestavam contra o governo; o caos resultante no hospital e que impacta a protagonista de modo doloroso; e, claro, aquele que a acompanha em um movimento fluido e impressionante enquanto caminha da areia para o mar no terceiro ato. Aliás, como é hábito do diretor, nenhum destes instantes se contenta em ser meramente uma proeza técnica, contribuindo também dramaticamente para a narrativa – seja ao retratar um incidente histórico traumático como comentário político, seja ao ressaltar o pesadelo de um procedimento médico ou a tensão de um resgate desesperado.

Dedicado à antiga empregada da família de Cuarón que serviu de inspiração para Cleo, Roma é um filme que, para usar um clichê, tem o coração no lugar certo, sendo patente o carinho do cineasta para com a protagonista e seu respeito diante das dificuldades enfrentadas pelas mulheres diante do abandono, do egoísmo e da frieza masculinas. E, no entanto, é irônico como, apesar de todo este belo esforço de empatia, o mexicano não consegue evitar a condescendência originada de seus privilégios sociais e econômicos – algo que também diferencia este longa de Que Horas Ela Volta? - ao insinuar, mesmo com afeto, como Cleo é afortunada por contar com o amor da família branca de classe média à qual serve, trazendo, como momento catártico, um abraço coletivo tocante mas problemático no condicionamento da descarga emocional da moça à compreensão e ao apoio de Sofia e seus filhos. Assim, se Val compreendia sua posição e assumia o controle de sua vida, aqui Cleo se resigna à subordinação – o que poderia ser um comentário social relevante caso Cuarón não sugerisse que esta passividade acaba por ser compensada pela afeição de seus patrões.

E, assim, quando a jovem Sofi comenta a importância de determinada ação de Cleo apenas para emendar um “me traz uma vitamina?”, o sorriso que surge no rosto desta ao descer as escadas para atender ao pedido da menina incomoda não por indicar o contentamento da personagem, mas sim a projeção de seu antigo patrão-mirim, agora bem-sucedido diretor de Cinema, com relação ao que ele gostaria de enxergá-la sentindo.

Afinal, é bem mais fácil romantizar o passado quando não fomos nós que o passamos trabalhando de sol a sol, praticamente sete dias por semana, ocupando um quartinho apertado, recebendo baixos salários e vivendo para servir. Neste aspecto, a nostalgia pode ser também bastante reveladora.

03 de Janeiro de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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